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Genoma humano: Na fronteira do conhecimento

Publicado em 04 julho 2001

Por Soraia Duarte e Isabel Darrigrandi - São Paulo e Santiago
Quem visitar o Hospital do Câncer, em São Paulo, vai se surpreender. Dos nove andares do cinqüentenário edifício no bairro da Liberdade, dois estão ocupados com geladeiras pelos corredores. No lugar dos quartos, o visitante encontrará laboratórios. Em vez de pacientes, pesquisadores. No terceiro e no quarto andares do hospital funciona o Instituto Ludwig, quartel-general do Projeto Genoma do Câncer (PGC), um esforço de centenas de cientistas brasileiros para descobrir os genes ativos nas células cancerígenas. É um trabalho destinado a salvar vidas. "Vamos poder desenvolver drogas para combater os tumores e até chegar ao ponto de descobrir se uma pessoa tem propensão para algum tipo de câncer", afirma o doutor Luís Fernando Reis, que comanda a parte da pesquisa chamada "biochip". Sua função é testar fragmentos do DNA humano, para descobrir quais genes estão ativos, ou inativos, nas células afetadas pelo câncer. O esforço dos pesquisadores brasileiros, que já obteve importantes resultados e tem chamado a atenção internacional, deu ao Brasil um lugar de destaque no mundo científico. Até agora, os cientistas brasileiros atingiram a meta de seqüenciar 1,2 milhão de DNA's — número inferior apenas ao de DNAs seqüenciados por cientistas norte-americanos. Fruto de uma associação entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Instituto Ludwig, instituição filantrópica com sede na Alemanha, o Projeto Genoma do Câncer foi iniciado em 1999. Seu objetivo é estudar os tipos de câncer mais comuns no Brasil, como os de colo do útero, gástricos, da cabeça, do pescoço e dos seios. Além do "biochip", que vai testar fragmentos do DNA humano, a segunda fase do PGC inclui estudos das proteínas fabricadas pelos genes, presentes nas células tumorais. Ao mesmo tempo, serão desenvolvidas novas formas de terapia e diagnóstico de câncer. Um grupo de médicos clínicos, cirurgiões, patologistas e epidemiologistas está se unindo para obter dados clínicos de pacientes, avaliar repostas aos tratamentos e recolher amostras para análise. Se tudo der certo e os cientistas descobrirem, por exemplo, uma forma melhor de diagnosticar o câncer e novas alternativas para o tratamento da doença, cria-se também uma grande oportunidade de negócio. Qual empresa do mundo não vai querer investir no País e começar a produzir medicamentos para essa doença que, só neste ano, deve matar cerca de 118 mil pessoas no Brasil? "A gente é dependente da indústria farmacêutica estrangeira", diz Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma do Câncer. "Isso exemplifica o tipo de transição que o Brasil tem de conseguir para realmente desenvolver-se, para realmente pertencer ao clube de países desenvolvidos, participar da produção de farmacêuticos, deixar de produzir apenas genéricos." O "biochip" vai se concentrar, inicialmente, em tumores da tireóide, de mama e de estômago. Em um dos estudos, o do tumor folicular — um tipo de câncer na tireóide —, o Brasil conta com a parceria do Hospital INEN, em Lima, no Peru. O hospital peruano mandará tecidos para serem estudados no Hospital do Câncer, em São Paulo, onde serão desenvolvidas as pesquisas. "AMARELINHO". Essa é a primeira das muitas parcerias biotecnológicas que o Brasil poderá formar, em breve, com os países da região. Em novembro do ano passado, em Cancún, reuniram-se pesquisadores latino-americanos e norte-americanos para estudar o que poderia ser feito, em conjunto, pelos países. "Existe vontade, o problema é o custo", diz Simpson. "Mas já estamos conversando com o Chile, por exemplo, para fazermos algo juntos em câncer de útero." Em 1999, a fundação Ludwig fez uma proposta à Fapesp. Cada uma das instituições entraria com US$ 5 milhões para financiar o Projeto Genoma do Câncer. A Fapesp, mantida pelo Estado de São Paulo, com um orçamento anual de cerca de US$ 240 milhões, aceitou. O Brasil não é um país com tradição científica ou tecnológica, mas o desafio foi encarado. "Não fomos convidados para a festa, apenas decidimos ir", compara Simpson. "Por que continuar importando tecnologia se podíamos desenvolver uma pesquisa dessa magnitude aqui no Brasil." O objetivo dos pesquisadores sempre foi trabalhar nos estudos do genoma humano Para chegar lá, porém, precisavam ganhar experiência em um