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Geógrafo Milton Santos: Centenário Impulsiona Reflexão sobre Desigualdades (151 notícias)

Publicado em 03 de maio de 2026

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A observação dos contrastes urbanos em São Luís, no Maranhão, onde grandes redes de supermercados coexistem com mercadinhos e feiras populares que atendem a populações de baixa renda, revela dinâmicas profundas de exclusão e desigualdade. Este cenário de disparidades foi analisado em um estudo conduzido por Livia Cangiano, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), que utilizou como base uma teoria desenvolvida por Milton Santos na década de 1970.

Neste dia 3 de maio, a comunidade acadêmica e a sociedade civil celebram o centenário de nascimento de Milton Santos. Apesar de seu falecimento em 2001, aos 75 anos, o legado intelectual do geógrafo permanece uma fonte essencial para a compreensão e análise das questões socioeconômicas, tanto no Brasil quanto globalmente.

Milton Santos concebeu uma teoria que organiza a economia urbana em dois circuitos distintos. O primeiro, denominado circuito superior, é caracterizado pela presença de grandes corporações, alta tecnologia, expressivo capital e uma organização complexa. Em contrapartida, o circuito inferior abrange pequenos empreendimentos comerciais e serviços, que, embora disponham de menos recursos, demonstram notável capacidade de adaptação às necessidades da população local.

É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas.

Livia Cangiano ilustra a relevância do circuito inferior, especialmente no setor de alimentação, onde “o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”. A aplicabilidade de sua obra transcende as fronteiras brasileiras, com o projeto de pesquisa de Livia explorando as ideias de Santos em contextos urbanos de Gana, na África, e nas cidades europeias de Londres e Paris.

Percurso Acadêmico e Vida

Nascido em 3 de maio de 1926, na cidade de Brotas de Macaúbas, na Bahia, Milton Santos consolidou-se como uma das figuras mais proeminentes da geografia mundial. Sua formação acadêmica incluiu o bacharelado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado pela Universidade de Strasbourg, na França.

Durante o período da ditadura militar no Brasil, Santos viveu exilado, lecionando em diversas universidades na Europa, na África e na América Latina. Após seu retorno ao país, ele enriqueceu sua produção intelectual como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Enquanto homem negro, Milton Santos confrontou o racismo estrutural presente no ambiente acadêmico, e sua vasta obra redefiniu a compreensão do espaço geográfico, integrando dimensões econômicas, políticas e sociais. Sua trajetória e pensamento são fonte de inspiração para outros intelectuais negros, como a geógrafa Catia Antonia da Silva, que atua como professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana.

Catia Antonia da Silva esclarece que, embora a negritude e a articulação política entre classe social e raça não fossem os temas centrais da obra de Milton Santos, sua teoria social crítica das desigualdades oferece ferramentas valiosas para a análise das questões raciais. O geógrafo, segundo ela, jamais se furtou a abordar o tema quando era relevante se posicionar publicamente.

Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.

A Contribuição Teórica de Santos

Além da teoria dos circuitos urbanos, Milton Santos desenvolveu conceitos que aprofundaram a compreensão das desigualdades. Para ele, o espaço não é um mero pano de fundo para a vida, mas uma manifestação direta de decisões políticas e econômicas. Isso implica que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades, como saneamento básico, transporte público ou acesso à internet, não é fortuita, mas resultado de escolhas que beneficiam certos grupos e regiões.

Ao observar uma área periférica desprovida de serviços essenciais ou uma região valorizada com alta concentração de investimentos, Santos nos convida a reconhecer não o acaso, mas a materialização das relações de poder.

A geógrafa Catia Antonia da Silva complementa que “Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”.

Em sua obra Por uma outra globalização, Santos critica um sistema que, apesar de ser propagandeado como promessa de integração e progresso, na prática, acentua as desigualdades em escala mundial. Grandes projetos de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, conectam nações e mercados, mas simultaneamente remodelam territórios locais, exercem pressão sobre comunidades e intensificam a concentração de riqueza.

Outro conceito fundamental do autor, o “meio técnico-científico-informacional”, descreve como a tecnologia, a ciência e a infraestrutura moldam o território. Isso se manifesta em regiões altamente conectadas, com redes digitais avançadas e logística eficiente, coexistindo com áreas onde faltam serviços básicos. Enquanto alguns espaços são preparados para atender às demandas do mercado global, outros permanecem marginalizados nesse processo.

Visões de Transformação e Resistência

Apesar de seus diagnósticos críticos, Milton Santos também indicou caminhos para a transformação. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que contribuem para o aprofundamento das desigualdades podem ser apropriadas pelas comunidades locais para o desenvolvimento de alternativas econômicas e sociais. Para o autor, iniciativas comunitárias, a aplicação de tecnologia em áreas periféricas e a organização por meio de formas cooperativas exemplificam como o território pode se tornar um espaço de resistência e de reinvenção.

Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço.

Livia Cangiano conclui que “além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”.

Celebrações do Centenário

O centenário de Milton Santos será marcado por uma série de eventos em todo o Brasil. As programações, realizadas em formato híbrido, reunirão pesquisadores, ativistas e o público em geral para discutir o legado e a atualidade de sua obra.

Entre 4 e 8 de maio, a USP sediará o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21, que contará com transmissão virtual e é fruto de uma parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc organizará um ciclo de palestras sobre o geógrafo ao longo do mês de maio.

Já a Universidade Federal do Tocantins promoverá, de 26 a 29 de agosto, o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional, que buscará debater internacionalmente o pensamento e a obra de Milton Santos.