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Gripe aviária: Alta suscetibilidade

Publicado em 28 setembro 2006

Por Eduardo Geraque, Agência FAPESP

Especialista da FAO para gripe aviária, em visita ao Brasil, afirma ser muito cedo para baixar a guarda. Segundo ele, todos os países que recebem aves silvestres migratórias precisam ficar atentos

É bem verdade que a versão de alta patogenicidade do vírus da gripe do frango ainda não se adaptou ao ser humano. É fato também que, desde 1983, quando o primeiro caso da doença foi detectado em aves na Pensilvânia, Estados Unidos, esses resultados positivos, dentro das Américas, foram repetidos apenas outras quatro vezes. Primeiro no México (1994) e depois no Chile (2002), no Canadá e nos Estados Unidos (ambos em 2004).
Apesar de existir esse aparente controle da situação na América Latina, o fato de a doença ter se espalhado geograficamente pelo mundo nos últimos anos — e ainda ter causado a morte de 144 pessoas, mais o sacrifício de 224 milhões de aves — faz com que as autoridades sejam categóricas. Não se pode pensar ainda, muito pelo contrário, em baixar a guarda.
"Qualquer país, nesse momento, está suscetível. Em qualquer lugar que cheguem aves silvestres existe a possibilidade de detectar algum caso positivo. O que deve ser feito, e não apenas no Brasil, mas em todo o continente, é tentar fazer uma identificação precoce do problema", disse o médico veterinário e zootecnista Juan García, consultor da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
"Uma das ações importantes que precisam ser feitas é o treinamento de pessoal, seja para examinar aves silvestres ou para perceber onde estão os riscos nas criações, sejam essas grandes ou pequenas", disse García à "Agência Fapesp". O cientista, mexicano de nascimento e radicado em Santiago, Chile, está no Brasil a convite da Dupont, para visitar clientes da empresa, que tem forte atuação no mercado aviário nacional.
Segundo o consultor da FAO, a solução seria criar uma barreira física para que o problema não se instale na região. "Pela experiência que temos é possível afirmar que se o vírus chegar a determinada população, e não for identificado logo de início, ele se reproduzirá muito rapidamente. Depois disso, será muito difícil fazer qualquer tipo de controle", afirmou.
Os pesquisadores que monitoram a chegada do vírus a um determinado local sabem exatamente qual o caminho da doença. Hoje, o vírus causador da gripe do frango circula pelo mundo levado por aves silvestres migratórias.
No caso da América do Sul, é mais provável que o vírus chegue pelo norte. Isso porque as aves que vêm do hemisfério Norte, e que se podem ter se encontrado no Alasca com outras vindas da Ásia, param no Caribe, mesmo local escolhido por aquelas que saem do sul do continente no inverno.
"O programa de controle da FAO atua para conscientizar governos e também produtores avícolas do problema. Estamos organizando cursos em vários países latino-americanos, inclusive no Brasil. É fundamental investir na vigilância e na biossegurança das criações, das grandes às pequenas, com dez ou 15 animais no quintal da casa. Podemos dizer que todos os governos estão trabalhando intensamente nisso", disse García.

Laboratórios nacionais
Dentro da estratégia da FAO, outro obstáculo é a quantidade de laboratórios de referência para o diagnóstico do problema e que sejam credenciados pela instituição nas Américas. "São apenas dois: um em Ames, nos Estados Unidos, e outro em Winnipeg, no Canadá", disse.
Segundo o pesquisador mexicano, os técnicos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação estão bastante atentos para esse gargalo científico. "Nós, na FAO, queremos ter mais laboratórios de referência, que tenham capacidade de trabalhar com certa segurança. Ainda bem que hoje já existem provas moleculares que podem facilitar bastante a identificação do vírus", afirmou.
Ao defender a vigilância e o controle, principalmente das pequenas propriedades, onde o contato entre aves e homem é bastante grande, García sabe bem o que diz. O México, país de origem do pesquisador, tem há tempos o vírus, em sua versão menos agressiva, em aves domesticadas. "Sabemos que se algum chegar a uma granja grande, por mais controle que se tenha, irá provocar a morte de todos os animais", disse.
Os criadores de frango europeus, onde o problema já existe, sabem muito bem o prejuízo que a gripe do frango traz. Em 2006, segundo exemplo apresentado pelo consultor da FAO, a Itália teve uma queda de 70% nas exportações de frango. "Mesmo no Brasil, o preço do quilo do produto já subiu de menos de R$ 1 para R$ 1,65", lembrou García.
(Agência Fapesp, 28/9)