projeto mais simples. Essa decisão acabou fazendo do Brasil o primeiro país do mundo a seqüenciar um patógeno vegetal, a Xilella Fastidiosa, microorganismo que ataca as plantações de laranja. Foi um projeto previsto para durar três anos e concluído em apenas dois. "Dos US$ 15 milhões previstos, foram gastos apenas US$ 11 milhões", conta Ricardo Brentani, presidente do Instituto Ludwig no Brasil. A escolha da Xilella Fastidiosa tinha uma razão especial. Trinta por cento das árvores de laranja de São Paulo estavam infectadas com a doença, conhecida como "amarelinho". A laranja, só em suco concentrado, representa negócios de US$ 4,5 bilhões por ano para o Brasil, dos quais US$ 1,5 bilhão são em exportações. "A idéia do genoma foi brilhante, porque permitia fazer ciência na fronteira do conhecimento, trabalhar com problemas que são específicos nossos, e essa é a beleza da biotecnologia", afirma José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp. Como o Brasil, outros países da América Latina também vêm desenvolvendo projetos, mas ainda direcionados a bactérias. O esforço brasileiro encontrou um forte aliado no doutor Robert Strausberg, diretor do departamento de genômica do câncer do National Cancer Institute, dos Estados Unidos. Strausberg conheceu o grupo de cientistas que estudou a Xilella, há três anos, e ficou impressionado. "Estavam apenas começando, mas o que haviam conseguido nesse curto período de tempo era louvável", diz ele. "Motivados pelo respeito mútuo, decidimos trabalhar juntos." A colaboração entre os Estados Unidos e o Brasil, selada após a primeira fase do PGC, tem como objetivo criar uma grande base de dados, para registrar e identificar todos os genes que se expressam no desenvolvimento do câncer. Essa enorme biblioteca de informação pretende englobar todo tipo de câncer. Isto se consegue extraindo e analisando o DNA de tumores de todo tipo. "A idéia é criar uma base de dados integrada, que centralize a informação, para servir como referência para todos os pesquisadores que desejarem usá-la", diz Strausberg. "O uso dessa informação é totalmente gratuita, porque nosso objetivo central é acelerar o desenvolvimento de tratamentos." De fato, novos tratamentos para o câncer estão começando a se materializar. Há uma droga contra o câncer que acaba de ser aprovada para o mercado dos Estados Unidos. Trata-se da Gleevec, desenvolvida pela Novartis a partir do enfoque genômico. DINHEIRO NOVO. Quatro anos atrás, quando foi iniciado o projeto Xilella, havia um grande obstáculo. Faltavam instalações e pessoal capacitado. A Austrália ia começar as pesquisas na mesma época, mas preferiu, primeiro, construir um Centro de Genômica. Foi um erro. "Hoje, sequer começaram e perderam a oportunidade de ingressar nesse nicho", diz Simpson. No Brasil, diferentemente do que aconteceu na Austrália, optou-se por fazer um uso criativo dos poucos recursos que o país possuía. Foram usados 34 laboratórios espalhados pelo Estado de São Paulo, envolvendo 300 pesquisadores. Essa rede virtual, possível graças à internet, ganhou o nome de Rede Onsa. "Se não fosse isso, não teríamos conseguido fazer nada", explica Simpson. "Não era a solução ótima, mas era a solução possível." Em quatro anos, o Brasil partiu da estaca zero e tem, hoje, 100 laboratórios capacitados em genômica e uma comunidade de 700 pesquisadores competentes para isso. O sucesso pode trazer dinheiro novo. "Estamos sendo abordados, com freqüência, por empresas de capital de risco", garante Perez, da Fapesp. Para que o dinheiro chegue, porém, é preciso vencer alguns empecilhos. O primeiro deles é a dificuldade para proteção da propriedade intelectual. Segundo a Revista Nature, o Brasil produz cerca de 1% da ciência publicada em revistas internacionais, a mesma proporção que a Coréia. Mas, enquanto os coreanos conseguem 1% dos registros no departamento de patentes dos Estados Unidos, os brasileiros conseguem, apenas, a quinta parte disso. "É preciso se convencer de que a patente é uma prioridade", afirma Ricardo Brentani, presidente do Instituto Ludwig no Brasil. "Se o investidor não tiver uma proteção, não vai correr o risco de fazer investimento." Brentani ressalta que o Brasil possui uma lei de proteção intelectual competente. Isso, porém, não é suficiente. Segundo ele, poucos advogados no Brasil sabem escrever uma patente biotecnológica, os próprios pesquisadores não têm uma noção de como se escreve uma patente, e nem as