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Governança e sucessão no agronegócio

Publicado em 20 dezembro 2017

Pensar na sucessão em uma lógica exponencial é um desafio para as empresas do agronegócio, sejam elas familiares ou não. Paralelo a isso, há ainda a necessidade em saber quais conceitos deverão ser usados no futuro e a intensificação de riscos que poderá afrontar o negócio.

Em torno dessa pauta, líderes e representantes do agronegócio se reuniram durante o 6º Fórum Nacional de Agronegócios, promovido pelo Lide (Grupo de Líderes Empresariais) para discutir algo que pode ser uma dor de cabeça para muitos: a governança e a sucessão nas empresas voltadas para o segmento.

“Empresas familiares são melhores e criam mais valor, pois a família ajuda no desenvolvimento dos negócios ao transmitir conhecimento e experiência que fazem a diferença e que são passados de geração para geração”, afirma Fábio Mizumoto, professor da Escola de Economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

No entanto, um dos pontos cruciais é como deve ser considerada a remuneração em família: com base no trabalho, responsabilidade ou vínculo familiar? Uma opção para esse entrave pode estar em um protocolo familiar que permita o equilíbrio entre tradição e inovação.

Vale dizer ainda que o tema é complexo e frágil. Para Carmen Perez, presidente do NFA (Núcleo Feminino do Agronegócio), o preparo para a sucessão deveria começar cedo. “As pessoas não podem ser distantes do campo. Essa aproximação também deve fazer parte do processo de sucessão, que começou tarde em nosso setor”, salientou.

Carmen também destacou sobre a presença da mulher no agronegócio. “A mulher sempre esteve no agro, não como papel principal, mas como coadjuvante. O mercado para a mulher no campo está aberto. Temos muitas veterinárias e zootecnistas fazendo trabalhos maravilhosos, por exemplo. As jovens que estão se formando encontrarão o caminho aberto”, frisou.

“Em muitos setores, vemos que o agro familiar é competitivo e focado no negócio em tempo integral”, pontuou Marcelo Vieira, presidente da SRB (Sociedade Rural Brasileira).

Por outro lado, engana-se quem pensa que no agronegócio familiar os problemas se restringem apenas à sucessão. Os problemas são os mesmos encontrados em uma grande propriedade, não se esquecendo de que o consumidor preza por um produto com rastreabilidade, qualidade e boas práticas de fabricação.

A parte mais interessada nisso tudo, ou seja, os jovens brasileiros, parece responder à altura o chamado do agronegócio nacional. Não se vê mais, como no passado, o desinteresse e distanciamento do campo. E isso se deve em parte à tecnologia.

“A Europa vive um problema na agricultura porque os jovens não querem ser sucessores, eles querem ficar na cidade e empresas estão sendo criadas para ocupar esse terreno. É preciso mostrar que há novas vertentes que precisam ser assimiladas. A sucessão na agricultura é essencial”, mencionou Roberto Rodrigues, presidente do Lide Agronegócios e ex-ministro da Agricultura.

Caminho a ser trilhado

O presidente do Conselho da Jacto, Shiro Nishimura contou como foi o processo de sucessão na empresa familiar: o patriarca resolveu se aposentar no início dos anos 80, mas sem preparação sucessória. Com isso, seu irmão e braço direito assumiu o “reinado” durante dez anos.

“A sucessão não estava dando certo e depois de algum tempo, em meados de 1997, foi feito o primeiro acordo de sócios sob muita tensão”, lembra Nishimura.

Um novo regime então foi constituído: uma sociedade de irmãos, o que valeu como algo estabilizador por 20 anos. “Nesse período tiveram que adaptar o viver empresarial e familiar, aprendido a duras penas”, disse o executivo.

No ano de 2000, Nishimura assumiu a presidência da Jacto, época em que buscou ajuda no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) para formalizar o ritual de conselho de administração. Em 2007, houve a introdução do ERP-SAP (Sistema Integrado de Gestão Empresarial) que foi de difícil implantação devido à complexidade da fábrica.

“Assim começou a sucessão profissional com executivo de mercado e não de família. Foram tempos difíceis tanto para os acionistas como para o executivo”, admite Nishimura.

Luiz Lourenço, presidente do Conselho da Cocamar, aproveitou a oportunidade para pontuar que como a empresa cooperativista é muito complexa, a profissionalização é o melhor caminho. “Estamos sempre realizando cursos e treinamentos visando à melhoria operacional da gestão da cooperativa. Hoje temos uma gestão focada e profissional e sempre realizamos um planejamento estratégico de nossas ações”, enfatizou.

O economista, professor e consultor, José Paschoal Rossetti, lembrou que as empresas familiares possuem ampla diversidade, mas objetivos-sínteses universais como manutenção da propriedade e continuidade. “Isso deve estar alicerçado em três pilares: coesão, alinhamento de estratégias e sucessão”, enumera ao ressaltar que apenas 4% das empresas familiares sobrevivem à terceira e quarta geração.

Um trabalho desenvolvido pelo Grupo Zilor tem chamado a atenção em relação à sucessão. Dênis Arroyo, diretor de parcerias agrícolas do grupo, apresentou o projeto Parceria de Futuro, que tem a participação de fornecedores de cana e seus familiares.

O programa mostra a importância estratégica das parcerias agrícolas para a garantia de fornecimento sustentável de matéria-prima para as usinas. “Temos a preocupação em preparar a sucessão dos parceiros agrícolas através do eixo governança – parceiros gestores”, afirmou Arroyo.

Ele conta que o projeto possui três fases: Encantamento (o fornecedor e seus familiares fazem parte do negócio), Entendimento (o que é o negócio) e Preparação (como contribuir para o negócio). “A próxima geração tem obrigação de ser melhor do que a primeira e também de respeitar e conservar o que foi constituído”, defende.

Prêmio Lide de Agronegócio

Após as palestras, foi realizada a cerimônia de entrega do Prêmio Lide Agronegócios 2017 nas categorias Comércio Agrícola, Comunicação, Ensino, Inovação, Insumos Agrícolas, Destaque do Ano e Homenageado Especial.

Os premiados foram:

- Comércio Agrícola: Amaggi – representada pelo diretor geral Pedro Valente; Bunge – representada pelo diretor Nilton Maluf e SLC Agrícola – representada pelo presidente Aurélio Pavinato.

- Comunicação: Jovem Pan – representada pela diretora de Negócios Marcela Marchi; Terra Viva – representada pelo diretor geral Eduardo Ramos e Valor Econômico - representado pela diretora Vera Brandimarte.

- Ensino: Esalq/USP Piracicaba - representada por André Alcarde, professor associado do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição; UFLA (Universidade Federal de Lavras) – representada pelo chefe de Departamento de Agronegócios, Rubens José Guimarães, e UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) – representada pelo diretor Agrônomo João Armando Machado.

- Inovação: Donmario – representada pelo diretor de Marketing Franco Neri; Embrapa – representada pelo presidente Maurício Antônio Lopes e Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) – representada pelo seu presidente José Goldemberg.

- Insumos Agrícolas: Heringer – representada pelo diretor de Suprimentos e Logística Pedro Augusto Ferreira; Mosaic Fertilizantes – representada pelo presidente Floris Builders e Superbac – representada pelo presidente Luiz Chacon.

Já a categoria Destaque do Ano foi para Humberto Pereira, editor-chefe do Globo Rural – programa referência para o agronegócio, e a categoria Homenageado Especial para o presidente da SNA (Sociedade Nacional de Agricultura), Antônio Alvarenga.

Por Diana Nascimento

Fonte: Revista Canavieiros - Ed137 - Novembro 2017