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Paraíba

Governo pode rever plano de instituto para células-tronco

Publicado em 03 março 2008

O governo federal pode ter que mudar os planos que tem para as pesquisas com células-tronco no país caso o STF decida, na quarta-feira, proibir o uso de embriões em estudos.

Há previsão de apresentar, este ano, um novo edital para pesquisas com célula-tronco e de se criar o Instituto Nacional de Terapia Celular, que reuniria virtualmente os grupos de pesquisa do setor e teria estrutura de laboratórios para desenvolvimento de linhagens de células-tronco brasileiras.

"Se a decisão do Supremo for desfavorável, vamos ter de rever o projeto do instituto, porque uma das coisas importantes é a derivação de linhagens de células-tronco embrionárias brasileiras", afirma Reinaldo Guimarães, secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Ele nega, porém, a possibilidade de o instituto não ser criado mesmo com a proibição da pesquisa pelo STF.

"Obscurantismo" - Ainda não há orçamento definido para o novo edital, segundo Guimarães. De 2005 até hoje, os ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia gastaram R$ 24,5 milhões no financiamento de 45 pesquisas com células-tronco --adultas e embrionárias-- e um estudo com 1.200 pacientes --usando células adultas da própria pessoa.

Coordenador de um dos 45 projetos do edital de 2005, o pesquisador Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), classifica a possível proibição do uso de embriões em pesquisas como "volta ao obscurantismo".

"Essa é uma discussão em que o viés não é totalmente científico. Você não pode, pela fé, definir estratégias que podem vir a ter um impacto importante na saúde", disse.

Mas nem todos os que trabalham com células-tronco no país são favoráveis ao uso de embriões. A também pesquisadora Lilian Piñero Eça, presidente do IPCTron (Instituto de Pesquisas de Células-tronco), se diz contra a utilização de embriões por motivos estritamente técnicos. Segundo ela, diferentemente das células-tronco embrionárias, as células adultas (tiradas de outros tecidos) já mostraram seu potencial.

"Como pesquisador, a gente quer pegar uma célula e quer que ela tenha viabilidade de dar certo. A gente não vai perder tempo, dinheiro e esforço numa célula que dá problemas. E hoje não temos protocolos [procedimentos publicados] para saber lidar com a célula embrionária", afirmou.

Eça é membro do Movimento Nacional em Defesa da Vida --Brasil sem Aborto. No ano passado, descobriu-se que ela "inflara" seu currículo ao declarar que era bolsista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) sem ter bolsa aprovada. Ela negou que tenha agido com má-fé e atribuiu o fato a um "erro".

Longo prazo - Guimarães diz que, tanto no Brasil quanto em outros países, os estudos com células-tronco "engatinham". Diz também que a liberação das pesquisas pelo STF funcionará como estímulo aos cientistas.

"As pesquisas vão bem, mas falar de resultados a curto prazo não corresponde à realidade. A manipulação de células-tronco embrionárias é bem mais complexa que a de células de cordão umbilical. Então, é importante que o STF se pronuncie contra a ação, porque isso vai estimular os pesquisadores", disse.