instituições têm uma política de proteção à propriedade intelectual. "Se o Brasil não tiver patentes para negociar, vai chegar nu à mesa de negociações", diz Brentani. Os investimentos requeridos para projetos genômicos sempre são muito altos, extremamente altos para o tamanho da maioria dos fundos locais. E o risco envolvido nesses projetos também é grande, em razão do longo tempo de amadurecimento. "Por isso, não buscamos fazer investimentos em pesquisa de ponta, procuramos oportunidades em áreas onde o conhecimento já está mais assimilado", afirma André Burger, diretor-executivo da CRT, empresa que administra quatro fundos de investimento para a região sul do Brasil, com US$ 25 milhões em caixa. Burger tem duas empresas de biotecnologia em seu portfólio. Some-se a isso a brecha que existe entre o mundo acadêmico e o setor privado. Isso não se refere apenas à falta de conhecimento, por parte dos investidores, do que estão fazendo os pesquisadores. Mas também se refere à escassez de especialistas que podem servir como ponte entre os dois mundos. "Os investidores não vão pôr dinheiro se não se sentirem à vontade", diz Marilia Rocca, diretora da Endeavor Brasil, organização sem fins lucrativos que apóia empreendedores em mercados emergentes. "E, se não há laboratórios e consultores que possam fazer o trabalho adequado para, por exemplo, verificar as afirmações científicas do empreendedor, vai ser difícil que invistam". Todos esses serviços indiretos — advogados especializados em patentes, laboratórios que prestem serviços de consultoria — são necessários para existir uma verdadeira indústria de biotecnologia no Brasil e na região. Outro desafio é contagiar os cientistas com o espírito empreendedor. Para gente capaz de façanhas como decifrar códigos genéticos, porém, esse não deve ser o maior problema. "É PRECISO TRANSFORMAR O CONHECIMENTO EM RIQUEZA" Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo O que a Embraer, a mais bem-sucedida das empresas brasileiras no exterior, e as pesquisas em biotecnologia desenvolvidas na Fapesp, um dos mais respeitados centros de pesquisa do país, têm em comum? Pouca coisa, a não ser o fato de a segunda começar a ser comparada com a primeira na qualidade dos serviços prestados à imagem do Brasil. Primeiro foi a Embraer que, com seus aviões, mostrou ao mundo que o País, sim, poderia ter tecnologia industrial de ponta. Agora é o Projeto Genoma do Câncer, desenvolvido pela Fapesp, que impressiona pela qualidade da pesquisa em biotecnologia no Brasil. "Demonstramos capacidade para produzir conhecimento nessa área, então desconhecida", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente da Fapesp. Brito Cruz é engenheiro, formado no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um dos berços da Embraer. Em vez de se dedicar à fabricação de aviões, porém, ele decidiu estudar Física e seguir a carreira acadêmica. Hoje, também dirige o Instituto de Física da Unicamp. Para ele, de pouco serve o conhecimento se não pode ser usado em benefício das pessoas. "É preciso que os países da América Latina sejam capazes de transformar em riqueza o conhecimento que possuem", diz Brito Cruz, que conversou em São Paulo com a correspondente Soraia Duarte. Qual o objetivo do projeto genoma do câncer? Produzir conhecimentos para a melhoria do tratamento e da prevenção do câncer em seres humanos. Descobrir a doença em seus estágios iniciais, antes de apresentar qualquer manifestação no indivíduo. Isso permitirá um tratamento com muito mais chances de ser bem-sucedido, além de permitir o desenvolvimento de novas drogas. Já é possível fazer uma estimativa de quando aparecerão os primeiros resultados? Não, isso não consigo estimar. Depende de aplicar. Como é isso? O projeto demonstrou que o Brasil tem capacidade para produzir conhecimentos nessa área, até então desconhecida. Quando se organizou uma série de cientistas brasileiros para fazer esse tipo de pesquisa, verificamos que eles produziram conhecimentos tão bons quanto aqueles feitos por cientistas na Inglaterra, na França ou na Alemanha. Essa capacidade de produzir ciência e tecnologia leva décadas. É preciso educar as pessoas e somar outros ingredientes — um ambiente econômico favorável e dar a um pesquisador desse projeto as mesmas condições que um pesquisador de Harvard tem para abrir uma empresa e desenvolvê-la. Falta espírito empreendedor para o cientista brasileiro? Acho que não. O ambiente é que é hostil