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Diário de Goiânia

Gramática do português falado

Publicado em 19 setembro 2006

Por Amanda Barreto, da editoria do DMRevista

A editora da Unicamp acaba de lançar o primeiro dos cinco títulos da Gramática do Português Culto Falado no Brasil. O livro que abre a série é Construção do Texto Falado. A novidade desse trabalho deve-se ao fato de que, pela primeira vez no País, o objeto de estudo de uma gramática passa a ser o português falado. O aprendizado das gramáticas é baseado em partes. Nas publicações existem capítulos específicos para cada item, como artigo, verbo, substantivo, pronome, locuções adverbiais, acentuação e mais uma infinidade de exemplos.
De acordo com o coordenador da série, Ataliba Teixeira de Castilho, 69, em 1985 foram publicadas no Brasil quatro gramáticas, Ilari, Perini, Luft e Bechara. Apesar de os autores partirem de perspectivas diferentes, eles chegaram ao consenso de que uma nova gramática deveria ser escrita de acordo com as alterações lingüísticas sofridas no português brasileiro.
Pelo Projeto Lingüística Urbana Culta (Projeto Nurc), que envolveu 32 pesquisadores de 12 faculdades, foi gravada uma enorme documentação da língua falada culta em Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.
Mas por que Gramática do Português Culto Falado no Brasil? Os pesquisadores do Nurc entrevistaram 250 universitários das cinco capitais envolvidas no projeto. Essas pessoas detêm o padrão da língua culta. As conversas desses grupos foram gravadas e transcritas para o papel. Através do material bruto, a língua foi desconstruída, para que fosse percebido como os estudantes montavam suas orações e compunham os discursos.
A gramática, apesar de propor o estudo sobre a oralidade do português falado no Brasil, não é de fácil entendimento. Esse trabalho deve ser indicado para estudantes de Letras, professores e alunos do ensino médio. No futuro, simplificada, será mais acessível.
O coordenador da gramática, lingüista e professor de filologia e português da Universidade de São Paulo (USP), Ataliba Teixeira de Castilho, esclarece para o Diário da Manhã mais alguns pontos da obra.
Diário da Manhã — Quanto tempo foi gasto para compor o projeto?
Ataliba Teixeira de Castilho — O projeto durou de 1988 a 2002, tendo sido levado a cabo por 32 pesquisadores experimentados, filiados a 12 universidades brasileiras. Eles se organizaram em cinco grupos de trabalho, cada qual com seu coordenador, recorte teórico e agenda de atividades. Exerci a coordenação geral desses grupos. Até 2002, tinham sido escritos mais de 200 ensaios, publicados na série Gramática do Português Falado, oito volumes pela Editora da Unicamp com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Esse foi, até aqui, o maior projeto coletivo levado a cabo pela lingüística brasileira.
DM — Por que o estudo ficou dividido em cinco partes?
Ataliba — Os volumes constituem o resultado da consolidação de todos os materiais publicados, e mais dissertações de mestrado e teses de doutorado orientadas pelos pesquisadores. O trabalho de consolidação teve início em 2003, tendo saído o primeiro exemplar em 2006.
DM — Existem diferenças entre português popular falado e o culto?
Ataliba — Existem, mas não são muito profundas aqui no Brasil. A modalidade popular é mais criativa, e de tempos em tempos a modalidade culta toma de empréstimo algumas de suas soluções
DM — Quais exemplos podem ser citados do português culto apropriado pela modalidade popular?
Ataliba — Na modalidade popular, o verbo não concorda com o sujeito, por exemplo é comum ouvir dizer, "as crianças chegou". Agora é possível perceber que o português culto pegou da modalidade popular a regra em que o sujeito não concorda com o verbo quando ele vem depois do verbo, como "chegou depois de muita espera os pacotes do correio". Se o falante coloca o sujeito antes do verbo ele faz a concordância.
DM — O que difere esse material do que já foi publicado no Brasil?
Ataliba — Não só no País, mas por toda parte, as gramáticas costumam descrever apenas a variedade escrita da língua. Por outro lado, elas retratam os resultados de processos lingüísticos que não são descritos, o que complica sua compreensão por parte dos estudantes. Nossa gramática inverteu esse jogo, considera a língua falada e começa pela identificação dos grandes processos de criação lingüística, indo dos produtos para seus resultados.
DM — A gramática pode ser melhor compreendida pelos brasileiros?
