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Grupo de pesquisa da UFSCar se dedica ao estudo de doenças infecciosas e processos inflamatórios

Publicado em 25 junho 2017

Por que a inflamação acontece? Até que ponto o processo inflamatório pode ser benéfico ou maléfico para o organismo? Essas são algumas das questões que norteiam o Grupo de Pesquisa (GP) "Inflamação e Doenças Infecciosas" do Departamento de Morfologia e Patologia (DMP) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O grupo é coordenado por Fernanda de Freitas Aníbal, docente do DMP, e realiza estudos desde a iniciação científica até o pós-doutorado, além de parcerias com empresas e instituições de pesquisa brasileiras e estrangeiras.

De acordo com Fernanda Aníbal, o foco central do grupo, que surgiu em 2009, é compreender a inflamação em doenças infecciosas em diferentes tipos de câncer, na avaliação de novos cosméticos, de novos biomateriais para fechar lesões ósseas e na aplicação de laser na regeneração tecidual. "Temos uma diversidade grande de projetos dentro do grupo e nossa principal questão é saber porque a inflamação acontece e até que ponto ela pode ser boa ou ruim para o organismo", afirma a docente. Segundo Aníbal, as inflamações rápidas são benéficas para o corpo. "Quando um processo inflamatório é rápido ele estimula o reparo tecidual, melhora o perfil da resposta imunológica, promove modulação de células, favorecendo o indivíduo afetado com alguma lesão", explica a pesquisadora. Nos casos em que a inflamação se estende por tempo prolongado pode ocorrer a perda funcional de alguns tecidos e a lesão pode se tornar irreversível. "Nossas pesquisas pretendem buscar soluções em fármacos e imunoterapia para reverter a ação maléfica da inflamação", complementa Aníbal.

Atualmente, o GP possui 18 projetos sendo realizados entre pesquisas e parcerias desenvolvidas com instituições como Embrapa Pecuária-Sudeste, Embrapa Instrumentação, Hospital do Câncer de Barretos (SP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal da Grande Dourados (UFGC) e Universidade Nova, de Lisboa (Portugal). O grupo também mantém contato com outros departamentos da UFSCar, como os de Química (DQ), Engenharia Química (DEQ), Medicina (DMed), Educação Física e Motricidade Humana (DEFMH), Genética e Evolução (DGE) e Gerontologia (DGero).

Dentre a diversidade de projetos, Fernanda Aníbal destaca alguns que mostram a importância da atuação do GP. Um deles é uma pesquisa que deu origem a um fitofármaco para tratar a esquistossomose mansônica, doença parasitária, causada pelo Schistosoma mansoni, que pode ser assintomática em alguns casos, mas que em fases mais crônicas pode causar lesões no baço e no fígado, como a fibrose hepática, por exemplo - doença que pode modificar o funcionamento do fígado e ter graves complicações como a cirrose, que pode levar ao óbito. "Existe apenas um fármaco recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e também usado no Brasil, para o tratamento da esquistossomose, mas que não controla a fibrose hepática e nem o processo inflamatório na fase crônica da doença. Nós estudamos uma planta e desenvolvemos um fitofármaco que, além de tratar a doença principal, consegue reduzir a fibrose hepática graças à sua potente ação anti-inflamatória", explica Aníbal. A pesquisa rendeu uma patente que já está depositada, publicações em revistas de excelência e apresentação da descoberta em diversos eventos científicos no exterior.

Outro destaque são os estudos dedicados à criação de vacinas para doenças como a esquistossomose, realizada em parceria com o Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), e contra a erisipela suína (doença que compromete a qualidade da carne suína), em parceria com o DEQ e DGE da UFSCar. "Nessa parceria com a USP estamos em fase experimental ainda, sem dados para ensaio clínico, mas já encontramos três enzimas que nos parecem promissoras na vacina contra a esquistossomose", conta a docente. Em relação à erisipela suína, a proposta do trabalho é criar uma vacina que exija menos tempo de reforço do que a vacina que já é normalmente utilizada. "O reforço das duas vacinas tradicionais é a cada seis meses. Esse tempo menor entre as doses de vacina pode causar, a longo prazo, uma artrite nos porcos, levando-os à morte. Nossas pesquisas estão sugerindo uma necessidade de reforço da vacina em intervalos maiores, provavelmente a cada dois anos", ressalta a professora. "Os resultados até agora são excelentes. Tivemos uma empresa interessada e futuramente iremos iniciar os testes em suínos", indica Aníbal.

Outros estudos realizados pelo GP envolvem temáticas relacionadas ao câncer de mama e o de pele, diabetes, reparo de lesões ósseas e de pele, controle de parasitas em caprinos, bovinos e búfalos, teste de pele artificial para curativos, além da avaliação de parâmetros mais sensíveis da resposta inflamatória. De acordo com Aníbal, o grupo pretende apontar possibilidades de fármacos, tratamentos e vacinas para auxiliar o controle de várias doenças. "Nossa intenção também é trabalhar com doenças que são negligenciadas, como a esquistossomose e leishmaniose, por exemplo, que possuem poucas indústrias farmacêuticas interessadas em fazer investimentos", diz a docente.

As atividades experimentais do grupo são praticadas no Laboratório de Inflamação e Doenças Infecciosas, instalado no DMP, que possui quatro salas, destinadas ao processamento de material biológico, biologia molecular, cultivo de célula e sala externa que se estende ao Biotério do Departamento. A maioria das pesquisas desenvolvidas pelo GP possui financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além dos investimentos de algumas empresas que têm parceria com o grupo. "Essas oportunidades são importantes para a o desenvolvimento do nosso trabalho, tanto para o grupo de pesquisa quanto para o laboratório", considera Aníbal. A partir dos recursos já investidos, a docente relata que foi possível fazer reformas no laboratório e investir na aquisição de equipamentos de alta tecnologia.

A professora acredita que a participação no grupo de pesquisa e a própria prática no laboratório são importantes para a formação dos alunos. "Estimulamos a promoção de seminários para que os diferentes trabalhos desenvolvidos sejam apresentados e conhecidos por todo o grupo, como uma forma de incentivar trabalhos colaborativos e formação de mais grupos de pesquisa. Além disso, estimulo muito os alunos a participarem de pesquisas e projetos em outras instituições para ampliar a formação deles", conta Fernanda Aníbal.

Os próximos passos para o trabalho do grupo incluem parcerias com instituições dos Estados Unidos e da Inglaterra para estabelecer colaborações em pesquisa. "Nossa intenção é construir uma rede para refinar os dados para publicações de alto impacto e contribuir com a literatura atual dessa grande área do conhecimento", relata a docente. Outra grande expectativa da pesquisadora é iniciar a aplicação de alguns resultados em testes clínicos. "Queremos pegar a pesquisa básica e aplicar na clínica, como por exemplo, testar o fitofármaco descoberto para tratar a esquistossomose em humanos e também testar o uso de novos nanomateriais em amostra de sangue periférico dos indivíduos expostos", conclui Aníbal.