Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Gente-peixe é tema de publicação

Publicado em 11 agosto 2005

Por Por Eduardo Geraque, da Agência FAPESP
Quando a ecologia transborda, qualquer avaliação pode enfocar vários outros aspectos além do essencialmente científico. Filosofia, cultura, economia. A multidisciplinaridade emerge literalmente do campo de jogo em dois livros sobre peixes lançados esta semana.
Se os evolucionistas não têm dúvidas de que a vida surgiu no ambiente aquático, as narrativas indígenas dos povos tukano e tuyuka, que habitam a região do Alto Rio Tiquié, no noroeste amazônico, também revelam uma idéia semelhante. No começo de tudo, mostram os textos publicados na obra Peixe-gente no Alto Rio Tiquié, conhecimentos tukanos e tuyuka ictiologia, etnologia, a humanidade era gente-peixe.
Com a evolução, revela ainda o livro editado pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com as próprias comunidades indígenas e com o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, uma parte daquela população inicial deu origem à humanidade, tal como se conhece hoje. A outra parte ficou na camada das águas e passou a hostilizar a humanidade. A relação entre gente e peixe, e como o segundo surgiu e se diversificou, é o mote das narrativas dos indígenas copiladas no livro.
Além da mitologia indígena, o conhecimento empírico das tribos sustentou parte de outro estudo publicado em conjunto na mesma obra. Os atores do campo científico beberam na cultura local para descrever 147 espécies identificadas no noroeste amazônico. As informações taxonômicas são reforçadas por dados ecológicos precisos, como a variação das populações ao longo dos trechos dos rios, rotas de migrações e freqüência de pesca.
Para continuar avançando nas descobertas é preciso que se navegue agora mais para baixo, em direção aos níveis inferiores da cadeia trófica. A relevância da segunda obra publicada esta semana, o livro chama-se Ecologia trófica de peixes — com ênfase na planctivoria em ambientes lênticos de água doce do Brasil, está, antes de mais nada, na origem do estudo. As informações ecológicas disponíveis sobre a interação dos peixes tropicais com o ecossistema em que eles vivem são diminutas.
"O estudo revela que o acará Geophagus brasiliensis, ao contrário do que se imaginava, consome bastante zooplâncton. A alimentação dele não está relacionada apenas com os sedimentos", disse Odete Rocha, uma das autoras da obra ao lado do pesquisador irlandês Kennedy Roche, à Agência FAPESP. O acará, além de ser genuinamente neotropical, é uma peça importante nos lagos e represas de várias partes do Brasil. No caso específico do estudo realizado pela dupla de pesquisadores, as informações foram obtidas a partir da represa do Broa, localizada na região de São Carlos, interior de São Paulo.
"Toda a informação nova sobre a ecologia de peixes tropicais será bastante útil para as próximas pesquisas relacionadas, por exemplo, com o ambiente", explica Odete, também professora do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos (UFScar). Segundo a pesquisadora, no caso específico do acará, tanto questões econômicas e sociais como ambientais podem se desdobrar do problema principal.
Esse tipo de peixe, explica a pesquisadora, é bastante utilizado em experimentação, pela sua resistência. "E, agora, é possível mudar a alimentação dos animais que estão em cativeiro. Isso pode diminuir o custo da criação e ainda aumentar a produtividade", diz Odete.
Outro ponto fundamental: a relação, e essa nem sempre é positiva, entre espécies nativas, como o acará, e outra autóctones, como a corvina, que foi introduzida na bacia do Paraná. "Esses dois peixes competem por alimento e isso pode causar problemas ambientais no futuro", explica a pesquisadora.
Odete também está preparando um novo livro, que será lançado no próximo mês, exclusivamente sobre a questão delicada das espécies invasoras.