demais. O Estado brasileiro precisa desenvolver um ambiente econômico favorável para os pesquisadores abrirem suas empresas. E qual é o papel do Estado? E o das universidades? O papel do Estado é fundamental. É ele quem cria as condições para a geração do conhecimento. As universidades também têm um papel fundamental. É lá que os conhecimentos básicos são produzidos. Mas há um papel importantíssimo a ser desempenhado pela empresa. E este, atualmente, talvez seja o maior desafio. No Brasil, como em quase todos os países da região, há um pensamento de que pesquisa deve acontecer na universidade, apoiada pelo governo. Isso não está certo. Em todos os países desenvolvidos, a maior parte dos pesquisadores trabalha para empresas, e não para universidades. Estamos preparados para essa mudança? Estamos preparados, por um lado, porque o investimento que o Estado fez tem dado resultados notáveis: o Brasil forma 5 mil doutores por ano, número semelhante ao da Inglaterra. Com a relativa estabilidade econômica, as empresas puderam se preocupar em gerar conhecimento. Quais as maiores barreiras para envolver o setor privado em pesquisas? A instabilidade da economia brasileira ainda afasta os investidores. Um outro mecanismo muito importante é o capital de risco. Este investimento é o que permite o crescimento de pequenas empresas de biotecnologia. No Brasil, a cultura de capital de risco é bem reduzida. Mas tem havido mudanças. Muitos investidores de capital de risco têm nos procurado, atraídos pelo sucesso do Projeto Genoma. As companhias pontocom atraíram grande capital de risco para a região. Isso se repetirá com o setor de biotecnologia? Tenho a impressão que sim, mas talvez em uma escala um pouco menor. Naturalmente, há um interesse de investidores desse tipo. Mas é preciso que os países da América Latina sejam capazes de demonstrar capacidade de transformar conhecimento em riqueza. Sempre importamos tecnologia. O que motivou a Fapesp a apostar na pesquisa genômica? Percebemos uma oportunidade. Décadas de investimento em formação de recursos humanos para ciência e tecnologia nos permitiram chegar ao ponto de produzir conhecimento competitivo internacional. O Brasil está deixando de ser um país que importa tecnologia, e começando a se firmar como um país que também pode exportar conhecimento. Quais as implicações legais e éticas do Projeto Genoma do Câncer? O genoma do câncer é visto com bons olhos. Todo mundo imagina que vai curar a doença ou minorar seus efeitos. Já no genoma humano há implicações que estão sendo debatidas. Em algum momento será possível modificar o código genético de um ser humano. É até difícil imaginar a dimensão disso. É possível desenvolver uma indústria genômica na América Latina? Acho que sim. O Brasil, por exemplo, tem capital humano. Mas o essencial, no Brasil e alguns países sul-americanos, é a biodiversidade. O mapeamento dessa biodiversidade ainda não foi feito. Na Fapesp estamos financiando o Biota, projeto de mapeamento de toda a biodiversidade do Estado de São Paulo. Imagine na Amazônia. E as possíveis aplicações para fazer fármacos, drogas etc. são enormes. Existe algum intercâmbio entre o Brasil e os países latino-americanos? Não é muito evidente. Os países latino-americanos, e incluo o Brasil, não desenvolvem um intercâmbio intenso de ciência. A maior parte dos intercâmbios científicos que o Brasil tem ou é com os Estados Unidos ou com os países europeus, embora exista algum intercâmbio com Argentina ou Chile. Que tipo de intercâmbio existe hoje? Visitas de pesquisadores, principalmente da Argentina e do Chile, e visitas de brasileiros a estes países. Falta comunicação entre os países da região? Há uma tendência natural do intercâmbio ser dirigido aos principais centros produtores de conhecimento. Por isso, o Brasil não olha para o México, e nem o México olha para o Brasil. Os dois estão olhando para os Estados Unidos e para a Europa. São players pequenos no ambiente mundial de ciência e tecnologia. À medida que forem intensificando sua participação, esse intercâmbio deve ir aumentando. Quais são as chances desses países ganharem mais peso? O Brasil desenvolveu uma capacidade excelente, é o segundo maior produtor de sequências sobre o genoma do câncer em seres humanos. Isso é importante para nós, foi uma realização notável, mas é um pedaço muito pequeno. Vamos ganhar peso quando 20% das exportações brasileiras forem frutos de biotecnologia. Outra medida é o