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Correio Popular

Governo Serra: Campinas perde lugar

Publicado em 01 janeiro 2007

Pela primeira vez em mais de uma década de governo tucano em São Paulo, Campinas não terá nenhum representante no primeiro escalão da administração estadual. No governo José Serra, que começa agora em janeiro, não haverá campineiro no comando de uma secretaria ou na direção de uma estatal ou órgão importante. Desta maneira, Serra quebra uma tradição iniciada ainda no primeiro mandato de Mário Covas, em 1995 e que se manteve até o final da gestão Geraldo Alckmin em dezembro de 2006.
Com Covas, Campinas teve Césari Manfredi no comando da CPFL — a empresa de energia que ainda não havia sido privatizada — e o ex-reitor da PUC-Campinas, Eduardo José Pereira Coelho na Eletropaulo. Além deles, foram chamados os ex-reitores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Henrique Brito Cruz e Carlos Vogt, que, em diferentes momentos, ocuparam a presidência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Hoje, Brito Cruz é o diretor científico da instituição. Vogt é presidente do Conselho Superior desde 2002 e está no seu segundo mandato.
Durante a gestão Geraldo Alckmin — que começou em março de 2001 — Jurandir Fernandes ocupou a Secretaria de Transportes Metropolitanos e Maria Helena Guimarães Castro, passou pelas secretarias de Assistência e Desenvolvimento Social e Ciência e Tecnologia.
Presidente municipal do PSDB, o vereador Artur Orsi não vê a ausência de campineiros na equipe de Serra como perda de poder ou influência da região. Segundo ele, alguns aspectos precisam ser analisados. "Cada governador tem um perfil diferente. O Alckmin vem de uma cidade interiorana, era de se esperar que ele chamasse mais gente do interior, como aconteceu. O Serra, ao contrário, está mais ligado a grupos instalados na Capital", argumenta o vereador tucano. "Por causa disso, eu acho que é prematuro dizer que o município esteja perdendo espaço", acrescentou ele.
"Além disso, isso não significa que a cidade será preterida em favor de outras" , acredita. "Campinas é importante para o Estado e o governador sabe disso."
Presidente da Câmara de Vereadores até o final deste ano, o tucano Dário Saadi lembra que o simples fato de ganhar uma secretaria não garante investimentos. "A cidade perde membros no primeiro escalão, mas não perde força política. Perderá se o governo não der a atenção que a cidade merece e exige", afirma.
Para Saadi, "o que mostra a força de uma região não é o número de secretários que ela consegue fornecer, mas as ações que consegue mobilizar em torno de seus projetos e a capacidade que tem de atrair investimentos", diz.
O deputado federal Carlos Sampaio (PSDB) diz que partido não está enfraquecido em Campinas, mas faz um alerta. "O PSDB local foi muito importante na eleição de Serra na região e ele sabe disso, o que eu acho é que o partido está sem foco", afirma. "O PSDB precisa urgentemente se assumir enquanto oposição e precisa passar por uma grande reformulação", defende.
Segundo ele, o partido está "disperso" e "sem diretrizes" e um exemplo disso foi a eleição da Mesa Diretora da Câmara de Vereadores, quando dois tucanos — Antônio Flores e Pedro Serafim — votaram contra o candidato do partido e contra a orientação do líder da bancada. "Foi algo inconcebível", resume Sampaio. Segundo ele, a executiva municipal deverá se reunir em janeiro para estabelecer formas de conduta que deverão ser adotadas a partir de agora.

Para analista político, não há perda de poder
O cientista político e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Valeriano Costa, não entende o fenômeno como perda de poder político. "Não se trata de crise de representação. O fato é que o governador não é obrigado escolher sua equipe com base nas representações regionais. Se o governador fosse o Alckmin, por exemplo, a possibilidade de ter mais gente do Interior do Estado seria maior. Ou então, se o governador fosse o Hélio (prefeito Hélio de Oliveira Santos) certamente haveria gente de Campinas no secretariado" , afirma.
Diferente do que ocorre no nível federal, a representação regional deixa de ser importante na composição de um governo estadual", diz o cientista político. Para analisar o fenômeno, continua ele, é preciso entender a lógica de Serra. "Pelo que a gente pôde depreender até agora, ele escolheu seus auxiliares mais diretos com base no perfil técnico. Isso significa que ele não se pautou por representação regional", avalia. Para o professor, muito provavelmente, Campinas não tinha ninguém em seu quadro que tivesse o perfil técnico desejado. "Serra tem autonomia e não se pauta por representação regional", conclui o cientista político.

Para Jurandir, ausência serve como forte alerta
O engenheiro Jurandir Fernandes deixa a Secretaria de Transportes Metropolitanos no final deste ano depois de quase seis anos de trabalho. E garante: deixar Campinas de fora do novo governo estadual não foi algo deliberado, mas pode ser entendido como um alerta. Num desabafo, Jurandir Fernandes diz que no período em que esteve no governo estadual, jamais foi procurado por grupos representantes da cidade. "A elite econômica e política de Campinas esteve absolutamente ausente", denuncia.
"Não se percebeu, por exemplo, nenhum movimento político para a manutenção de secretários ou para a indicação de nomes", diz. Segundo Jurandir, projetos estaduais desenvolvidos na cidade foram resultado de esforços isolados.

Sem parceria
"No caso do Corredor Noroeste, por exemplo, não recebi a visita de nenhum empresário para discutir o assunto", revela, referindo-se à linha de 32,7 km de circulação exclusiva de ônibus para atender as cidades de Campinas, Hortolândia, Sumaré, Nova Odessa e Americana, com integração em Monte Mor.
"E foi assim com o 2 Poupatempo; a Cidade Judiciária, que só contou com o esforço do Dr. Torres (juiz José Henrique Torres); do Bom Prato. Em nenhum caso houve articulação do setor empresarial", acrescentou.
Do ponto de vista político, continua o secretário, as prioridades foram outras. "O deputado Carlos Sampaio (PSDB), por exemplo, esteve voltado para sua atuação em Brasília. Trabalhou com afinco e dedicação na CPI (dos Sanguessugas), mas se dedicou a seu trabalho parlamentar. O prefeito (Hélio de Oliveira Santos -PDT), por sua vez, se voltou para a área federal. Por conta disso, não conseguiu sequer se firmar como liderança regional. Está voltado apenas para si", afirma.
"A questão é que as forças que deram sustentação a Serra (durante a campanha) não passaram por Campinas", concluiu ele. Carlos Sampaio diz que o trabalho no Congresso não prejudicou suas atividades em Campinas. "Nunca deixei de lutar pela cidade", garantiu.

Sem clima
Maria Helena Guimarães Castro disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que não gostaria de comentar a montagem da equipe de Serra. De acordo com a assessoria, a secretária não se sentia à vontade para falar sobre o assunto.
Ela deixa o governo de São Paulo, mas já está se preparando para uma nova empreitada. Vai assumir a Secretaria de Educação no governo do Distrito Federal a convite do governador eleito José Roberto Arruda (PFL).

Atuação
Considerada braço-direito do ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paulo Renato Costa Souza, no Ministério da Educação, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Maria Helena foi secretária-executiva e de Ensino Superior do Ministério da Educação nos oito anos do governo FHC.
Foi ainda a responsável pela implantação do Exame Nacional de Cursos, o Provão, e o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem.