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Grãos de esperança

Publicado em 20 agosto 2001

Por CRISTIANE SEGATTO
Às pressas, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, teve de aprender o bê-á-bá sobre as chamadas células-tronco, estruturas capazes de se transformar em qualquer tipo de tecido humano. A popularidade do presidente foi ameaçada pela controvérsia das "sementes mágicas" nos últimos meses. Extraídas de embriões e transplantadas em órgãos combalidos, podem levar à cura do diabetes e de doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer. A sociedade americana debate se é eticamente correto destruir uma vida no primeiro estágio de desenvolvimento (o embrião) para salvar um adulto doente. Há duas semanas, Bush anunciou que o governo financiará somente trabalhos que envolvam células já armazenadas nos laboratórios. Quer evitar a destruição de novos óvulos fecundados. Ainda assim, continua sendo pressionado por ativistas contra o aborto, de um lado, e pacientes sem tempo a perder, do outro. A mineira Edna Pupin, moradora da cidade paulista de Ribeirão Preto, acompanha cada movimento das autoridades americanas. Enquanto Bush alinhavava a saída conciliadora, a brasileira buscava em Roma novidades sobre o tratamento de distrofia muscular anunciadas num congresso internacional. A dona-de-casa pouco sabe inglês, mas maneja com habilidade as palavras estrangeiras relacionadas à moléstia. Edna tem pressa. O filho Murilo é vitima de um mal hereditário que provoca falência respiratória pela destruição progressiva dos músculos. O rapaz de 23 anos convive com a distrofia de Duchenne, a forma mais agressiva da doença que atinge apenas pessoas do sexo masculino. Um em cada 3.500 meninos nasce com o problema, causado por um gene defeituoso no cromossomo X. Na maior parte dos casos, a anomalia é herdada da mãe, que não tem a doença, mas transmite o erro genético aos filhos homens. Murilo perdeu todos os movimentos e sobrevive com a ajuda de um respirador ativado 24 horas por dia. A distrofia é incurável, mas as pesquisas com células-tronco abrem novos horizontes. Com base nesses estudos, cientistas acreditam que essas células possam repovoar tecidos destruídos e devolver a saúde aos portadores. "Agora temos pelo menos uma esperança", diz a mãe de Murilo. Ela inaugura no Brasil um tipo de iniciativa que ganhou força nos Estados Unidos. Em vez de esperar pelo investimento público em pesquisa, familiares dos pacientes se unem para financiar experiências. Edna, presidente da Associação dos Amigos dos Portadores de Distrofia Muscular de Ribeirão Preto (AADM), juntou-se a famílias de São Paulo para criar o Centro de Terapia Gênica, o primeiro do país, sustentado por economias particulares e doações. O moderno laboratório de 640 metros quadrados está sendo erguido em Ribeirão Preto, em área cedida pelo governador Mário Covas. Os primeiros estudos serão realizados com cães da raça labrador, importados dos EUA pelo pesquisador Sérgio Dani. Hoje, ele é bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), mas a associação bancará seu trabalho quando esse vínculo chegar ao fim. Os cachorros foram escolhidos para a pesquisa porque são os únicos animais atingidos pelos mesmos sintomas da doença verificados no homem. O médico já começou a colher células-tronco da medula óssea dos cães portadores da moléstia. Pretende agregar a elas o gene que produz uma proteína fundamental para o bom funcionamento dos músculos. Em seguida, as sementes serão injetadas na corrente sangüínea do doador. Espera-se que, ao percorrer o organismo, elas formem colônias de tecidos sadios nas áreas devastadas. Se funcionar, o passo seguinte será aplicá-las em voluntários humanos. Familiares dos pacientes acompanharão a experiência, pois a sede da AADM será transferida para uma das salas do laboratório. "O que está acontecendo aqui é uma revolução no jeito de fazer pesquisa", diz Dani. "Nunca os interessados estiveram tão presentes, apoiando e pressionando os cientistas." Outra idéia promissora é o desenvolvimento de bancos de cordão umbilical. Doados logo depois do parto, os cordões que ligam a mãe ao bebê são fonte riquíssima de células-tronco, que poderiam ser transplantadas para as vítimas de distrofia. Em São Paulo, instituições como o Hospital Albert Einstein, o Instituto do Coração e o Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo atuam nessa direção. Quando 10 mil cordões forem reunidos, a chance