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Grupo de pesquisadores vai criar Instituto Carolina Bori

Publicado em 14 maio 2012

Reconhecida internacionalmente pela participação na luta contra a ditadura militar e pelo legado científico, a história de Carolina Martuscelli Bori, cientista paulistana, dará origem ao Instituto Carolina Bori (iCB). O órgão servirá de base para apoiar e difundir estudos sobre o comportamento humano e contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas para o meio ambiente, saúde, educação e pobreza.


Previsto para ser oficializado em outubro próximo, o iCB, em estudo há cerca de dois anos, deve ser alocado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), inicialmente.

Nascida em 4 de janeiro de 1924, na capital de São Paulo, a psicóloga Carolina morreu em 4 de outubro de 2004. Reconhecida por sua atuação em favor dos direitos humanos, da melhoria da educação e da evolução científica, ela foi professora emérita da USP e especialista em análise experimental do comportamento, disciplina que ajudou a introduzir e desenvolver ao longo dos anos no País. Pioneira em pensar a educação como ciência, Carolina é reconhecida também por seu espírito público e atitude ética na área científica.

O projeto iCB vem sendo elaborado nos moldes dos chamados think-tanks, grupos de pesquisadores que realizam estudos interdisciplinares e refletem sobre temas contemporâneos, procurando influenciar a sociedade. A iniciativa é liderada por Maria do Carmo Guedes (PUCSP), João Bosco Jardim (Fiocruz) e Maria Helena Hunziker (USP). Compõem o grupo 19 idealizadores, entre docentes, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação, a maioria de São Paulo. Participa também a secretária de diretoria da SBPC há mais de 30 anos, Eunice Maria Fernandes Personini. Da PUC-SP integram o grupo Nilza Micheletto, Sandra Bettoi e Sergio Luna. E da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Deisy das Graças de Souza.

Da Universidade de São Paulo (USP) existem quatro pesquisadores: Eda Tassara, que

também dirige o Instituto Brasileiro de Educação, Cultura e Ciências (IBECC), Marcelo

Tassara, Maria Martha Hubner e Isaías Pessotti. A lista é composta também pelos estudantes Gabriel Vieira Candido, da USP de Ribeirão Preto. E por Maria de Lima Wang, Thais Albernaz Guimarães, Camila Silveira, Adriana Piñero e Bruno Costa - todos esses da PUC-SP. Além de Sílvia Murari, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Início - A ideia de criar o iCB foi lançada na reunião de 2010 da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC), em Campos do Jordão. Em seguida, foi criado o grupo de pesquisadores, que se reúne com frequência para discutir o andamento e o amadurecimento da proposta. Até agora, além de reuniões mensais, foram realizados três encontros interdisciplinares, chamados de colóquios. O mais recente ocorreu na sede da SBPC, em São Paulo, em meados de abril. O próximo será em 28 de maio, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

A intenção dos pesquisadores é usar o espaço Instituto Carolina Bori para discutir problemas atuais, como a degradação ambiental, o estado lamentável da educação, semelhante ao da saúde pública. Na observação de João Bosco Jardim, os estudos comportamentais podem orientar as políticas públicas, contribuindo para a solução desses problemas. "Meio ambiente, saúde, educação, tudo isso está ligado ao comportamento humano."

Ditadura militar - Uma das marcas de Carolina, que presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) de 1985 a 1989, depois de ocupar outros cargos na diretoria da entidade, é o importante papel que assumiu na resistência das sociedades científicas à ditadura militar entre 1973 e 1977, quando o horror e a tortura silenciavam os artistas e intelectuais nos cárceres do regime.

Mesmo sob as tensões do período, ela organizou as condições que transformaram as reuniões anuais da SBPC em um espaço de resistência ao sistema, com participação de intelectuais e cientistas, a favor da redemocratização do País e na defesa dos direitos humanos. No período militar, a SBPC representou um fórum democrático de crítica ao regime, época em que cerca de 30 mil sócios se filiaram para ter um espaço em que pudessem criticar o governo.

