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Governos que respeitaram a ciência e agiram cedo tiveram os melhores resultados contra a COVID-19

Publicado em 18 junho 2021

Por José Tadeu Arantes, da Agência FAPESP

Governos que agiram rapidamente obtiveram os melhores resultados no combate à pandemia. Administrações do leste asiático lideram o ranking. Já os piores resultados ocorreram nos países em que a negação das recomendações científicas e os desacordos sobre como enfrentar o vírus deixaram as populações à deriva, enquanto os números de infectados e de óbitos cresciam aceleradamente. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos, durante o governo de Donald Trump, e no Brasil.

A reflexão foi desenvolvida pela cientista política Marta Arretche durante o webinário “Aprendizados da pandemia”, realizado em 07 de junho no âmbito do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação, por meio de uma parceria entre o Instituto do Legislativo Paulista (ILP) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP, Arretche afirmou que é altamente provável a emergência de novos vírus ou que venhamos a ter uma longa convivência com a COVID-19. “Daí a importância de extrair lições do enfrentamento da pandemia”, disse.

Um amplo conjunto de lições diz respeito à própria natureza da enfermidade. E, nessa linha, muitas informações preciosas foram apresentadas no webinário pelo médico Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina (FM-USP) e ex-diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). Por meio de autópsias minimamente invasivas, Saldiva e sua equipe investigaram os impactos provocados pelo coronavírus. “Aprendemos que a doença é sistêmica, com alterações pulmonares, vasculares e cerebrais. E que as lesões são causadas tanto pelo vírus quanto pela resposta inflamatória do próprio organismo."

Tomando como exemplo a distribuição da taxa de mortalidade causada pela pandemia no município de São Paulo, Saldiva mostrou que ela é muito maior na periferia do que no centro, devido a fatores socioeconômicos. “Aprendemos que o critério etário não é suficiente para determinar quem deve ser vacinado primeiro. É preciso considerar também o critério geográfico”, ressaltou.

Na terceira apresentação feita no evento, Simone Deos, professora do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e editora associada da Review of Political Economy (ROPE) falou sobre como a pandemia impactou a teoria e a política macroeconômica.

Recuando na história, a pesquisadora informou que o plano de recuperação proposto pelo economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) para enfrentar a grande depressão na década de 1930 baseou-se na ideia de que as economias não evoluem espontaneamente para a otimização. Daí a necessidade de políticas econômicas e da atuação do Estado. Mas a crítica feita pelo americano Milton Friedman (1912-2006) ao keynesianismo levou ao corte de gastos públicos e ao enfraquecimento do Estado em vários países. “Esse conceito foi posto em xeque pela crise de 2008, quando se tornou necessária uma enorme intervenção dos bancos centrais”, pontuou. Desemprego, trabalho informal e aumento das desigualdades, com grande sofrimento social e enfraquecimento das democracias, mostraram que políticas monetárias não são capazes de evitar ou tratar as crises.

“Agora, em vez da retirada dos estímulos fiscais, estamos vendo nos países centrais uma intensificação dos gastos dos governos, não só para aliviar os efeitos da pandemia, mas também com o objetivo de redesenhar a economia, a sociedade e o modo de viver. Nos Estados Unidos, os novos pacotes do Plano Biden são dedicados à reformulação da infraestrutura, à assistência às famílias, à reconfiguração total da questão da energia, com uma grande adesão da sociedade”, disse.

Luciana Hashiba, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e membro da Coordenação Adjunta de Pesquisa para Inovação da FAPESP, foi a quarta e última expositora do evento. E centrou sua apresentação nos diferentes efeitos da pandemia no processo de inovação nas organizações, diferenciando os setores que se desenvolveram e os que enfrentaram muitas dificuldades no período.

Conforme destacou Hashiba, a chamada transformação digital foi decisiva para as empresas bem-sucedidas. “O ciclo ficou mais curto, pois se abriu um espaço para testes destinados a atender novas demandas. O que estava esperando pela boa vontade do status quo ganhou uma possibilidade de adesão muito maior.”

Hashiba sublinhou que as empresas que já haviam adotado a inovação como estratégia puderam responder de forma muito mais rápida ao novo contexto. As que não haviam foram, no mínimo, forçadas a uma reflexão sobre o que estava acontecendo e sobre a necessidade de inovar. “Os investimentos de risco cresceram 187% de janeiro a abril deste ano, em relação a 2020.”

Em escala global, um grande destaque foram as startups do segmento de saúde, muitas delas compondo redes de cooperação para a produção de insumos, desenvolvimento de pesquisas etc. “Pelo menos duas vacinas já disponíveis foram criadas por startups: a da Moderna e a da Pfizer”, lembrou Hashiba.

O seminário on-line foi aberto pela analista legislativa Any Ortega, representando o Instituto do Legislativo Paulista. E contou com a participação da deputada estadual Damaris Moura membro da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informação da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). A moderação, como tem acontecido em todos os eventos do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação, foi feita pelo professor Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente da FAPESP.

O webinário “Aprendizados da pandemia” pode ser acessado na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=add4BsVCMIE.

Fonte: Agência FAPESP