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Gravidade Constante

Publicado em 01 maio 2011

Por Luiz Gustavo Pacete

A premissa do jornalismo é transformar um assunto complexo e de interesse público em algo compreensível e acessível ao maior número de pessoas possível, por vezes com pouco tempo para produzir e espaço limitado para publicar. Uma pesquisa científica, por outro lado, lida com experimentos muitas vezes demorados, detalhados, repletos de termos técnicos, com resultados publicados em extensos ensaios, livros ou artigos especializados. Os dois interesses se conflitam quando a questão é explicar ciência ao público leigo. Demanda há: uma pesquisa recente do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) identificou que 65% dos 2 mil entrevistados em todo o Brasil demonstraram interesse pelo assunto. O levantamento também mostra que o jornalista é a segunda fonte mais confiável quando se trata de ciência, perdendo apenas para os médicos.

Ainda que a pesquisa seja animadora para quem defende a popularização da ciência, ela traz dados preocupantes. Somente 12% dos que declaram se interessar por ciência consegue: citar o nome de um cientista brasileiro, e apenas 18% sabe mencionar uma instituição dedicada ã área. O físico Ildeu de Castro Moreira, coordenador do levantamento, aponta que o resultado "é uma prova de que o Brasil ainda é extremamente desigual em termos de informação". Para o editor de ciência da Folha de S.Paulo, Reinaldo José Lopes, existe só um caminho para que a imprensa transforme o assunto em algo próximo da população: "Mostrar ao leitor que a ciência está diretamente ligada ao seu dia a dia por meio de exemplos claros, contando histórias que gerem identificação", defende.

Além do aumento no interesse público, ciência tem sido pauta frequente desde o início do ano, quando o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloísio Mercadante, começou a levar à imprensa o objetivo de repatriar cientistas brasileiros. "É importante que tenhamos esses profissionais de volta ao Brasil, assim como fez China e índia", defende o ministro. Bernardo Esteves, repórter da revista Piauí e mestre em história da ciência pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reconhece que a medida de trazer cientistas de volta ajuda na discussão e popularização do assunto, ainda que de forma moderada. "É importante que o tema ganhe relevância e visibilidade quando colocado no centro das atenções. Se isso for frequente no noticiário, facilitará na familiarização do leitor com o assunto", diz.

DIDÁTICA E METÁFORAS

Colunista do Portal IMPRENSA e especializado em publicações segmentadas, Wilson da Costa Bueno diz que a linguagem técnica é um dos principais dilemas debatido pelo jornalismo científico. "O repórter deve cumprir uma função mais didática, facilitando a compreensão do leitor distante do assunto", assinala. O biólogo brasileiro e professor da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), Alysson Muotri, avalia como positiva a cobertura de ciência no Brasil, mas chama a atenção para a qualidade das traduções. "Em geral, artigos e pesquisas traduzidos são fracos e superficiais. Por outro lado, acompanho reportagens brasileiras pela internet e percebo que os jornalistas são criativos", reconhece.

Metáforas são usadas pelos repórteres como uma forma de ajudar na compreensão, mas em muitos casos não agradam aos cientistas. Mariluce Moura, diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp, afirma que falta entendimento por parte dos cientistas quanto às demandas de um jornalista na hora de escrever o texto. "O jornalismo é uma forma narrativa que tem sua própria linguagem. É inútil querer controlar a maneira como os jornalistas escrevem", ressalta.

Um fator que também preocupa os cientistas, principalmente quando se atentam para as comparações e constatam que as pessoas não têm tanta intimidade com a ciência, é o fortalecimento de estereótipos. Para Muotri, o jornalismo deve quebrar as pré-concepções e contribuir para mudar a imagem do cientista perante a sociedade: "Os meios de comunicação podem ajudar a dar fim a uma série de preconceitos relacionados à ciência. Por exemplo, a própria imagem do cientista isolado e maluco ainda existe". Muotri reforça que é importante que o repórter dedique algumas linhas ao cientista como forma de desmistificá-lo.

RELAÇÃO COM AS FONTES

Paulo Pinheiro de Andrade, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (Abep), menciona o avanço na interpretação de pesquisas por parte dos jornalistas. "Parece que a imprensa, sem generalizar, está trabalhando melhor números e dados. Mas isso só acontece quando jornalistas dedicam um tempo para conversar com especialistas e desvendam o que as estatísticas dizem", diz. Bueno mostra que esse avanço está relacionado à institucionalização das comunidades científicas e suas estruturas de comunicação. A Embrapa, por exemplo, possui 150 profissionais de comunicação, entre mestres e doutores.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) não tinha nenhum investimento em comunicação até 1995, ano em que a instituição resolveu abrir-se para a sociedade. "No final da década de 1980, os órgãos científicos eram fechados e tinham medo de falar em função do regime ditatorial. A Fapesp começou a perceber que precisava fazer algo, pois, em 1994, a imprensa dava pouca importância à divulgação científica, o que refletia na baixa demanda que tínhamos por parte dos jornalistas", conta Mariluce. A jornalista lembra que muitos avanços científicos relevantes deixaram de ser noticiados naquela época. Ao passar dos anos, instituições como a Fapesp ficaram cada vez mais alertas sobre a necessidade desse contato. A Conferência Mundial sobre a Ciência para o Século XXI, em Budapeste no ano de 1999, reconheceu o uso do conhecimento científico de forma ampla e convocou os cientistas a prestarem serviço à sociedade — o que ajudou a aumentar o contato.

O aumento na produção científica também foi outro avanço relacionado às instituições. "O Brasil cresceu absurdamente em produção e está entre os primeiros 15 países. Áreas como biomedicina e biotecnologia são bem reconhecidas. Estamos bem posicionados e isso tem reflexo na cobertura", destaca Lopes. Para o cientista especializado em neurociência do Instituto de Biomedicinas da UFRJ, Roberto Lent, a institucionalização deve ser moderada, já que muitas vezes o cientista acaba sendo limitado quando fala por meio do filtro das assessorias. "Eu gosto muito de conversar com jornalistas sem ter que passar pelo assessor de imprensa, para dizer o que penso sem pudor", revela.

Para alguns, a discussão é mais complexa. Lent aponta, por exemplo, aspectos culturais e políticos que muitas vezes estão intrínsecos, mas não costumam ser vistos pela imprensa. "Se você começa a falar de ciência, vê que ela está em tudo. Acredito que por isso as pessoas se interessam mais a cada dia", diz.

Esteves reconhece que a revolução e a propagação da ciência impactam também na qualificação dos repórteres. "Eu diria que estamos em um caminho correto, mas não no ponto ideal quando falamos de jornalistas especializados. Comparado com a última década, temos um corpo razoável de repórteres dedicados à ciência", reconhece. Mas Esteves faz uma ressalva: "O cenário brasileiro está muito distante de países como a Inglaterra, onde o grau de especialização é alto, lá existem setoristas de astronomia e até de genéricos. É difícil você ouvir que o jornalista cobre ciência genericamente naquele país", exemplifica.

Muotri destaca também outra particularidade sobre a ciência no Brasil: a publicação de trabalhos científicos. Algo crucial na carreira de qualquer cientista, que deve ser feito com critério.

"As consequências da divulgação de trabalhos não aceitos ou preliminares podem ser dramáticas para a ciência brasileira. Não queremos passar a imagem para os jovens cientistas de que publicar na Veja ou na Folha basta. O trabalho tem que passar primeiro pela crítica de outros cientistas antes da publicação definitiva".

DESVENDANDO A PESQUISA

O que está por trás das pesquisas financiadas por empresas também preocupa acadêmicos da área de comunicação. Bueno afirma que alguns jornalistas têm dificuldade de lidar com os lob-bies existentes e com as pesquisas manipuladas. "Existe uma relação comercial com financiamentos de pesquisa e muitas vezes a falta de vigilância do repórter faz com que ele fique refém de determinadas fontes. Muitos acabam sendo usados pelas empresas e seus pseudocientistas", lamenta. Entre os piores setores, ele cita o de tabaco, a indústria de laboratórios farmacêuticos, as empresas de transgênicos e as de alimentos.

Lent afirma que cabe ao jornalista ir atrás dessa investigação, o que não é tarefa fácil, já que as pesquisas são muito bem protegidas. "Como qualquer outra área da sociedade, existe sim lobby e o jornalista tem o papel importante de ir atrás para não comprar um discurso pronto", reconhece. Mariluce reforça que o repórter precisa ser capaz de perceber o lado fantasioso das pesquisas dentro das estruturas empresariais. Claudia Calais, diretora da Fundação Bunge, defende que, quando a empresa financia pesquisas, o objetivo é contribuir com produção de conhecimento para a sociedade. "A nossa relação com o jornalista é decodificar nosso trabalho e passar adiante informação que reflita em promoção humana e valorize a ciência", defende.

Claudia destaca que repórteres procuram ter acesso ao autor da pesquisa e são livres para tal. Essa liberdade não é vista como normal por Lent. O cientista alerta que é muito difícil ter acesso a pesquisas, principalmente se o jornalista é de um veículo que chama a atenção. Se o acesso via grandes veículos é difícil, a jornalista Ana Carolina Amaral, da revista digital Envolverde, acredita que a saída está nos meios alternativos. "A qualidade e a profundidade com que as questões são tratadas pelas mídias alternativas estão servindo de apoio aos veículos convencionais, principalmente em denúncias", compartilha. Muitas fraudes ocorridas na ciência estão sendo descobertas via blogs e redes sociais. Portanto, no cômputo geral, a comunicação mais ajuda do que atrapalha.