Notícia

Gazeta Mercantil

Genoma já cria uma nova indústria

Publicado em 14 abril 2000

Por Laura Knapp - de São Paulo
O seqüenciamento do genoma humano, anunciado pela Celera Genomics na semana passada, chamou a atenção para o potencial econômico da biotecnologia. Empresas da área, especialmente as dedicadas a decifrar o DNA, ainda não têm faturamento, mas estão na lista de preferência dos investidores americanos. "Nesse mercado não se pode fazer uma análise convencional", diz Álvaro Candeia, sócio da Arbitrai Finance. "Compra-se o intangível." Mas de cada dez empresas pesquisadoras do genoma humano, pelo menos duas farão descobertas revolucionárias. E já há toda uma indústria que floresce à volta delas. O Brasil avança pelas laterais, com projetos para seqüenciar o genoma do câncer, microorganismos e plantas. BIOTECNOLOGIA ABRE CAMPO PARA NOVOS NEGÓCIOS A notícia, na semana passada, de que a americana Celera Genomics havia praticamente terminado o seqüenciamento do genoma humano trouxe de volta à pauta várias discussões. O direito ao patenteamento dos genes. Ética. Privacidade em relação a informações sobre particulares. Novos negócios. Lucros. Enquanto o índice Nasdaq caiu 6,43% do começo do ano até ontem, o índice de biotecnologia do próprio Nasdaq subiu 11,11 % no mesmo período, acumulando alta de 133% desde primeiro de janeiro de 1999. As aplicações em ações do setor, que já eram promissoras, devem abocanhar mais investidores. Isso ainda que parte das empresas, especialmente as que se dedicam a decifrar o DNA, ainda não tenham faturamento, e os investidores estejam apostando seus recursos, na verdade, em possibilidades e hipóteses. "Nesse mercado, não se pode fazer uma análise convencional das empresas, como se faz com a Coca-Cola", afirma Álvaro Candeia, sócio-diretor da Arbitral Finance, que há quatro anos trabalha com empresas de biotecnologia em seu portfólio. "Compra-se o intangível". Trata-se de um intangível bastante promissor. A estimativa com que trabalham os analistas é de que, de cada dez empresas que se lançaram a desvendar o genoma humano, pelo menos duas descobrirão algo revolucionário. E, aí. o valor da empresa pode subir trinta, quarenta vezes. "O potencial de retorno é extraordinário, como se o investidor tivesse ganho na loteria", diz Candeia. A soma das ações que giram no índice de biotecnologia do Nasdaq é da ordem de US$ 250 bilhões. Na American Stock Exchange, índice não-eletrônico da costa oeste americana, que tem mais empresas de biotecnologia listadas do que o Nasdaq, a capitalização do mercado é de US$ 356 bilhões. Diariamente, são negociados nessa bolsa entre US$ 35 milhões e US$ 40 milhões em ações de biotecnologia. Esse índice do Nasdaq movimentou, somente ontem, US$ 101,5 milhões, 30% do que é negociado na Bovespa como um todo. Se no mercado da Internet começa a surgir uma certa desconfiança sobre o real valor do preço das ações de empresas que não registram um dólar sequer de faturamento, o de biotecnologia não passa totalmente incólume a esse questionamento. Mas apresenta vantagens concretas sobre o outro, principalmente por que lida com material mais sólido do que a Internet. "Essa área não vai voltar atrás, não é moda. É o futuro", diz Candeia. Afinal, o potencial de drogas e medicamentos que podem ser feitos a partir da descoberta da função de cada gene é gigantesca. Já afirmam os especialistas: o céu será o limite quando entendermos como essa máquina, o corpo humano, funciona. Há toda uma indústria que floresce à volta dos laboratórios que trabalham no seqüenciamento dos genes. São fabricantes que fazem equipamentos, empresas de informática que analisam e ordenam as informações sobre o DNA, a própria indústria química e farmacêutica, que terá na decodificação dos genes humanos farta matéria-prima para desenvolver novos produtos. Como pondera Carlos Alberto Moreira-Filho, coordenador do Centro de Pesquisa em Biotecnologia da Universidade de São Paulo (USP), essas novas tecnologias incidem sobre setores clássicos da economia, revitalizando-os, aumentando seus lucros e conseqüentemente seu ciclo de vida. "A indústria de síntese química estava se exaurindo", diz ele. Mas agora, a partir da engenharia genética, novos fármacos poderão ser feitos. "Não é por acaso que eles estão investindo exaustivamente". Empresas como Incyte, Millennium Pharmaceuticals e Human Genome Sciences já entraram com mais de 10 mil pedidos de patentes para partes do código genético. Em 1998, a Novartis fundou o Instituto de Genômica Funcional (NIFG, em inglês), com o objetivo de identificar soluções terapêuticas para doenças que sabe-se que têm ligação com características genéticas, como o Mal de Alzheimer, diabetes, asma, depressão e câncer. Com vinte laboratórios trabalhando dentro do instituto, a empresa investirá, em dez anos, US$ 250 milhões. A Millennium, que tem parcerias para o desenvolvimento de drogas com grandes laboratórios como Hoffmann-La Roche, Pfizer, Eli Lilly, Astra Zeneca e Bayer, entre outros, conta com fundos dessas parcerias da ordem de US$ 1,3 bilhão. "A Millennium sempre