Notícia

Jornal do Brasil

Genoma se regionaliza

Publicado em 26 abril 2001

Por NICOLAU FARAH
BRASÍLIA - Sete redes regionais de pesquisas foram criadas untem pelo Ministério da Ciência tecnologia (MCT), dando prosseguimento ao Projeto Genoma Brasileiro, inaugurado ano passado. O lançamento aconteceu no Palácio do Planalto, na presença do presidente Fernando Henrique Cardoso, e ocorre num momento em que o puís comemora vitórias na área de biotecnologia, como o seqüenciamento, financiado pela Fapesp, do código genético da Xylella fastidiosa, bactéria que ataca laranjais. Os sete projetos quatro voltados para a área da saúde e três do setor agrícola - exigirão recursos, somente este ano, estimados em R$ 26 milhões. Este volume de investimentos representa mais de duas vezes o que foi investido ano passado e é menos da metade do que está previsto em 2001 para pesquisas do gênero. Batizadas de Redes Regionais do Projeto Genoma Brasileiro, o programa reunirá 48 laboratórios e empregará 240 pesquisadores. Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia. Ronaldo Sardenberg, o objetivo é descentralizar os trabalhos, evitando que os estudos fiquem limitados às regiões mais desenvolvidas, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. "É um esforço para impedir que pesquisadores do Norte e Nordeste, por exemplo, tenham que migar para outras regiões do país para poderem desenvolver suas pesquisas", O mapeamento do genoma de sete microorganismos pode resultar no desenvolvimento de novas drogas para o combate de doenças e na economia de recursos usados com fertilizantes na agricultura. Na área da saúde, serão seqüenciados os causadores da leishmaniose, doença de Chagas, esquistossomose e de uma micose endêmica na América Latina. Já no setor de agricultura, serão decodificados o fungo causador da vassoura de bruxa, que ataca o cacau, e duas bactérias fixadoras de nitrogênio. OBJETIVOS E VANTAGENS Os sete microorganismos que serão estudados são: Paracoccidioide brasiliensis: fungo responsável pela paracoccidioidomicose, doença endêmica na América Latina, que, se não tratada, pode levar à morte. Estima-se que a doença atinja 10 milhões de pessoas no continente, dos quais 80% no Brasil. O fungo será seqüenciado pela Rede do Centro-Oeste, que reúne 12 laboratórios. Schitosoma mansoni: causador do esquistossomose, o protozoário é típico de países tropicais. A esquistossomose afeta 200 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, o número de casos é estimado em 12 milhões. O objetivo da Rede Genoma do Estado de Minas Gerais, que congrega sete instituições, é obter a seqüência de genes relacionados aos diversos estágios de desenvolvimento do parasita, favorecendo a elaboração de drogas que inibam sua ação. Leishmania chagasi: o microorganismo é uma das três espécies existentes de Leishmania, causadora da leishmaniose. O desenvolvimento de vacinas de DNA é um dos desdobramentos do seqüenciamento genético do protozoário. O trabalho será feito pelo Programa Genoma do Nordeste, que conta com 12 universidades. Trypanosoma cruzi: causador da doença de Chagas, o T. cruzi é um dos protozoários mais estudados no Brasil. O Programa de Implantação do Instituto de Biologia Molecular do Paraná, que reúne apenas três laboratórios, busca confeccionar chips de DNA com genes do microorganismo. Estes chips consistem na ordenação de segmentos de DNA sobre uma lâmina para que sejam examinados por microscópios a laser. O objetivo é identificar os Genes relacionados com a infecção. Herbaspirillum seripedicae: bactéria fixadora de nitrogênio de grande importância para a agricultura. No arroz, responde por entre 30% e 54% do nitrogênio acumulando na planta. O seqüenciamento da bactéria poderá aumentar esse percentual, dispensando o uso de fertilizantes nitrogenados, que consomem cerca de R$ 600 a 840 milhões todos os anos. Dez instituições estão envolvidas no seqüenciamento do microorganismo, feito pela Rede Genoma do Estados o Paraná. Cluconacetobacter diazotrophicus: bactéria que também fixa nitrogênio. Encontrada, principalmente, na cana-de-açúcar. Também está relacionada à produção de substâncias que atuam sobre o crescimento vegetal. Balizada de RioGene, a rede tem nove instituições, incluindo agências de fomento regionais. Crinipellis perniciosa: fungo causador da chamada vassoura de bruxa, praga que atinge as plantações de cacau. Por ser o maior produtor de cacau do Brasil, o estado da Bahia, onde o microorganismo foi detectado em 1989, é o mais prejudicado pela doença. A Rede de Genômica do Estado da Bahia pretende identificar os genes maléficos do fungo a fim de criar variedades de cacaueiro resistentes a ele. Oito institutos integram o programa.