Ataliba — Sim, porque ela é um convite à reflexão, não à decoração de listas. Cada leitor, de certa forma, se transformará num co-autor dos capítulos, pois será convidado a acompanhar um raciocínio de análise.
DM — Os métodos de aprendizado da língua portuguesa estão defasados?
Ataliba — Eles não refletem as pesquisas feitas nas universidades, as quais, nos últimos 30 anos, se concentraram na descrição e na história do português brasileiro. Um grande conhecimento de nossa realidade lingüística foi construído, mas isso ainda não transitou para a sala de aula. A falta de uma política lingüística do Estado brasileiro é responsável por esta deficiência. O triste estado a que foram relegados nossos professores e as dificuldades econômicas da sociedade nacional. Há um desperdício de talentos.
DM — Em que aspecto o governo do presidente Lula inova em relação ao estudo do português?
Ataliba — Esse governo está preocupado com a expansão da rede física das escolas. Ao menos os programas que deram certo, criados pelo presidente antecessor, não foram descartados por essa administração.
DM — Este projeto será expandido para todo o ensino brasileiro?
Ataliba — Vai depender, justamente, de dispormos de uma política sólida para o ensino. Todos os atores para uma atualização do ensino do português já são disponíveis. Falta envolvimento da comunidade e decisão por parte dos governantes. Não creio que estes se mexerão, caso não sejam empurrados por aquela.
DM — Pessoas com formação em escolas públicas sofrem mais com problemas na escrita. Isso pode ser trabalhado, a partir do momento em que elas tiverem acesso à gramática?
Ataliba — Nossa gramática poderá auxiliá-los de forma indireta. Ela ajudará a refletir sobre a língua. Qualquer pessoa pode resolver problemas de escrita lendo extensivamente, familiarizando-se com pessoas experimentadas nesse domínio. Não há regras que possam substituir esse aprendizado, que depende do esforço individual.
DM — Excesso de regras lingüísticas pode atrapalhar a alfabetização?
Ataliba — Durante a alfabetização o aluno adquire a modalidade escrita da língua que ele já fala. Nesse momento, não há preocupação com questões gramaticais, e apenas as regras do código escrito são objeto do trabalho de professores e alunos.
DM — Como as escolas podem trabalhar o português de forma prazerosa?
Ataliba — No meu livro Língua Falada e Ensino do Português, mostro como a conversação, que é uma atividade lingüística básica e dominada pelos alunos, pode funcionar como ponto de partida para uma série de reflexões sobre a linguagem. Note que os alunos já falam português, portanto, o trabalho do professor deve concentrar-se no desenvolvimento da reflexão, aí incluída a identificação do padrão culto. Começando pelo que o aluno sabe e levando-o ao que ele não sabe, o ensino adquire maior naturalidade, e os alunos se sentirão mais envolvidos nas coisas da escola.
DM — O que pode ser feito para escrevermos e falarmos melhor?
Ataliba — Refletir sobre a língua. Desistir da idéia de que há um gramático milagreiro que vai quebrar o galho. Confiar mais na própria capacidade de usuário da língua, que se expande sem fim, do que pensar que o esforço pessoal pode ser substituído por algum tipo de despachante, que mostrará o caminho a trilhar. Não há milagres aqui. Há determinação pessoal.
DM — Esse trabalho é pioneiro?
Ataliba — Nenhuma língua românica, latina ou germânica, incluído o ramo anglo-saxão, teve sua modalidade falada amplamente descrita. O pioneirismo deste trabalho vem disto, e também da forma criativa como lingüistas de inclinações teóricas diferentes realizaram seu trabalho.
DM — De que forma ocorreu a aplicação criativa desse processo?
Ataliba — Toda gramática cataloga produtos, mas não presta atenção neles. Qualquer resultado de um processo mental é classificado em partes. Invertemos o jogo ao dar ênfase no processo de criação dos produtos gramaticais.
DM — Qual é sua avaliação sobre essa contribuição para a língua portuguesa?
Ataliba — O futuro da língua portuguesa está no Brasil, devido ao número de usuários. Conhecer bem a variedade da língua é fundamental. Temos, com esta gramática, uma minuciosa descrição do português culto falado. Precisamos de um projeto coletivo para examinar a língua escrita a que o cidadão está exposto, a linguagem jornalística. Juntas as perspectivas, teríamos uma excelente contribuição à língua portuguesa e ao seu ensino no País e no exterior.