Notícia

Jornal de Itupeva

Grupo de pesquisadores desvenda enigma da malária

Publicado em 13 agosto 2006

Por Eduardo Geraque, Agência FAPESP

O parasita do gênero Plasmodium, causador da malária, surpreende mais uma vez. Em artigo publicado na revista Science, grupo de pesquisadores com representantes da Alemanha, França e Brasil revela como o agente patogênico dribla a atenção do sistema imunológico do hospedeiro para chegar até a corrente sangüínea e, a partir dali, deflagrar a infecção.
Os pesquisadores já sabiam que o processo tinha seu início nas células do fígado do hospedeiro. Mas eles não entendiam com precisão como o parasita fazia para passar das células do tecido hepático para os glóbulos vermelhos do sangue.
O plasmódio, ao entrar nas células no fígado do hospedeiro após a picada do mosquito, começa a se reproduzir de forma assexuada. Nesse estágio, eles são chamados de merozoítos pelos pesquisadores. São eles que vão desencadear todo o ciclo da malária nos mamíferos.
Primeiro, os merozoítos matam as células do tecido do fígado onde estão hospedados. Esse processo faz com que esses conjuntos celulares sejam liberados na corrente sangüínea para serem, posteriormente, eliminados. É nessa etapa que surge o truque parasitário descoberto agora.
O plasmódio consegue desligar uma proteína que seria responsável por deflagrar a fagocitose (processo celular que ingere e digere elementos estranhos). Portanto, eles ficam livres para circular pela corrente sangüínea, invadir os glóbulos vermelhos e seguir espalhando a infecção.
"O que mais nos surpreendeu foi a capacidade do parasita em manipular o organismo hospedeiro em seu proveito. Assim, o plasmódio utiliza a célula hospedeira para, ao mesmo tempo, se camuflar e ser transportado na corrente sangüínea, como um verdadeiro cavalo de tróia", explica Rogerio Amino, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um dos autores do estudo, à Agência FAPESP.
O pesquisador brasileiro desenvolveu as pesquisas em Paris, porque todos os estudos foram feitos com o Plasmodium berghei, espécie que não é encontrada entre os mosquitos que ocorrem no Brasil. Diante do conhecimento de mais uma etapa do complexo ciclo de vida do causador da malária, Amino e seus colegas já vislumbram novos caminhos científicos que serão seguidos a partir de agora.
"Um caminho interessante seria compreender como o parasita é capaz de manipular a célula hospedeira em termos moleculares. Um outro é tentarmos identificar drogas que possam inibir esse processo e, conseqüentemente, a liberação dos parasitas na corrente sangüínea".