Notícia

Gazeta Mercantil

Genoma no mundo empresarial

Publicado em 27 abril 2001

Por Laura Knapp
Compartilhar generosa e livremente dados sobre seqüências genéticas sempre foi um assunto empolgante, ainda que praticamente unidirecional, daqueles que têm todos os interlocutores atirando num alvo só. No caso, o cientista Craig Venter. Ele se desgarrou do consórcio público Projeto Genoma Humano (PGH) para ganhar dinheiro fazendo o mesmo na empresa que criou, a Celera Genomks. Buscar fortuna com um bem não só natural como intrínseco à própria essência do ser humano foi considerado sórdido, imoral até. Pesquisadores que passaram para o "outro lado" foram estigmatizados e considerados traidores. Ganhar a vida na iniciativa privada era como ganhar a vida praticando furtos. Publicar as seqüências ainda quentes de todos os tipos de genoma tornou-se decorrência natural, automática, pelo menos para aqueles cientistas ligados a universidades ou institutos de pesquisa sem fins lucrativos. Não se sabe se Venter e sua Celera farão fortuna algum dia—desde que foi criada, em maio de 1998, só opera no vermelho. O fato é que a idéia de ganhar dinheiro com pesquisas sobre seqüenciamento genético começa a ser aceita. E até defendida. "Já contribuímos com mais de um milhão de seqüências sobre o câncer para o Genbank e agora chega", diz Ricardo Brentani, chefe executivo do Hospital do Câncer, em São Paulo. Incomodou os pesquisadores brasileiros, apesar da contribuição ao banco de dados público, não terem sido citados no trabalho de anotação do seqüenciamento publicado pela revista Nature, em fevereiro último. Talvez tenha sido a gota fatal. Ciência, afirma Andrew Simpson, coordenador do projeto brasileiro Genoma Humano do Câncer, é uma atividade altamente competitiva. O Brasil, tendo-se firmado como um dos líderes da pesquisa biotecnológica, principalmente com o seqüenciamento de patógenos vegetais, deveria entrar nessa briga para valer. Com o sucesso da análise genômica da Xylella fastidiosa, publicada em 13 de julho de 2000 na Nature, e de todas as outras que se seguiram, o País não é mais café com leite. "Estamos competindo", diz Simpson. "Temos de trabalhar dobrado agora." Nesse ambiente, distribuir livremente informações genômicas é como passar um atestado de ingenuidade. Ou não seria ingênuo tornar disponíveis informações que podem ser utilizadas posteriormente por outros, para ganho próprio? Enquanto não se tratar de dados essenciais para a sobrevivência humana, o Brasil faz bem em preservá-lo!> até concluir seus estudos, avalia José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp. "Os EUA podem liberar os dados porque têm uma grande capacidade de explorá-los e podem chutar a bola quando quiserem", diz Paulo Arruda, coordenador do projeto genoma cana-de-açúcar. Mas pesquisadores de fôlego menor, pelo menos financeiro, como os brasileiros, além de lidarem com dinheiro público, precisam extrair o máximo de informações sobre suas pesquisas antes de liberar os dados para terceiros — e garantir patentes. Com o seqüenciamento da cana-de-açúcar, por exemplo, diz-se que será possível extrair fórmulas para elaborar açúcares sem calorias e desenvolver variedades mais resistentes a pragas, que absorvam menos substâncias tóxicas e se adaptem melhor a condições climáticas variadas. O DNA da Xanthomonas citri, bactéria que causa o cancro cítrico, pode render lucros aos pesquisadores. A goma xantana, produzida pela bactéria, é um espessante largamente utilizado na indústria alimentícia. Qualquer que seja a aplicação potencial dos dados dos seqüenciamentos feitos no Brasil, será preciso resolver antes — e com rapidez — uma outra questão. Como repartir os frutos de pesquisas financiadas com dinheiro público? Não pode ser difícil arquitetar uma fórmula em que caibam todos os protagonistas: governo, pesquisadores, instituições e até a iniciativa privada, nas raras oportunidades em que esta última coloca a mão no bolso. Essa linha de raciocínio leva a um outro ponto: com possibilidades tão promissoras, não seria hora de a iniciativa privada investir dinheiro do próprio bolso? O governo, como agente incentivador, pode já ter cumprido seu papel. Quando o genoma migra do reino da ciência para o da tecnologia, torna-se comerecializavel. É nessa hora que deve ser apresentado ao inundo empresarial. E-mail: lknaop@gazetamercantil.com.br