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Gerenciamento costeiro é tema de debates em São Vicente

Publicado em 28 março 2013

Por Daniel Patire

O aumento das exportações e ampliação dos portos de Santos e São Sebastião, somados a pressão populacional e outros impactos socioeconômicos e ambientais decorrentes da exploração do pré-sal no litoral paulista, o poder público e a sociedade precisam se reorganizar para a gestão da região costeira. Para contribuir com esse debate, o Câmpus do Litoral Paulista, localizado em São Vicente, promove, desde o segundo semestre de 2012, os "Seminários de Gerenciamento Costeiro Integrado".

"O gerenciamento costeiro envolve diversas áreas do conhecimento, e, sobretudo, é influenciado pelos diferentes interesses dos grupos sociais e econômicos, seja pela preservação cultural, ambiental, ou a exploração econômica", explicou o professor da unidade universitária Davis Gruber Sansolo. "E o melhor jeito da universidade contribuir é aproximar a comunidade, poder público, dos principais especialistas brasileiros."

Com foco nesse objetivo, cerca de 300 pessoas, envolvendo alunos, gestores públicos e privados, pesquisadores e interessados estiveram presentes no terceiro seminário, que teve por tema "Gestão da biodiversidade costeira". O evento foi realizado na Câmara Municipal de São Vicente, no dia 27 de março, quarta-feira.

De acordo com Sansolo, a questão da diversidade biológica é muito rica, por ser também muito sensível as ações humanas, mudanças climáticas, e tantas outras variáveis. "A gestão desse aspecto envolve uma série de conhecimentos de Biologia, Oceanografia, Geografia, Antropologia, por exemplo. Precisamos formar pessoas com uma visão mais ampla do processo", salientou.

Múltiplas facetas

Com uma experiência acumulada de 44 anos de pesquisas com populações tradicionais, como quilombolas, caiçaras, muitas delas residentes em Unidades de Conservação (UC) ambiental, ou mesmo atuando como observador e consultor da ONU (Organização das Nações Unidas) para assuntos de pesca e preservação, o antropólogo Antonio Carlos Sant'Ana Diegues, da USP, defende a criação de outras áreas de proteção do meio ambiente, desde que negociada com essas populações.

Os caiçaras, por exemplo, têm um conhecimento profundo da dinâmica dos pescados de sua região, e sua atividade não é predatória. Se, ao determinar uma área como de proteção integral, essa comunidade fosse incluída, ela seria a primeira a defender e proteger, segundo Diegues. "A degradação ambiental, leva a uma rápida degradação da cultura tradicional, que, por sua vez, acelera ainda mais a degradação ambiental", disse.

O Estado de São Paulo possui hoje cerca de 4% do seu território como UCs, o equivalente da 953 mil hectares de florestas para preservação integral, e cerca de 10%, como áreas de uso sustentável, conforme informações da ambientalista Adriana Mattoso, da Fundação Florestal, órgão responsável pela gestão dessas localidades. "Ao longo dos anos, foram adquiridas muito mais áreas para conservação, sobretudo nas áreas marinhas. Ações de educação ambiental, maior fiscalização, têm contribuído para um maior entendimento da necessidade de proteção ambiental", salientou. "No entanto, a falta de uma proteção legal (jurídica) no entorno dessas áreas, pode por em risco todo esse trabalho."

A médica veterinária Andréa Maranho, do Instituto Gremar, e a oceanógrafa Iara Bueno Giacomini, da Coordenadoria de Fiscalização Ambiental da Secretaria do Meio ambiente do Estado de São Paulo, basearam suas palestras no impacto das ações do homem sobre animais, rios, ambiente marinho e vegetação.

Em 2007, estudos feitos pela Petrobrás e empresas para exploração das reservas de petróleo do pré-sal causaram a morte de mamíferos marinhos, de acordo com Andréa. Os estudos sísmicos, que utilizam ondas de vibração, provocavam alteração no comportamento e movimento, sobretudo, dos animais mais jovens. "Toda a cadeia do petróleo pode causar sérios danos à vida marinha. Por isso, devemos estar preparados para possíveis acidentes", ressaltou a médica veterinária.

Pesquisa e ação

Já Iara Bueno Giacomini, da Secretaria Estadual do Meio Ambiental de São Paulo, falou sobre os crimes ambientais cometidos pela população ou empresas no litoral norte de São Paulo. Para ela, a falta de uma relação mais próxima entre os pesquisadores das universidades e o poder público dificulta a elaboração e medição de parâmetros mais confiáveis sobre o impacto das atividades humanas no ambiente.

Um exemplo benéfico dessa interação foi dado pela professora Mariana Cabral de Oliveira, da Usp e uma das coordenadoras do Programa Biota, da Fapesp. Criado em 1999, pela agência de amparo à pesquisa do Estado de São Paulo, o programa agregou cerca de 100 pesquisas sobre a biodiversidade do estado. E a síntese dos dados obtidos até 2008 foram usados pelas diferentes secretarias do governo para a elaboração de políticas públicas. "E nesses últimos anos, estamos focando os estudos no ambiente marinho", destacou a professora.

Para auxiliar a gestão costeira, a geógrafa e bióloga Sueli Angelo Furlan apresentou uma ferramenta para elaboração e análise de mapas, que possam demonstrar o processo dinâmico tanto físico, climático, quanto das ações humanas, conhecida por Cartografia de Paisagem. Em um mapa de determinada área, o desenho geográfico da região é associado a diferentes símbolos , que, descritos em legendas, sintetizam vários aspectos sociais e ambientais.

Outras palestras

As duas palestras organizadas e realizadas pelo Câmpus do Litoral Paulista debateram os temas de "Gestão Portuária" e de "Turismo na zona costeira". E ainda neste ano, estão programadas mais três seminários: "Urbanização da zona costeira e gestão ambiental das praias"; "Pesca e gestão ambiental costeira"; "Risco ambiental e gestão de áreas contaminadas na zona costeira".

Para acompanhar e obter mais informações sobre os seminários, acesse: www.clp.unesp.br\gerco