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Jornal da Unesp online

Geógrafas auxiliam indígenas a conhecerem seu território

Publicado em 21 março 2007

Por Oscar D'Ambrosio

Ações ocorrem em aldeia próxima ao Pico de Jaraguá

A educação em geografia pode exercer um importante papel na questão da demarcação de terras e na preservação do patrimônio cultural e ambiental das áreas indígenas. Ações nesse sentido estão sendo praticadas por pesquisadoras do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), campus de Rio Claro, junto à aldeia Guarani M'bya Tekoa Pyau, na terra indígena do Distrito de Jaraguá, na Capital paulista.
Os trabalhos orientados pela antropóloga Bernardete Aparecida Caprioglio de Castro Oliveira e pela geógrafa Maria Isabel Castreghini de Freitas, do Departamento de Planejamento, têm como objetivo o estudo das formas de representação espacial indígena, por meio da Engenharia e Cartografia.
O projeto inclui três cursos de extensão para a comunidade local realizados por meio do Cecemca (Centro de Educação Continuada em Educação Matemática, Científica e Ambiental da UNESP), coordenados por Bernadete e Maria Isabel, com participação de uma mestranda e de uma aluna de iniciação científica.
Foram escolhidos para participar do curso jovens da aldeia que demonstraram interesse pela proposta de capacitação. Eles deveriam ter escolaridade entre a 5ª série do Ensino Fundamental e o 2º ano do Ensino Médio, com perfil para manipular sistemas computacionais e com disponibilidade para fazer o trabalho.
O primeiro curso, realizado em janeiro e fevereiro para cinco jovens da aldeia, teve como finalidade a introdução às noções cartográficas, visando o maior conhecimento a respeito das formas de representação do espaço.
O segundo, em andamento, com término previsto para março, com os mesmos índios, vem apresentando os resultados da pesquisa desenvolvida e introduz técnicas computacionais e de manipulação de Sistema de Informação Geográfica (SIG), para que os jovens possam entender e interagir com o que foi realizado.
O terceiro, a ser realizado em abril e maio, prevê a elaboração de um site bilíngüe com informações que a aldeia julgar relevantes.
Autora do mestrado Geotecnologias no mapeamento etnoambiental da aldeia indígena Tekoa Pyau, Márcia Pereira Cabral, que realizou a qualificação em fevereiro último, enfoca o mapeamento dos aspectos físicos e socioeconômicos da aldeia e seu entorno, utilizando a cartografia digital, o sensoriamento remoto e o SIG. "O projeto busca fornecer dados cartográficas e computacionais que permitam a comunidade indígena um maior entendimento, controle e domínio de seu espaço", conta.
De posse da informação sobre o espaço construído pelos próprios índios e do material fornecido para análise científica, pretende-se um estudo comparativo entre as duas formas de linguagem sobre o espaço geográfico da aldeia.
A proposta está sendo realizada em parceria com a coordenação do CECI (Centro de Educação e Cultura Indígena e Núcleo de Educação Indígena da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo).
Sobre a aldeia — A aldeia Guarani M'bya Tekoa Pyau, que ocupa uma área de aproximadamente 12 mil metros quadrados, localiza-se às margens da Rodovia dos Bandeirantes, próximo ao Km 20. "A aldeia está próxima ao Pico do Jaraguá, que é uma unidade de conservação", afirma Márcia.
Trata-se de uma área de floresta aberta a visitantes para fazer trilhas, turismo e visitar feiras de artesanato. "Mas a área não pode ser utilizada pela comunidade indígena como forma complementar de sua dieta e caça", assinala.
A bolsista Fapesp Letícia Giuliana Paschoal, aluna do curso de Geografia do IGCE, desenvolve o trabalho de Iniciação Científica intitulado Representação espacial indígena através da Cartografia: um estudo na aldeia Tekoa Pyau no Distrito do Jaraguá — São Paulo (SP), com orientação de Bernadete e co-orientação de Maria Isabel.
"Trata-se de um grupo que sofre com a marginalização. Enfrenta interesses alheios aos de sua cultura, o que contribui para uma desarticulação e uma fragmentação de seu espaço", diz Letícia. "Por isso, realizamos entrevistas com alguns idosos da comunidade. Queremos colher dados sobre a visão de mundo desses indivíduos. Suas representações serão coletadas por meio de desenhos elaborados pelos entrevistados e por seus depoimentos nas entrevistas."
Valores culturais — Um dos objetivos da pesquisa é resgatar valores culturais das comunidades indígenas. Isso se torna ainda mais importante quando se verifica que a Terra Indígena (TI) do Jaraguá/SP, onde se encontra a aldeia, localiza-se junto à região metropolitana de São Paulo.
"Torna-se, dessa forma, inevitável o contato entre a cultura indígena e a cidade. Diante da necessidade de adquirir novos conhecimentos nas escolas indígenas, centros culturais indígenas, a alfabetização e o uso de tecnologias como o computador, o vídeo, surgem como forte demanda", aponta Letícia.
Meio ambiente — A análise do uso do solo no entorno da TI do Jaraguá é de grande importância, pois a região é hoje predominantemente urbana, o que contrasta com o modo de vida indígena. "A ocupação desordenada no entorno da aldeia causa também grandes impactos ambientais, afetando a qualidade das águas, degradando o solo, atingindo a fauna e a flora existente no local", avalia Letícia.
"Nichos remanescentes da Mata Atlântica, como o Parque Estadual do Jaraguá e a Serra da Cantareira, foram alterados pela pressão da expansão urbana da cidade na região."
A construção de estradas no local, como a Via Anhanguera, a Bandeirantes e o recente Rodoanel, estimula a ocupação por loteamentos clandestinos e as construções em terras públicas. "Há ainda o surgimento de uma área industrial, que conta com a presença de grandes empresas atraídas pelas facilidades que as rodovias proporcionam, como rápido fluxo entre automóveis, caminhões e carga e descarga", afirma Bernardete.
"Portanto, a aldeia encontra-se cercada sem ter como reivindicar mais terras e tendo, aos poucos, seu espaço invadido, gerando conseqüências negativas para a comunidade que ali vive."