Notícia

Gazeta Mercantil

Governo acelera ação de apoio

Publicado em 20 setembro 2001

Por Andréa Guimarães, Gisele Teixeira, Hylda Cavalcanti e Laura Knapp - de Brasília
O Ministério da Ciência e Tecnologia conta, a partir de hoje. com um Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, que vai auxiliar a definir prioridades de projetos e investimentos na área. Esta é uma das três novidades anunciadas na Conferência Nacional de Ciência. Tecnologia e Inovação, em curso em Brasília. O ministro Ronaldo Sardenberg enviou ao Congresso projeto de lei paia inovação tecnológica e anteprojeto para aprovação de quatro fundos soto-riais (saúde, agronegócios, biotecnologia e aeronáutica). Foi anunciada a regulamentação do fundo aeroespacial. "Inovação é prioridade nacional", disse Sardenberg. O Centro de Gestão será a interface o entre governo e o setor de pesquisa. "Tornar eficiente o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) é um desafio fantástico nas empresas", disse Hermann Wever, presidente da Siemens brasileira. È preciso haver envolvimento da mais alta direto para dar certo". (Pág. A-7) AGÊNCIA PARA CIÊNCIA E TECNOLOGIA Laura Knapp O ministério da Ciência e tecnologia (MCT) conta, a partir de hoje, com uma agência para assessorá-lo investir. O estatuto do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos foi discutido ontem na Conferência Nacional e Inovação Ciência, Tecnologia e Inovação, que se realiza em Brasília, até amanhã e será oficializado hoje. "O centro vai nos auxiliar no processo de gestão a longo prazo", diz o ministro Ronaldo Sardenberg. "Vai nos ajudar a ter uma visão estratégica, dirigida para resultados." A idéia é transformá-lo em uma extensão da Conferência Nacional, da qual participam 1.200 empresários, professores e pesquisadores acadêmicos, representantes do governo e de organizações de classe e políticos. Terá a função de fazer a interface entre esses segmentos e, a partir das sugestões, formar consensos e assessorar o ministério na formação dos programas e no processo decisório, além de acompanhar a execução dos projetos aprovados. O centro será dirigido pelo atual presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Evandro Mirra, e será uma organização social, e não agência executiva. "Como organização social", diz o ministro, "será mais flexível e moderno e também será mais flexível e moderno e também será flexível e moderno e também será mais fácil recrutar pessoal". A necessidade de contar com uma assessoria é resultado do crescimento do orçamento do ministério, engordado com os recursos dos fundos setoriais, e pela mudança na própria gestão da ciência e tecnologia. "Agora, precisamos tratar de maneiras diferentes essa nova realidade, com uma visão mais abrangente, que o centro deverá nos dar." Dois terços do orçamento do MCT ainda são regulares, mais a participação dos fundos setoriais vem crescendo significativamente. Em 2001, os dez fundos já estabelecidos ultrapassaram R$ 648 milhões. E a previsão é que, em 2004, quando estiverem consolidados, cheguem a R$ 1,5 bilhão. Na segunda-feira foi regulamentado o fundo para a o setor aeroespacial, e o ministro anunciou que lei para aprovação de outros quatro, nas áreas de saúde, agronegócios, biotecnologia e aeronáutica. CONHECIMENTO TEM DE SER ADMINISTRADO Laura Knapp e Andréa Guimarães - de Brasília Investir em desenvolvimento de tecnologia é um ótimo negócio - desde que se tenha recursos para isso e que se administre com competência a criação. Na multinacional alemã Siemens há uma piada recorrente: se a Siemens soubesse o que sabe, seria muito mais. Com investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de US$ 4,5 bilhões em nível mundial, ou 7,5% de seu faturamento, a Siemens tem experiência no assunto. Entre 70% e 8% do valor gerado pela multinacional está ligado ao conhecimento, mas só 20% desse conhecimento está sendo efetivamente utilizado pela empresa. "Tornar eficiente esse investimento é um desafio fantástico", diz Hermann Wever, presidente da filial brasileira. O seu conselho para a empresa que queira aplicar em P&D: delegue os investimentos e as decisões para alguém da diretoria. "É preciso o envolvimento da mais alta direção" para que dê certo, afirma. A tendência, principalmente em empresas menores, é tratar esse investimento como se fosse uma especialidade. "Desenvolvimento