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A Tribuna (Santos, SP) online

Greve da Receita Federal atrasa pesquisa sobre oceanos em risco

Publicado em 18 abril 2018

A greve de servidores da Receita Federal que atuam no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e a demora para a liberação de um documento pela Secretaria Estadual da Fazenda chegaram a colocar em risco um cruzeiro do navio de pesquisas oceanográficas Alpha Crucis, previsto para começar na próxima sexta-feira (20), a partir do Porto de Santos. Isto porque os equipamentos necessários para a expedição só foram liberados na manhã desta quarta-feira (18), data limite para faze-la.

O Alpha Crucis, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), está sendo preparado em sua base, o Armazém 8 do Porto de Santos, para um cruzeiro pelo Atlântico Sul. A expedição é parte do projeto Sambar, que investiga impactos de mudanças climáticas nos oceanos. Os estudos são financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A partida da embarcação está prevista para a próxima sexta-feira, às 16 horas. O cruzeiro terá 17 dias e reunirá pesquisadores de instituições do Brasil, da Argentina, do Uruguai e dos Estados Unidos, que estudarão o papel do Atlântico Sul nas variações do clima.

Entre os brasileiros, estarão pesquisadores do IO-USP, da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Federal da Bahia ( UFBA).

De acordo com o professor do IO Edmo Campos, responsável pela preparação do cruzeiro, parte dos equipamentos que serão utilizados na pesquisa durante a viagem foi doada por uma instituição norte-americana. Eles foram descarregados no aeroporto de Guarulhos em 27 de março, mas só foram liberados pela Receita Federal na última sexta-feira. Neste período, foram cobrados R$ 17 mil de estadia dos aparelhos no terminal aeroportuário.

A partir daí, foi iniciada uma corrida contra o tempo para garantir o documento de isenção do recolhimento do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), a ser emitido pela Secretaria Estadual da Fazenda e que é necessário para a liberação dos aparelhos.

“Nós não recebemos os equipamentos ainda. O problema é que eles precisam estar a bordo dois dias antes do cruzeiro porque a equipe de cientistas e técnicos precisa fazer uma série de configurações com o navio em repouso”, explicou o professor.

Investimento

Campos destacou que, até o momento, sem contar os gastos com combustíveis, já foram investidos mais de R$ 250 mil na preparação do cruzeiro. A estimativa é de que, no total, a expedição custe em torno de R$ 5 milhões. “Isso é dinheiro público. O dinheiro da Fapesp é do contribuinte. Não é uma empresa que está fazendo uma importação. Isso é um projeto científico que tem um valor, do ponto de vista da sociedade, muito grande. É um trabalho no qual a gente tenta entender o comportamento do sistema climático para poder melhorar as nossas formas de prever e, eventualmente, de assessorar a sociedade na sua forma de se adaptar às possíveis mudanças que vão acontecer”.

Segundo o professor do IO-USP, o custo diário do Alpha Crucis atracado no cais santista gira em torno de R$ 40 mil. “O navio só tem valor quando está no mar. Se ficar atracado, ele se torna simplesmente um dreno gastando dinheiro, porque há uma tripulação que precisa ser paga”.

Cruzeiro

Pelo cronograma do IO-USP, o Alpha Crucis sairá do Porto e seguirá para o Sul do País, nas proximidades do Chuí, na divisa do Brasil com o Uruguai. Lá, as pesquisas se estenderão das proximidades da costa até as regiões mais afastadas, no centro do Atlântico.

Campos explica que o cruzeiro também é necessário para verificar equipamentos instalados no fundo do oceano. “Precisamos retirar instrumentos, colocar baterias, fazer relançamentos e, ao mesmo tempo, fazer uma série de amostragens de propriedades físicas e químicas da água”.

Para o professor, o trabalho é intenso e tem um grande valor científico. As pesquisas permitirão entender como o Atlântico está respondendo às mudanças climáticas globais e quais as consequências dessas transformações no clima e nas condições do litoral, como o nível do mar e os sistemas de ressaca. “Se por acaso esse cruzeiro tiver que ser cancelado, nós vamos ter um prejuízo de algumas centenas de milhares de reais. O Brasil não é um país que pode se dar ao luxo de perder tanto dinheiro, sem contar que o prejuízo científico é muito maior”, destacou Campos.