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Governo acompanha investigação de reinfecção em SP e diz que Covid-19 não está presente em pacientes, só 'esqueleto do vírus'

Publicado em 26 agosto 2020

Por G1 SP — São Paulo

O coordenador do Centro de Contingência para o coronavírus em São Paulo, José Medina, afirmou nesta quarta-feira (26) que o governo estadual acompanha as investigações do Hospital das Clínicas de pacientes que podem ter se reinfectado pelo coronavírus em São Paulo e que não há motivos para preocupação.

"Eu conversei com o pessoal do Hospital das Clínicas, eles montaram esse laboratório para seguir esse tipo de situação, os casos que eles tão acompanhando possivelmente são de portadores do mesmo vírus, são pessoas então que tiveram a doença e por alguma razão mantiveram o esqueleto do vírus, que quando amplificado no exame ainda aparece positivo, mas sem apresentar infecção, sem apresentar doença. Estamos acompanhando essa situação do Hospital das Clínicas bem de perto", disse Medina.

O Hospital das Clínicas de São Paulo investiga casos de sete pacientes com suspeita de reinfecção pelo coronavírus. Pesquisadores estão fazendo sequenciamento genético para avaliar se são vírus diferentes, se houve mutação ou se o mesmo vírus da primeira infecção voltou a se manifestar. Outros pacientes também estão sendo monitorados pela USP de Ribeirão Preto.

A possibilidade de ter a Covid-19 pela segunda vez está em destaque novamente nesta semana porque, pela primeira vez, cientistas conseguiram comprovar que um paciente teve a doença duas vezes. O caso foi em Hong Kong. Nesta terça, cientistas europeus afirmaram que há mais dois casos desse tipo: um na Holanda e um na Bélgica, mas não divulgaram estudos .

"Uma pessoa de Hong Kong que apresentou uma reinfecção por coronavírus, então isso tem trazido preocupação e a minha proposta é tranquilizar que essa preocupação não tem muito sentido. Não tem importância do ponto de vista epidemiológico, nem como saúde pública, porque é um caso em 25 milhões de casos que já aconteceram no mundo. Esse caso só ajuda a pensar a entender como que esse vírus vai se comportar no futuro, se ele vai desaparecer, se vai ser um vírus cíclico, se ele vai manter a sua atividade durante alguns anos ou não", disse Medina.

Para comprovar que houve uma nova infecção, é necessário sequenciar o código genético de ambos os vírus, da primeira e da segunda infecção, para saber se se tratam de duas ocorrências, e não do mesmo vírus "reaparecendo" no corpo.

Cientista alerta para falsos positivos

Possíveis casos de reinfecção pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) estão sendo investigados no Brasil, explicou em entrevista à GloboNews na terça-feira (25) o infectologista Fernando Bellissimo Rodrigues, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP. Segundo o médico, além do primeiro possível caso de reinfecção, de uma técnica de enfermagem da faculdade, também são investigados outros dez pela universidade em Ribeirão.

Além de São Paulo, também há investigações na BahiaGoiás e Minas Gerais.

"Talvez elas funcionem por um tempo, mas não por tanto tempo quanto a gente gostaria que funcionassem. Pode ser que essa vacina acabe se tornando semelhante à vacina da gripe, que precise ser aplicada todos os anos", lembrou.

Na pesquisa de Hong Kong, os cientistas pontuam que uma vacina para a Covid-19 não deve ser capaz de fornecer proteção para a vida inteira. Além disso, recomendam que mesmo pacientes que já tiveram a doença devem ser imunizados.

"Novos estudos sobre reinfecção, que serão vitais para a pesquisa e desenvolvimento de vacinas mais eficazes, são necessários", afirmam.

Nesta terça, a OMS disse esperar que uma vacina gere uma imunidade mais forte ao vírus do que uma infecção natural. "E, com uma vacina, o ideal que se quer é uma imunidade mais forte. É uma das coisas que se procura quando se estuda que tipo de imunidade a vacina gera", afirmou Margaret Harris, porta-voz da entidade.

Cautela

Mas Bellissimo também alerta que pode haver, entre os casos, falsos diagnósticos positivos (veja vídeo mais abaixo). É possível que tenha havido, por exemplo, contaminação das amostras em Hong Kong.

"Não estou afirmando que aconteceram, mas podem ter acontecido, quando o paciente em questão não desenvolve sintomas compatíveis com o exame que lhe foi atribuído como positivo", explicou. Na primeira infecção, ele teve sintomas leves; na segunda, foi assintomático.

Na segunda-feira (24), após a confirmação do caso em Hong Kong, a Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu cautela ao se analisar as possibilidades, porque, até agora, foram detectados poucas ocorrências entre os mais de 24 milhões de casos registrados em todo o mundo.

"Acho que é importante colocar isso em contexto", disse a líder técnica para Covid-19 da organização, Maria van Kerkhove.

"Houve mais de 24 milhões de casos relatados até agora, e precisamos olhar para isso a nível de população. É muito importante que documentemos isso, e, em países que podem fazer isso, que o sequenciamento seja feito. Isso ajudaria muito. Mas não podemos pular para nenhuma conclusão, mesmo que esse seja o primeiro caso documentado de reinfecção", lembrou.

A entidade reforçou a ponderação nesta terça, afirmando que os casos de reinfecção não parecem ser comuns.

"É um caso documentado em mais de 23 milhões", afirmou a porta-voz da entidade, Margaret Harris, sobre o caso em Hong Kong. "E provavelmente veremos mais casos, mas parece não ser um evento regular. [Ou] teríamos visto muito mais casos", disse.