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Governador de São Paulo estende quarentena, desafiando Bolsonaro

Publicado em 08 maio 2020

O governador de São Paulo, João Doria, anunciou nesta sexta-feira (8) que por causa do aumento no número de casos da COVID-19 decidiu prolongar a quarentena até 31 de maio no estado, ignorando as pressões do presidente Jair Bolsonaro, contrário ao confinamento.

"Eu gostaria de dar uma notícia diferente, mas o cenário é desolador. Teremos que prorrogar a quarentena até 31 de maio", disse Doria, em uma coletiva de imprensa.

São Paulo, o estado mais rico e populoso do país, com 45,9 milhões de habitantes, se transformou no epicentro da pandemia no país, com cerca de um terço dos mais de 135.000 casos e 9.146 mortes registradas até a quinta-feira.

Doria havia declarado uma quarentena parcial em 24 de março, que foi por várias vezes estendida. Nesta sexta-feira, planejava-se o anúncio de um plano de flexibilização e recuperação econômica que seria aplicado por setor a partir de 11 de maio.

No entanto, o governador optou por prolongar o confinamento, já que nas últimas semanas a medida não foi totalmente respeitada, causando um aumento nos contágios da COVID-19.

Segundo o governo, São Paulo nunca alcançou os 70% de confinamento, considerado ideal pelas autoridades sanitárias para conter a propagação da doença.

De acordo com o governador, o plano de recuperação econômica será retomada assim que possível, no momento certo e respeitando a ciência.

"Estamos todos atravessando o pior momento desta pandemia, só não vê quem está cego pelo ódio ou pela ambição pessoal", enfatizou Doria.

Desde o começo da crise sanitária, o governador tem sido alvo constante das críticas de Bolsonaro, de quem foi aliado político.

Nesta sexta-feira, Doria disse que sua decisão de estender a quarentena era indiferente a pressões.

Embora não descarte um confinamento total se necessário, Doria não determinou medidas ainda mais restritivas.

O comércio considerado essencial continua funcionando em São Paulo, assim como algumas atividades da indústria e, embora a recomendação seja para as pessoas permanecerem em casa, não há proibição da circulação.

Seguidores de Bolsonaro têm realizado manifestações contra a quarentena.

"É muito triste ter que combater dois vírus ao mesmo tempo: o coronavírus e o Bolsonaro-vírus", disse Doria, mais tarde, em entrevista à GloboNews.

- "Risco de colapso" -

Na quinta-feira, Bolsonaro foi sem convite prévio, junto a um grupo de empresários, à sede do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, para questionar as medidas de quarentena declaradas em São Paulo, Rio de Janeiro e na maioria dos estados brasileiros.

"Nós sabemos do problema do vírus, que devemos ter todo cuidado possível, preservar vidas, (...) mas temos um problema que vem cada vez mais nos preocupando: os empresários trouxeram essas aflições, a questão do desemprego, a questão da economia não mais funcionar", disse o presidente.

Ao seu lado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que as medidas de isolamento poderia gerar um "colapso" econômico e social, com desabastecimento de alimentos em um mês.

A produção industrial do Brasil despencou 9,1% em março em relação a fevereiro, um impacto direto das medidas de isolamento em um país que já contabiliza quase 13 milhões de desempregados.

Para 2020, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma contração de 5,3% do PIB da maior economia latino-americana.

- Brasil, "novo epicentro" da pandemia? -

Embora São Paulo seja o mais afetado pela pandemia, proporcionalmente estados como o Amazonas (norte) e o Ceará (nordeste) apresentam cenários mais trágicos.

O Amazonas, onde vivem comunidades indígenas particularmente vulneráveis a vírus exógenos, registra 194 mortos por milhão de habitantes, ante as 72 mortes por milhão de habitantes em São Paulo.

Um estudo realizado por pesquisadores do Brasil e da Inglaterra indica que o país pode se tornar em junho no novo epicentro mundial da pandemia.

"O cenário mais otimista indica que até 9 de junho é possível que o Brasil tenha perto de 31.000 óbitos, mas um mais realista é que então estejamos perto de 40.000. O cálculo mais pessimista estimado até então é de 64.000 óbitos", explicou à AFP Vitor Engracia Valenti, professor de Fisiopatologia da Universidade Estadual Paulista, que supervisionou o estudo.

Os pesquisadores compararam a trajetória do vírus no Brasil e nos Estados Unidos nas semanas iniciais da pandemia, o que permitiu traçar cenários futuros para o Brasil a partir de fórmulas matemáticas. Valenti afirma que o confinamento, entre outras medidas, é necessário para evitar estes cenários.