Notícia

Gazeta de Alagoas

Governo tenta recuperar usinas de AL com modelo de Pernambuco

Publicado em 30 junho 2018

Quando assumiu o governo de Alagoas em 2015, Renan Filho (MDB) se deparou com o agravamento da crise no mais importante setor da economia de Alagoas. Para tentar estagnar a queda na produção de cana-de-açúcar e o fechamento de usinas, o governador atuou junto ao governo da então presidente Dilma Rousseff (PT), com apoio da bancada federal de Alagoas, objetivando viabilizar um empréstimo internacional com aval do governo federal.

Apesar da aprovação de uma lei autorizando o empréstimo, que poderia chegar a cerca de US$ 500 milhões para as usinas de Alagoas, a operação esbarrou na burocracia federal e na desconfiança dos bancos estrangeiros envolvidos na operação.

Sem o empréstimo, sem acesso a crédito, enfrentando sérias dificuldades de caixa desde a crise financeira global de 2008 (a maior da história do capitalismo desde a grande depressão de 1929), as usinas de Alagoas passaram a ter dificuldades até para pagar seus fornecedores, deixaram de investir nos canaviais e, para completar o ciclo de ‘má sorte’, enfrentaram em 2016 a maior seca dos últimos cem anos, no Estado.

Como resultado, a produção de cana-de-açúcar despencou, literalmente, em Alagoas. Na safra encerrada em março de 2015, primeiro ano do governo de Renan Filho, a produção chegou a 23,1 milhões de toneladas. No ciclo encerrado em março de 2018, apenas três anos depois, foram colhidas apenas 13,7 milhões de toneladas.

A redução de 40%, ou 9,4 milhões de toneladas, num curto período agravou a crise no setor sucroalcooleiro de Alagoas, marcada pelo fechamento de oito das 24 usinas que estavam em operação no Estado nos anos 2000 e a perda de mais de 50 mil postos de trabalho.

Sem a opção do empréstimo internacional, o governador Renan Filho passou a buscar outros caminhos e modelos para tentar estancar a crise no setor e, quem sabe, ajudar na retomada no setor sucroalcooleiro de Alagoas.

No começo deste ano, o governador participou de reunião na Unica, em São Paulo. Na entidade que representa as usinas do Centro-Sul do País, Renan Filho conheceu um modelo de incentivo baseado na produção de etanol – considerado mais distante da realidade nordestina.

No último dia 13 de junho, Renan Filho foi a Pernambuco, acompanhado de uma comitiva formada por representantes das federações da indústria, comércio e agricultura, além de representantes dos fornecedores de cana e trabalhadores rurais, conhecer o modelo adotado no Estado vizinho, que conseguiu evitar o agravamento da crise no setor sucroalcooleiro pernambucano.

INCENTIVOS

Com uma estratégia diferente, o governo de Pernambuco aumentou em 2015 os incentivos fiscais para o setor sucroenergético através da Lei 15.584/2015, chamada de ‘Legislação do Açúcar e do Álcool Etílico Hidratado Combustível’.

Na prática, a lei reduziu através do instrumento do crédito presumido a carga fiscal que incide sobre a cadeia produtiva da cana-de-açúcar.

O setor em Pernambuco também sentiu a crise e foi fortemente afetado pela seca. A produção caiu de 14,4 milhões de toneladas na safra 2014/2015 para cerca de 10,8 milhões de toneladas na safra 2017/2018. A queda foi de 25%, bem menor que em Alagoas.

E no caso de Pernambuco, duas usinas foram reabertas nos últimos dois anos e os produtores voltaram a investir nos canaviais. A expectativa é que, na próxima safra, que começa em agosto, a produção lá passe de 12,3 milhões de toneladas.

PE estanca crise no setor e estabiliza a produção

A redução da carga tributária em Pernambuco beneficiou, segundo o Sindaçúcar-AL (Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Alagoas), a comercialização de açúcar no mercado interno. “Lá, eles exportam apenas 20% da produção e vendem cerca de 80% no mercado interno. Em Alagoas, é o inverso. Com a atual legislação, exportamos 80%. No final, isso é ruim para as indústrias, que ficam sem opção de comercialização, mas também é ruim para o Estado, porque não arrecada nada de ICMS sobre os produtos exportados”, aponta o presidente do Sindaçúcar-AL, Pedro Robério Nogueira.