de encontrar material compatível com qualquer paciente será de 100%. A distrofia muscular atinge 80 mil pessoas no Brasil, um contingente que anseia pela aprovação de experiências em humanos - seja com sangue de cordão umbilical, seja com células retiradas de embriões armazenados em clínicas de fertilização. "Não sabemos o que será mais eficaz, mas não podemos esperar", diz a médica Ana Lúcia Langer, mãe de Leonardo, de 16 anos, também portador de distrofia. "Algumas de nossas crianças têm menos de dois anos de vida", lembra. Na opinião de Ana, as autoridades que decidem os rumos da pesquisa no Brasil são mais retrógradas que o conservador George Bush. Quem tentar fazer experiências desse tipo no país será barrado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, órgão federal formado por cientistas, religiosos e cidadãos. "Entendo a angústia das famílias, mas só poderemos autorizar os testes diante da certeza de suas conseqüências", diz o presidente do órgão, Esper Cavalheiro. Especialista em neurologia, ele apóia os estudos com óvulos fecundados, mas sua posição é minoritária nas reuniões da comissão. Uma alternativa é a utilização de células-tronco de adultos. Sabe-se que algumas dessas estruturas camaleônicas podem ser encontradas em diversas partes do organismo adulto. Elas já haviam sido localizadas no cérebro, na medula óssea, na retina, nos músculos das pernas e nas células adiposas. Na semana passada, cientistas canadenses anunciaram uma novidade. Conseguiram encontrá-las até mesmo no couro cabeludo. A equipe da neurologista Freda Miller, da Universidade McGill, retirou-as da pele de ratos. Com o material, criou colônias de fibras musculares e nervosas. "Quando relatei isso pela primeira vez, acharam que eu estava louca", conta. Ela cultivou as amostras de epiderme dos camundongos numa sopa de substâncias que favorece a multiplicação. Variando as proteínas utilizadas em cada amostra, induziu o crescimento de diferentes tipos de tecido. "O uso de células-tronco retiradas de adultos é menos limitado que se imaginava", afirma. O estudo demonstra que as células-tronco estão disponíveis em locais de fácil acesso. No futuro, será possível recolhê-las por meio de uma pequena biópsia na pele. Depois de replicadas em laboratório, serão devolvidas ao paciente. "Assim, vamos eliminar a possibilidade de rejeição ao transplante", explica Freda. As estruturas extraídas de embrião teriam uma desvantagem potencial, a de poderem ser atacadas pelo sistema imunológico dos receptores se confundidas com invasores indesejáveis. Apesar do entusiasmo, a descoberta deve ser analisada com cautela. Nos adultos, células-tronco são bem mais raras que em embriões e sua qualidade é inferior. Provavelmente, elas só conseguirão gerar um número limitado de tecidos diferentes. O americano John Ball, com mal de Parkinson, aguarda ansioso o resultado dos estudos. Aos 56 anos, o maratonista amador corre contra o tempo. A chance de sua geração ser beneficiada pela novíssima terapia vai se desvanecendo em meses de polêmica interminável. Mais sorte tem a pequena Jamie Langbein, diabética desde os 2 anos de idade. A família acredita que a garota, hoje com 5 anos, terá a moléstia revertida. Em férias no Texas, o presidente George Bush promete que as pesquisas vão continuar. Neste ano, o governo americano investirá US$ 250 milhões em experimentos com células-tronco extraídas de cordão umbilical, adultos e animais. Ao contrário da Grã-Bretanha, que permite a clonagem de embriões para experimentos científicos, Bush baniu o procedimento nos EUA. Tentou agradar a gregos e troianos ao limitar o uso de dinheiro público somente às pesquisas com células já estocadas nos laboratórios. Ninguém poderá dizer que ele não fez nada para proteger a vida de inocentes. Mas talvez não seja poupado das acusações de que bloqueou o desenvolvimento científico capaz de aliviar o sofrimento de milhões de americanos. Uma coisa é certa: empresas privadas, não atingidas pela restrição do governo, continuarão produzindo colônias de células extraídas de embriões abandonados por casais em laboratórios. Não se sabe qual será a reação de Bush quando cientistas bancados pelo governo alegarem que as células disponíveis são insuficientes. "Tomamos essa decisão com muito cuidado", disse o presidente em pronunciamento transmitido pela TV há duas semanas. "Rezo para que tenha sido a escolha certa", conta. Em breve, Bush terá de enfrentar o dilema novamente.