é uma parte importante do planejamento estratégico", diz. "Quem não olha cinco anos para a frente corre riscos. Por isso, é necessário incluir C&T como função do mais alto escalão." A questão é ter dinheiro para investir. Em tempos de crise, pessoal ou nacional, quando não sobram recursos e a prioridade é com pagamentos prementes, a empresa não vai investir em P&D. O que acaba tomando o produto da empresa desatualizado e. conseqüentemente, seu faturamento menor. "Mas é ótimo investir em P&D", afirma Pedro Wongtschowski, diretor-superintendente da Oxiteno. A empresa investe anualmente LSS 10 milhões em P&D, ou 2,5% de seu orçamento. Uma das opções sempre mencionadas para alavancar o desenvolvimento tecnológico no País é a cooperação entre os laboratórios acadêmicos e a iniciativa privada. Mas a interação universidade-empresa é utopia e teria mais repercussão se ocorresse diretamente com o docente, em forma de consultorias, diz José Ellis Ripper, diretor presidente da AsGa, empresa de Campinas que produz equipamentos de telecomunicações, Ripper, ex-professor da Universidade de Campinas (Unicamp), foi um dos palestrantes do simpósio Eletrônica. Informática e Telecomunicações, realizado, ontem, no primeiro dia da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Informação, em Brasília. Segundo ele, é muito mais fácil e prático interagir com o ser humano do que com a instituição burocratizada. "Além disso, esse sistema pode ser usado pela universidade como forma de manter o professor na instituição, já que prestando a consultoria ele ganha mais dinheiro", afirma Ripper, lamentando que esse ponto de vista ainda seja discriminado nas universidades. O professor Sandoval Carneiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que participou do simpósio Educação para a Ciência. Tecnologia e Inovação, acredita mais na interação universidade-empresa e definiu os fundos setoriais como um caminho para isso. "Acredito que muitas inovações tecnológicas surgirão dessa interação", disse Carneiro. Para Ripper, é missão do governo incentivar a pesquisa dentro das próprias empresas, como forma de desenvolver a ciência de uma forma, aplicável à sociedade. "É o que ocorre nos Estados Unidos. Lá, as empresas recebem até mais investimentos nessa área do que as universidades." De acordo com o empresário, no Brasil não há ações fortes para promover a evolução do setor industrial e a grande esperança do empresário são os fundos setoriais. A AsGa, empresa que dos cinco diretores tem quatro ex-professores universitários, não costuma utilizar a consultoria de professores e mantém uma equipe de profissionais preparados para desenvolver as soluções tecnológicas necessárias. Segundo Ripper, se houvesse mais iniciativas de consultoria nas universidades, elas seguramente seriam fonte de consultas freqüentes. Com opiniões semelhantes, o presidente do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), Hélio Graciosa, indicou que o incentivo à pesquisa deve priorizar o desenvolvimento de novos produtos. "Já avançamos muito na pesquisa pura, chegou a hora de levar o conhecimento para a sociedade", disse. Para Graciosa, no caso específico das empresas de telecomunicações e informática, deve haver um investimento em capital intelectual em vez de priorizar o investimento em hardwares, já avançado nos países desenvolvidos. "O nosso diferencial será no seu produto humano e aí está a oportunidade de as empresas crescerem", disse. O representante da Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee), apontou um outro freio para o desenvolvimento: o déficit comercial, principalmente em relação a produtos essenciais para o desenvolvimento das indústrias de base tecnológica, como componentes eletrônicos. "Deve haver um esforço para que os investimentos em C&T tomem o Brasil menos dependente do que é produzido no exterior", afirmou. O físico Sérgio Mascarenhas, professor em São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), definiu a educação em ciências como fundamental para o crescimento no número de professores nessa área. "Para isso, é preciso haver mais incentivos, em termos de salários e condições de trabalho, para os professores", disse. Ele defendeu a criação de programas de desenvolvimento de setores estratégicos e de centros regionais para produção de educação em ciência como forma de ampliar o interesse em C&T.