Notícia

O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Gravações mudam rotina de Vila Madalena

Publicado em 14 novembro 1999

Por Udo Simons - Especial para o Correio
Os verdadeiros moradores da Vila Madalena, cenário e nome da atual novela das sete da Globo, não estão para brincadeiras. Indiferentes ao charme dos atores globais e à repentina popularidade conquista da pelo bairro querem sossego. As ruas da Vila Madá ou apenas Vila, como é chamada, estreitas, tortuosas e cheias de ladeiras, param com as gravações da novela. Quando o circo das câmeras começa, o trânsito congestiona, os motoristas buzinam como loucos, gente não pode sair ou entrar em casa com o carro. Nem a possibilidade de um autógrafo de Edson Celulari dá jeito na bronca dos moradores. Pior: a aglomeração dos fãs deixa os moradores ainda mais irritados. "A área é residencial", reclama Lucila Falcão Pessoa Lacreta, uma das diretoras da Associação dos Amigos do Jardim Bandeira, que fica ao lado da Vila Madá e tem sido usada como locação para a novela. "A Globo não tem o direito de vir perturbar nossa paz", diz. Segundo Lucila, se a Globo não parar com a bagunça, a Associação vai pedir na Justiça o fim das gravações. "Nunca convivi com essa vizinhança preconceituosa e antipática", responde o autor da novela, Walter Negrão, morador do bairro e membro pagante da tal associação. "Daqui a pouco, vão querer proibir a passagem de negros e judeus pela redondeza." Essa é a Vila Madalena, reduto de intelectuais, artistas, publicitários e jornalistas. Gente que torce o nariz para os mauricinhos dos Jardins com roupas de grifes estrangeiras e carros importados. No quadrilátero mais badalado dos Jardins, entre a rua Oscar Freire e a avenida Paulista, estão as lojas e restaurantes mais sofisticados de São Paulo. Quem é dos Jardins também não se bica com os freqüentadores da Vila Madá, mais despojados e cuidadosamente alternativos. São tribos diferentes. A Vila está mais para papo-cabeça (leia matéria ao lado). ESTÚDIO O bate-boca sobre as gravações externas da novela Vila Madalena não deve durar muito. "Aposto que essas primeiras cenas foram jogada de marketing da Globo para despertar curiosidade sobre a novela", acredita a crítica de televisão do jornal O Estado de São Paulo, Leila Reis. "Trazer o elenco para cá custa muito caro e o mais provável é que, com o tempo, a novela seja gravada em estúdio, no Rio de Janeiro" Os resultados de audiência do primeiro capítulo de Vila Madalena mostram que a jogada deu certo. Na segunda-feira, a novela teve média de 33 pontos no Ibope e o pico de 40 pontos ao final. A anterior, Andando nas Nuvens, ficava abaixo dos 30 pontos. É justamente por manter um olho sempre no ponteiro do Ibope que a Globo resolveu ambientar a novela em São Paulo. "São Paulo é o principal mercado consumidor brasileiro" sentencia o professor de marketing e comunicação da Escola Superior de Propaganda e Marketing, Roberto Corrêa. Segundo pesquisas de agências de publicidade, está no interior paulista e na grande São Paulo 40% do total de consumidores do país. Não é a primeira novela da Globo ambientada em São Paulo. Torre de Babel, para citar uma das mais recentes, por exemplo, tinha cenas no Brás, tradicional bairro de italianos. Mesmo Terra Nostra, atual novela das oito, tem tudo a ver com São Paulo, pois trata da imigração italiana, com sotaque e tudo, e mostra a reconstituição da Paulicéia do começo do século. A diferença entre Vila Madalena e as demais não é a locação propriamente, mas a linguagem da telenovela. "A Globo descobriu que a ditadura da estética carioca acabou", explica a crítica Leila Reis. Até o começo dos anos 80, quando a Globo reinou absoluta e monopolizou a audiência, tudo era produzido no Rio de Janeiro para o país inteiro. Enormes torcidas do Flamengo se formaram fora do Rio porque a Globo transmitia apenas o campeonato carioca de futebol. O surgimento de outras emissoras, como o SBT e, mais tarde, a Record, deslocaram o eixo de produção para São Paulo e roubaram audiência da Globo. "Um dos fatores para um possível crescimento na sintonia do SBT e da Record com o telespectador reside no fato de essas emissoras estarem em São Paulo, e oferecerem produto mais próximo dos desejos dos consumidores e, conseqüentemente, gerarem interesse nos anunciantes", acredita Maria de Lourdes Motter, integrante do Núcleo de Pesquisa em Telenovela da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A Globo está se mexendo para mudar o jeito de fazer televisão. O pacote recente de contratações de apresentadores - Ana Maria Braga, Jô Soares e Serginho Groissman, por exemplo - faz parte da estratégia de aproximar-se de um telespectador até então desconhecido, talvez brega demais para o gosto carioca, mas muito mais numeroso. A novela Vila Madalena também faz parte dela e, quanto mais discussão provocar, melhor.