Missão inovadora - O grupo que planeja criar o iCB nasce com a ideia de propor estudos sobre o comportamento humano adotando práticas semelhantes às de Carolina. "Carolina Bori nos legou um modelo comportamental de conduzir a ciência. Queremos que esse modelo seja a base para influenciar, para pensar o futuro, para colocar os temas comportamentais nas pautas das agências governamentais e das políticas públicas", descreve o pesquisador do comportamento João Bosco Jardim.

Até então, os temas mundiais mais estudados pelos chamados think-tanks são a segurança e relações internacionais, desenvolvimento mundial, o ambiente nacional e internacional da política econômica, política social e ciência e tecnologia. Um exemplo de contribuição desses grupos ocorreu nos Estados Unidos, no início do século 20, quando alguns pesquisadores independentes locais ajudaram o país a se recuperar da grande Depressão Econômica, iniciada em 1929. Hoje esses grupos de reflexão estão presentes em quase todos os países. Estima-se que 85% dos países possuem os chamados think-tanks, a maioria (60%) encontra-se nos Estados Unidos e Europa, segundo dados da Universidade da Pensilvânia. Existem 6,545 mil desses grupos distribuídos por 182 países, acrescenta o relatório anual do Programa Sociedades Civil: o Global Rankings Go-To think tank de 2011.

Conforme recorda o pesquisador da Fiocruz, o estudo do comportamento ganhou ímpeto no Brasil em 1961. A difusão dos estudos comportamentais, porém, é ainda muito restrita às universidades. Ele vê necessidade de ampliar e difundir esses estudos em escala influenciando, por exemplo, governos e organizações.

Apoio financeiro - Os primeiros financiamentos do ICB serão buscados nas agências de fomento e acadêmicas, como a Fapesp, a Fapemig e a Capes. Os pesquisadores querem também o apoio financeiro no âmbito da Lei do Bem. A intenção é também expandir o grupo e fazer acordos com outras instituições de pesquisas. "Queremos a participação de pessoas que atuam na ciência, não necessariamente cientistas, mas de diferentes disciplinas. Queremos comunicadores, sociólogos, educadores, economistas, epidemiologistas, por exemplo. Não queremos nos limitar a psicólogos."

Recuperação de obras - A obra de Carolina assemelha-se à de vários cientistas e pensadores que deixaram seu legado no planeta Terra, mas não registraram suas obras "em cartório". Hoje o desafio do grupo de pesquisadores é resgatar a obra de Carolina Bori.

Graduou-se em 1947, após concluir o curso na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, na rua Maria Antônia. Em 1948 foi contratada pela mesma faculdade como primeira assistente da cadeira de Psicologia. Na pós-graduação, foi estudiosa de Kurt Lewin tendo cursado mestrado na Graduation School of the New School for Social Research, em Nova York, em 1952, e o doutorado na USP, em 1954. Na academia, foi docente da USP desde 1948, instituição que lhe concedeu o título de Professora Emérita em 1994.

A cientista atuou em várias frentes de trabalho, desde a formação de docentes e pesquisadores, até a implementação de cursos e laboratórios de psicologia experimental em todo o Brasil. Além de implementar e trabalhar na consolidação da Análise Experimental do Comportamento na área científica, juntamente com associações e órgão de fomento, viabilizou políticas adequadas de incentivo à pesquisa tanto para a psicologia, quanto para a ciência em geral. Esforçou-se para implementar melhores condições de ensino, através da programação de cursos de formação e aperfeiçoamentos de docentes; e na divulgação de ciência para jovens e para a população em geral.

Presidiu várias instituições científicas, dentre as quais, além da SBPC, o IBECC, a Associação Brasileira de Psicologia, a Sociedade de Psicologia de São Paulo e a Comissão de Especialistas de Psicologia do Ministério da Educação - SESu. Ela orientou 15 doutorados (sistema antigo), até 1972, na Universidade de São Paulo. Depois da implementação do atual sistema de pós-graduação orientou 49 mestres e 27 doutores.

(Viviane Monteiro - Jornal da Ciência)