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Com Ciência

Globalização altera relações produtivas em empresas de linha branca

Publicado em 18 abril 2007

Por Luiza Bragion

Como as relações de trabalho e a organização produtiva se alteraram nas empresas de eletrodomésticos de linha branca a partir do fenômeno da globalização? Essa foi a principal questão do projeto que integrou a Unicamp, Facamp, UFSCar e universidades dos países participantes. A pesquisa, que teve financiamento da Fapesp e do Economic and Social Research Council, do Reino Unido, abrangeu empresas de diversos países: China, Taiwan, Coréia do Sul, Turquia e Brasil, entre 2001 e 2006. A intenção, com a pesquisa já concluída, é lançar um livro sobre o assunto com dados sobre mudanças nas relações de trabalho e comportamento gerencial do setor.

De acordo com Leda Gitahy, pesquisadora do Departamento de Política Científica e Tecnológica Unicamp e uma das coordenadoras do projeto, foram examinadas e comparadas as estratégias gerenciais e as respostas dos trabalhadores em um setor que sofreu intenso processo de internacionalização e reestruturação produtiva, a partir da década de 90. Em cada uma das três empresas de eletrodomésticos pesquisadas, o grupo entrevistou cerca de 50 gerentes e 50 trabalhadores.

A globalização alterou o universo da produção. No Brasil, isso foi mais perceptível com a abertura da economia e inovações tecnológicas. O setor de linha branca era pouco internacionalizado, com forte participação nacional. Em 1993, a sueca Eletrolux fechou um acordo de transferência de tecnologia com a Refripar, então proprietária da marca Prosdócimo. Dois anos depois, houve a compra definitiva. Em 1994, a Bosch Siemens adquiriu a Continental e, em 1997, a americana Whirpool assumiu o controle da Multibrás, Brascabo e Embraco. Atualmente, cerca de 85% do faturamento do setor é controlado pelas grandes líderes mundiais. "A entrada dessas empresas no Brasil deu-se pela estratégia das multinacionais para reduzir custos e ampliar o desenvolvimento de fornecedores. Estavam de fato interessadas na conquista de um novo e amplo mercado, com cadeia produtiva bem estruturada", analisa Adriana Cunha, pesquisadora da Facamp e participante do projeto.

Entre as conseqüências desse processo, é possível apontar mudanças nas relações produtivas, redução de emprego e maior produtividade. Ângela Araújo, do Departamento de Ciência Política da Unicamp, afirma que o processo de reestruturação trouxe, de modo geral, melhor ambiente de trabalho e espaço físico, rodízio de atividades repetitivas, além de diminuição dos níveis hierárquicos entre gerentes e operários de chão de fábrica. "Por outro lado, as mudanças intensificaram o trabalho de todos, que têm mais metas a cumprir, maior jornada de trabalho e horas extras, com salários reduzidos. Isso traz doenças físicas e psicológicas, além extrema preocupação com o mercado de trabalho", afirma.

Na maioria das empresas, há envolvimento crescente dos trabalhadores em programas participativos que se refletem na sua maior capacidade de tomar decisões do trabalho, associada a novos métodos de gestão. A análise das respostas obtidas nas empresas mostra que a satisfação está associada às perspectivas de carreira. Em todos os países que fizeram parte do estudo, os trabalhadores consideram que não existe segurança no emprego e que as perspectivas dependem de esforços individuais e de investimentos em sua própria educação, assumindo o discurso da empregabilidade, principalmente entre os mais jovens. "O importante para eles é estar empregado, independente de onde e como, pois a instabilidade é global. Entre os anos 80 e 90, havia sempre uma justificativa para o desemprego, mas hoje a instabilidade é assumida como característica intrínseca", opina Gitahy.

Na pesquisa, também se pôde verificar a terceirização de serviços e a precarização das condições de trabalho. De outro lado, empresas de alta tecnologia empregam satisfatoriamente poucos trabalhadores. "Eu não vejo esse fenômeno da reestruturação com otimismo, pois houve aumento de desemprego, precarização dos já existentes e redução salarial. Isso é mundial, inclusive nos países ricos, aumentando a desigualdade e concentração de renda. Com isso, pode haver crise, já que o empobrecimento da população prejudica o consumo desses produtos", afirma Araújo.

Segundo a pesquisadora, sem os movimentos sociais, sindicais e políticos, a situação dificilmente será revertida. Para Adriana Cunha, mesmo considerando os problemas observados, a linha branca no Brasil teve mudanças positivas a partir da globalização. "A América Latina apresenta grande potencial de crescimento no setor. O Brasil se destaca na produção de eletrodomésticos tradicionais, como fogões e refrigeradores, o que revela sua importância individual no contexto da indústria mundial de linha branca", afirma Cunha.