Segundo o Sindaçúcar-AL, a adoção do modelo de Pernambuco permitiria a Alagoas uma maior participação no mercado regional de açúcar, trazendo maior competitividade para as usinas alagoanas. “Na verdade, o que defendemos é a equalização tributária. Na medida em que Alagoas tiver a mesma carga tributária que outros Estados produtores, a exemplo de Pernambuco, teremos condições de competir melhor no mercado interno”, acredita Nogueira.

A Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana) também defende que Alagoas adote o modelo de Pernambuco, mais próximo da realidade local. “O governador Renan Filho teve a oportunidade de se inteirar sobre o processo do crédito de ICMS para as usinas de Pernambuco. O objetivo é adotar um modelo similar em Alagoas para que possamos ter o mesmo tipo de incentivo com crédito presumido. Esperamos que nos próximos dias o governador anuncie e assine o decreto com as mudanças previstas”, afirmou Edgar Filho, presidente da Asplana.

Em Pernambuco, a redução da carga tributária, a partir do crédito presumido, conseguiu soerguer o setor sucroenergético em meio a uma das maiores crises que afligiram o setor, a partir de 2015. Segundo relatos, a competitividade cresceu, empregos foram mantidos e usinas de cana-de-açúcar que haviam fechado as portas voltaram a moer, elevando a produção.

MODELO

O que se espera é que a adoção do mesmo modelo traga efeitos semelhantes a Alagoas. “Cabe ressaltar que Pernambuco também teve redução na produção, mas foi decorrente principalmente da seca. Afora isso, o setor conseguiu se estabilizar por lá e tem dado sinais de que vai conseguir retomar a produção para patamares anteriores a 2016, quando a produção caiu em função do deficit hídrico”, afirma Pedro Robério Nogueira.

Uma questão de escolha: expandir ou desaparecer

A produção de cana-de-açúcar marca a história política e econômica de Alagoas ao longo dos séculos. Foi essa atividade, sempre próspera no território alagoano, que viabilizou, durante uma das rebeliões do período imperial, a separação de Alagoas de Pernambuco, 200 anos atrás.

Até os anos 1960, a produção de cana-de-açúcar em Alagoas se concentrava em pequenas usinas instaladas em regiões serranas e a produção não chegava a 3 milhões de toneladas. No Estado, a cultura migrou internamente e passou a predominar nas regiões dos tabuleiros, após um período e forte expansão no fim dos anos 1970 no embalo do Proalcool, programa federal que visava estimular a fabricação do combustível.

Após a fase de expansão, que culminou nos anos 1990 e 2000 numa produção média de 26 milhões de toneladas por safra, área plantada de mais de 500 mil hectares e mais de 120 mil empregos diretos, a cultura da cana-de-açúcar entrou em fase de acomodação em Alagoas e, em seguida, de visível declínio no Estado.

Com apenas 13,7 milhões de toneladas, a produção de cana-de-açúcar na safra 2017/2018, a última colhida no Estado, foi a menor em mais de 40 anos (desde o início do Proalcool). Em menos de uma década, Alagoas perdeu 50% de sua produção, viu fechar pelo menos 8 das 24 usinas que operavam no Estado até o início dos anos 2010 e registrou a perda de mais de 50 mil postos de trabalho, ou mais da metade dos empregos gerados pela atividade.

A política que o governador adotar hoje vai determinar qual o tamanho da cana-de-açúcar em Alagoas “amanhã”. Pode ficar onde está, com safras médias de 16 milhões de toneladas, retomar parde do que foi perdido, chegando a um patamar de 20 milhões de toneladas de cana, ou encolher ainda mais.

Há quem diga que só vão restar, num futuro muito próximo, seis ou sete usinas no Estado. Também há quem aposte que será possível manter o atual parque fabril, com pelo menos 16 indústrias em operação. Tudo vai depender de questões, como clima, mercado internacional e das políticas públicas. O incentivo governamental mais conservador, como o modelo de Pernambuco pode estancar a crise e estabilizar a produção ou, se for um modelo mais “agressivo”, como se verifica em Estados do Centro-Oeste (Goiás é um exemplo), estimular a retomada dos investimentos da produção. Mas, se nenhum modelo for adotado, pode ser que não sobre nenhuma usina em Alagoas.