trabalhou com a premissa de que o genoma um dia seria conhecido", declarou o principal executivo (CEO) Mark Levin. "Portanto, direcionamos nossos esforços no sentido de compreender o papel dos genes nas doenças". O Projeto Genoma Humano, coordenado pelo governo norte-americano, que abrange cerca de 1.100 biólogos, cientistas e técnicos espalhados em 16 laboratórios em seis países, investiu, nos últimos 13 anos, US$ 250 milhões no seqüenciamento. E o Brasil? Apesar de não se ter lançado a um projeto arrojado ou abrangente em seqüenciamento do DNA humano, o País avança pelas "laterais", desvendando o código genético de plantas. E com muito sucesso. Os pesquisadores brasileiros que participaram do seqüenciamento do genoma Xylella assinam hoje um acordo de colaboração científica com o Serviço de Pesquisa em Agricultura dos Estados Unidos e com a American Vineyard Foundation, para trabalhar na decodificação do DNA da Xylella que ataca as videiras. A exceção está no Genoma do Câncer, cooperação entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Instituto Ludwig de Pesquisa. O objetivo do projeto, no qual estão sendo investidos US$ 10 milhões, é seqüenciar células dos tumores de maior incidência no Brasil: cabeça e pescoço, colo do útero e gástrico. É especializar-se e aproveitar a tão exaltada biodiversidade nacional para não perder o bonde nessa virada econômica. "Os países em desenvolvimento precisam encontrar nichos de atuação", acredita Elíbio Rech, coordenador de plantas transgênicas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). E não precisam somente determinar esse nicho "objetiva e pragmaticamente", mas também fazer isso com velocidade e não se esquecer de requerer patentes. "Trata-se de conhecimento, que hoje em dia é poder", diz ele. Só assim é possível que o País tenha participação nessa nova economia. As iniciativas brasileiras, mesmo que pontuais, são dignas de nota. Há pouco mais de um mês, 30 laboratórios de pesquisa, coordenados pela Fapesp, terminaram o seqüenciamento do genoma Xylella fastidiosa, bactéria que causa a praga do amarelinho, que afeta a citricultura. Com investimento de US$ 13 milhões, o projeto Xylella não só colocou o Brasil no cenário mundial como serviu de catapulta para a qualificação dos cientistas pátrios. Todos, ou pelo menos a grande maioria dos pesquisadores e técnicos que trabalharam no seqüenciamento têm instrumentos, agora, para embrenhar-se em novas empreitadas. "O projeto da Fapesp disseminou a tecnologia do seqüenciamento automático", diz Moreira. "O que foi conseguido até agora no Brasil foi extraordinário", diz João Carlos Setúbal, professor do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O próprio Laboratório de Bio-Informática, do qual é um dos coordenadores, aprendeu muito. Escolhido entre cerca de seis outros candidatos para processar as seqüências geradas pelos laboratórios, Setúbal e os outros sete companheiros de empreitada - outro coordenador, um professor bolsista da Fapesp, três alunos e dois programadores - acabaram ganhando competência na área. Além de processar as seqüências, no que é chamado de montagem, também faziam os serviços de anotação, ou seja, decodificar as informações, comparando-as com genes já existentes, a fim de determinar de que tipo se tratava. Ficou a cargo deles também tarefas como tornar as seqüências disponíveis, pela Internet, para todos os laboratórios e até fazer a "folha de pagamento", já que cada laboratório recebia pelo número de seqüências que enviava. É um1 conhecimento que pode valer ouro. Além dos projetos Genoma Humano do Câncer e Xylella, a Fapesp também está investindo no xanthomonas citri (com aplicação total de US$ 5,5 milhões), bactéria que causa o cancro cítrico e no de cana-de-açúcar (US$ 8 milhões). A Embrapa e a Copersucar pesquisam e trabalham, há anos, no melhoramento genético de plantas. OS PARADOXOS DO DNA Uma framboesa tem apenas 8% do material genético que você ou eu. É de se esperar: as framboesas não são muito inteligentes ou complexas. Mas uma cebola também não é muito complexa, e tem mais de 12 vezes mais DNA que um professor de Harvard. E, o que é pior, as amebas que povoam os tanques rasos ostentam um genoma 200 vezes maior que o de Albert Einstein ou Stephen Hawking. "Esse paradoxo perturba os cientistas desde a descoberta do DNA, cerca de 45 anos atrás", afirma o pesquisador Dmitri Petrov, em artigo de William J. Cromie publicado na Harvard University Gazette. Afinal, o DNA é o material constituinte dos genes, e os genes contêm fórmulas para a produção das proteínas que fazem com que os seres humanos, as amebas e as cebolas sejam o que são. Pareceria lógico que organismos mais complexos precisassem de mais DNA para sobreviver. Nem todo o DNA, no entanto, é útil; isto é, nem todo ele está envolvido na atividade genética. Os cientistas não sabem por que esse DNA existe, e se referem a ele como "sucata de DNA". Durante uma experiência realizada alguns anos atrás, Petrov e colegas detectaram que as drosófilas (moscas de frutas) descartam sucata de DNA a uma taxa surpreendentemente alta.