Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Ginástica contra doenças metabólicas

Publicado em 12 dezembro 2012

Acúmulo de gordura no fígado, diabetes tipo 2, obesidade. Doenças causadas por má alimentação passam a ser melhor compreendidas com uma nova e importante ferramenta científicaque pode ajudar a prevenir males do tipo, cada vez mais comuns no cotidiano apressado das pessoas. Baseada na reação de camundongos, uma pesquisa realizada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (Each/USP) constatou que a prática de atividade físicaregular é capaz de impedir o desenvolvimento de distúrbios metabólicos mesmo em quem não adota dieta balanceada, gerando respostas no tecido adiposo e no músculo esquelético que favorecem o gasto de energia obtida por meio dos alimentos – em vez de simplesmente estocá-la no corpo.

Valendo-se de uma ração incrementada com amendoim, biscoito à base de amido de milho, chocolate e açúcar – batizada de Cafeteria – para imitar os hábitos alimentares humanos, o estudo observou que animais sedentários alimentados com a dieta desenvolveram quadro de intolerância à glicose,resistência à insulina e obesidade. Submetidos a um programa de treinamento de dois meses, onde fizeram uma rotina de exercícios sobre uma mini esteira durante uma hora diária, cinco dias por semana, os camundongos foram divididos em quatro grupos: sedentários alimentados com ração normal (controle), sedentários com Cafeteria, treinados com dieta padrão e treinados com dieta Cafeteria.

Enquanto os sedentários da dieta controle apresentaram aumento de peso de 13,3%, os sedentários da dieta de Cafeteria tiveram aumento de 21,3%. Os camundongos alimentados com a ração doce e incrementada que praticaram os exercícios, entretanto, tiveram uma elevação de peso de apenas 8,7%. “O treinamento físico realizado pelos animais alimentados com dieta de Cafeteria também teve um crescimento bem mais discreto de níveis de colesterol”, revela a coordenadora da pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Fabiana de Sant’Anna Evangelista.

Especialista no desenvolvimento de pesquisas envolvendo exercício físico, a pesquisadora explica que os camundongos sedentários submetidos à Cafeteria desenvolveram comportamento alimentar compulsivo, baseado no prazer, o que levou a ingestão calórica superior, aumento da adiposidade e da glicemia e maior resistência à ação de insulina. Um aspecto interessante observado no estudo foi que o comportamento do tecido adiposo se manifestou de forma diferente. Ao mesmo tempo em que os sedentários da Cafeteria secretaram 80% mais leptina (hormônio que desempenha importante papel na regulação da ingestão alimentar e no gasto energético, gerando um aumento na queima de energia e diminuindo a ingestão alimentar), nos ratos treinados foi observado aumento de 20%. Já a adiponectina, proteína que atua na melhora da sensibilidade à ação da insulina, foi reduzida em 30% nos sedentários. Nas cobaias treinadas houve aumento em 25%, indicando um dos mecanismos relacionados com o efeito preventivo do diabetes.

“Ficou evidente que o exercício físico evitou a hipertrofia das células adiposas e a conseqüente alteração da sinalização celular que contribui para regular o metabolismo energético. A atividade lipolítica do tecido adiposo branco aumenta tanto por estímulo da dieta quanto do treinamento físico. No entanto, apenas o grupo que treinou apresentou redução na adiposidade. Essa resposta pode ser conseqüência da abundância de ácidos graxos oriundos do tecido adiposo que não são oxidados e acabam sendo novamente estocados no tecido adiposo”, explica Fabiana. A análise revelou ainda que os camundongos que praticaram atividade física tinham maior concentração de citatro sintas e, uma enzima que é essencial para que as moléculas de gordura sejam oxidadas, fornecendo energia. Ou seja, a rotina de treinamento não apenas elevou o consumo de energia do tecido muscular esquelético, como também aumentou o metabolismo energético do próprio tecido adiposo.

Equilíbrio quebrado Fundamental para o equilíbrio entre a atividade lipolítica – quebra de moléculas de PROJETO DA UFMGI SANTA CASA VENCE Prêmio O programa Promoção de hábitos saudáveis por meio do exercício físico em pacientes com diabetes tipo 2, desenvolvido no Laboratório do Movimento da Universidade Federal de Minas Gerais, em parceria com o Ambulatório de Diabetes tipo 2 do Centro Metropolitano de Especialidades Médicas (CEM) da Santa Casa de Belo Horizonte, é vencedor do prêmio em concurso promovido pela Bristol-Myers Squibb Farmacêutica, Astra Zeneca do Brasil e Sociedade Brasileira de Diabetes. O programa mineiro tem como objetivo incentivar e avaliar os efeitos da modificação de hábitos de vida, com a inclusão de programas regulares de exercícios físicos, sobre a saúde e qualidade de vida em diabéticos tipo 2. Atualmente, 12 pessoas são atendidas no projeto de BH.

“Se o individuo elevar demais o consumo calórico e não, queimar na mesma proporção, o excesso de caloria acumulará”

Gordura para consumo – e a lipogênica (que armazena gordura no tecido adiposo), a proteína AMPK passou a ser produzida em menor quantidade nos camundongos sedentários alimentados com a Cafeteria. Fabiana Evangelista constatou então que a dieta induziu, nos dois grupos, o aumento da atividade lipolítica, mas como organismos sedentários não têm capacidade para oxidar os ácidos graxos como fonte de energia, os lipídios acabaram indo para o fígado, se acumulando e causando quadro de esteatose hepática. Parte da gordura voltou para o tecido adiposo, onde foi novamente estocada. “Aredução da atividade da AMPK é freqüentemente observada em diabéticos tipo 2 e obesos, e está associada à redução da capacidade oxidativa, aumento da lipogênese e aumento ou redução da lipólise”, alerta a pesquisadora.

O grupo treinado alimentado com a mesma dieta, por outro lado, apresentou aumento significativo da AMPK. Segundo ela, os camundongos mantiveram a lipólise aumentada, menor lipogênese e melhora na capacidade de oxidar os ácidos graxos. Embora o foco do estudo tenham sido os mecanismos celulares induzidos pelo treinamento, a pesquisadora alerta que ele oferece uma mensagem muito importante à população sobre a importância do controle de peso corporal e a redução dos riscos cardiovasculares.

Quando há aumento de peso e adiposidade, acrescenta Fabiana, outras conseqüências metabólicas podem surgir com o tempo. “Especialmente porque o tecido adiposo funciona não apenas para estocar energia, mas também para produzir substâncias com ação em diferentes locais do organismo.” Ela sustenta que o fato de fazer exercícios físicos não permite que se coma de tudo. “Se o indivíduo elevar demais o consumo calórico e não queimar na mesma proporção, o excesso de calorias se acumulará”, alerta. O próximo passo de pesquisa é entender melhor o impacto da atividade física no metabolismo do tecido muscular esquelético para desvendar a cooperação com o tecido adiposo.