‘Supercana’ brasileira promete mudar campo

São Paulo, SP – Nos campos de testes do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), empresa privada que ganha dinheiro com pesquisa, desenvolvimento e inovação, convivem lado a lado pés de cana-de-açúcar diferentes por dentro e por fora. Externamente, é fácil notar que as canas marcadas com fitas vermelhas não têm folhas na parte inferior. Por dentro, estão sendo devoradas por brocas, enquanto as plantas saudáveis resistem à praga, graças a um gene letal à lagarta, colocado em seu interior.

Com sua chegada às fazendas desde março, a nova variedade de cana traz consigo a promessa de causar impacto semelhante ao provocado pela soja, pelo milho e pelo algodão transgênicos, há quase 20 anos. Com uma diferença: agora, a tecnologia foi toda desenvolvida no Brasil.

“A coitada da cana é meio órfã porque os produtores de milho, soja e algodão sempre puderam contar com o desenvolvimento das multinacionais”, afirma Gustavo Teixeira Leite, presidente do CTC. “Afinal de contas, essas culturas são produzidas em áreas dez vezes maiores do que as da cana e nos países de principal interesse dessas empresas, geralmente no Hemisfério Norte”.

Os transgênicos tomaram conta de quase todas as grandes lavouras do mundo por seu ganho de produtividade, redução no uso de agrotóxicos e no impacto ambiental. Fácil de entender quando se olha, por exemplo, o caso da broca, que causa perdas estimadas em R$ 5 bilhões por safra aos canavieiros.

Com o bicudo, outra frente de ataque do CTC, são perdidos outros R$ 4 bilhões. São valores significativos em um setor que tem receita anual média de R$ 100 bilhões, lucros operacionais em torno de 20% e ocupa área de 10 milhões de hectares. A expectativa dos usineiros com a cana geneticamente modificada para sobreviver à broca é aumentar a rentabilidade em 20%.

Teixeira Leite, que era presidente da Monsanto no Canadá e no Brasil quando a canola e a soja transgênicas foram lançadas, acredita que os ganhos podem ser maiores.

“Os benefícios que o agricultor vê costumam ir além do que a gente antecipa”, diz ele. “O controle da broca, por exemplo, é feito por um camarada andando no meio dos canaviais, procurando furinho em pau de cana: não é um método muito científico e nem fácil de fazer em 10 milhões de hectares”.

Hoje, o controle biológico tem eficiência de 30% a 50% no controle do inseto. O químico mata 70% das brocas.

O lançamento marca o início de uma série de inovações que devem ser colocadas no mercado nos próximos anos pelo CTC. Entre elas, há uma cana geneticamente modificada desenvolvida especificamente para o cerrado, região para a qual jamais foi trabalhado um produto específico e que já está na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para ser aprovada.

Também há investimentos num laboratório nos Estados Unidos, onde os pesquisadores começarão a trabalhar com a CRISPR, sigla em inglês para a última inovação na área, que permite a edição de genes.

O mais revolucionário deles, porém, começa a ser testado em campo ainda este ano: sementes de cana. No ano passado, o projeto se provou em laboratório, depois de oito anos de pesquisa.

Uma semente totalmente desenvolvida pelos pesquisadores gerou um embrião, que se transformou numa planta completa. Agora, o conceito será provado na terra, onde intempéries e pragas decidirão se ele poderá continuar evoluindo ou se deve voltar à bancada de trabalho.

Culturas propagativas, como são chamadas as que acontecem com o replantio de mudas – ou toletes – no caso, são lentas. Ao contrário das que usam sementes, levam-se anos para se plantar uma área completa, com uma variedade mais moderna e eficiente.

“Os desafios ainda são muito grandes porque num projeto de pesquisa realmente inovador como esse não se sabe se os resultados virão”, diz Teixeira Leite. “Mas nunca estivemos tão perto”.

Caso tudo dê certo, as primeiras sementes de cana estarão disponíveis na safra de 2021/2022. Enquanto isso, outro desafio já começa a ser enfrentado: a aprovação, nos mercados que o exigem, para o comércio de açúcar proveniente de cana geneticamente modificada.

Pesquisa para desenvolvimento da cana começou nos anos 1990

A história por trás do desenvolvimento da primeira cana geneticamente modificada é um exemplo das idas e vindas no avanço da ciência – comuns a todos os países, pelas incertezas das descobertas, mas ainda mais difíceis num país como o Brasil, onde as oscilações econômicas provocam outros entraves.

O trabalho do qual os usineiros agora se beneficiam começou a ser desenvolvido no fim da década de 1990, quando a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) resolveu incentivar a então incipiente genômica – ramo da bioquímica que estuda e modifica o genoma de um organismo.

Foi montada uma rede virtual, com 60 laboratórios. “A bactéria (cujo gene seria decifrado) tinha de ser importante e com genoma relativamente pequeno”, diz Fernando Reinach, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e, à época, um dos coordenadores da diretoria científica da Fapesp e responsável pela criação da rede.

O primeiro sequenciamento foi da xylella, que ataca laranjais causando a doença conhecida como amarelinho. Começava um aprendizado na qual foram investidos US$ 39 milhões, o equivalente a 2,5% do orçamento da Fapesp, de 1997 a 2003. Resultou em queda de 43% dos laranjais infectados para menos de 3%.

Também desenvolveu uma massa crítica de pesquisadores que pôs o Brasil na fronteira do conhecimento na área. A pesquisa mereceu destaque na imprensa internacional.

Após o sequenciamento do genoma da xylella, surgiram as primeiras iniciativas que pretendiam transformar o conhecimento da academia em aplicações práticas e comerciais. Nasciam, em 2002, empresas como a de bioinformática Scylla, a de genômica aplicada Alellyx e, no ano seguinte, a de melhoramento de cana CanaVialis.

Na época à frente da Votorantim Novos Negócios, Reinach foi o fomentador da Alellyx e da CanaVialis, nas quais foram investidos US$ 30 milhões. “Tínhamos uma parceria para usar os genes da Monsanto na cana e, quando viram que éramos capazes, enxergaram valor na empresa”. Em 2008, a Monsanto pagou US$ 300 milhões pela empresa, no meio da crise financeira global.

Com o preço do petróleo a US$ 150 o barril, as grandes empresas do agronegócio viram um futuro sem paralelo no biocombustível. “A cana ia dominar o mundo”, diz Paulo Furquim, professor de Economia do Insper e especialista na área. “Os investimentos aqui e nos EUA eram muito grandes, mas o avanço da ciência tem um caráter de imprevisibilidade”.

Com a descoberta do gás de xisto nos EUA, do pré-sal no Brasil e as preocupações com uma eventual crise de alimentos, o biocombustível minguou antes de acontecer. No Brasil, a política do governo Dilma, que segurou a inflação não reajustando preços dos derivados de petróleo e provocando enorme crise no setor de etanol, jogou a pá de cal nos investimentos em pesquisa.

Todos os grandes grupos internacionais, Monsanto incluída, fecharam as unidades de pesquisa na área no Brasil. “Era outubro de 2015: pensávamos estar entrando numa reunião na qual discutiríamos bônus”, diz a bióloga Camila Fornezari Rabello, que gerencia times de análises moleculares no CTC. “Fomos todos demitidos”.

Agustina Gentile, na época líder de desenvolvimento de protocolos na Monsanto, lembra que, naquele ano, trabalhavam com uma variedade de cana muito difícil de modificar. “Tivemos sucesso, mas, na hora dos resultados, tudo foi queimado”, diz Agustina, hoje líder de caracterização molecular do CTC. Com as regras de biossegurança bastante rígidas, a multinacional destruiu toda a pesquisa.

Ao mesmo tempo que a Monsanto fechava as portas, o CTC ganhava fôlego. Criado em 1969 pela Coopersucar, era um centro de pesquisas que resolvia problemas básicos operacionais do setor, sustentado por usineiros. Em 2011,

Teixeira Leite, que era presidente da Monsanto no Canadá e no Brasil quando a canola e a soja transgênicas foram lançadas, foi levado à empresa com a missão de reinventá-la: o CTC se tornaria independente, bancando-se com royalties.