percentual do PIB que o país investe em pesquisa. Países desenvolvidos, em geral, destinam 2%. Sendo que 1% vem da empresa e 1%, do Estado. No Brasil, esse investimento total ainda é de 0,7%, sendo que 0,5% é feito pelo Estado e 0,2%, pela empresa. É pouco. Em outros países da América Latina é menos ainda. Na Argentina e no Chile é 0,6%. Nos outros, abaixo de 0,4%. Mas o mais difícil é ter as pessoas. Formar as pessoas demora décadas. Os recursos podem ser conseguidos de um ano para outro. É preciso ter pessoas aptas a transformar esses recursos em riquezas. ILHA BIOTEC Cuba não tem celular ou carros modernos, mas a pesquisa científica é de luxo Isabel Darrigrandi - Santiago Caminhar por Havana pode fazer um estrangeiro voltar algumas décadas no tempo. Pelas ruas circulam carros norte-americanos dos anos 50, como o Ford Victory. Os prédios em frente ao Malecón, a grande avenida à beira-mar, são belezas de outra era, carcomidos pela maresia e desbotados pelo tempo. Chama a atenção que ninguém fale ao celular nas ruas. Usar um Palm Pilot, então, nem pensar. Mas não se engane com esses anacronismos. Quase tudo que se vê na Ilha é bem antigo, mas o espectrômetro de massa usado pelos cientistas cubanos é muito moderno. Este equipamento é como um Rolls Royce para um investigador especializado em proteômica — o estudo das proteínas —, uma das áreas da biotecnologia médica mais promissoras. Os espectrômetros custam milhares de dólares e são privilégio de poucos países da região. Em Cuba, porém, este investimento faz parte de uma aposta que parece ter acertado o alvo. "A biotecnologia e a indústria médico-farmacêutica são nossa prioridade desde os anos 80", diz o doutor Daniel Codorniu, vice-primeiro-ministro de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Cuba. "E posso dizer que os investimentos do país nesse campo foram pagos há tempo." Codorniu não revela valores, mas estima-se que Cuba fatura US$ 130 milhões por ano graças a suas exportações biotecnológicas. Um de seus produtos-estrela é a vacina contra a hepatite B, uma conquista da engenharia genética da Ilha. Cuba vende a vacina em uma joint-venture com a Panacea Biotec, da Índia. Outro grande acerto foi a criação da vacina contra a meningite B, que é exportada há 10 anos. Por ser a única vacina do mundo com eficiência comprovada, até o governo dos Estados Unidos excluiu-a do embargo contra Cuba. "Chegou-se a um acordo com a empresa GlaxoSmithKline para produzir a vacina em conjunto, vendê-la na Europa e, possivelmente, ao mercado norte-americano, autorizado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos", diz Codorniu. CURA DO CÂNCER. A maior de todas as descobertas, porém, pode estar muito próxima. Trata-se de um novo tratamento contra o câncer, baseado em um anticorpo que ataca a capacidade de crescimento de células malignas. A empresa canadense YM BioSciences, cujos executivos conheceram a ilha no final de 1993, está co-financiando as pesquisas com o governo cubano. "Está em fase de provas clínicas no Canadá e em Cuba", conta Cordorniu. As pesquisas sobre a cura do câncer seguem bem, embora faltem pelo menos dois anos para alcançar resultados comerciais. "São vacinas terapêuticas que podem ter incidência no câncer de cabeça, de pescoço e do pulmão", afirma Codorniu. A YM BioSciences é otimista. De fato, o diretor-geral da YM diz que o projeto com Cuba é a sua prioridade número um neste momento. E o que Cuba está fazendo com relação ao genoma humano? "A bioinformática, a genômica e a proteômica são as prioridades da nossa ciência nos próximos cinco anos", diz Codorniu. Mas ele reconhece algumas limitações. "O nosso forte não é o seqüenciamento; por isso, vamos aproveitar ao máximo as novas informações dos países mais desenvolvidos sobre genoma", diz Codorniu, sem mencionar projetos específicos. Se consideramos o que Cuba tem feito em biotecnologia médica com pouquíssimos recursos, será interessante ver o desenvolvimento de seus projetos. Sem dúvida, o espectrômetro de massas será bem usado. NEGÓCIOS DO CORAÇÃO Diego Fonseca - Buenos Aires A BioSidus desenvolve processo para substituição natural de vasos sangüíneos e se transforma na "mosca branca" da biotecnologia argentina René Favaloro, um conhecido médico argentino, já havia decidido, com muita tristeza, entregar aos italianos um projeto sobre terapia genética desenhado para criar um sistema de irrigação cardíaca. A Argentina, segundo Favaloro, não tinha o nível de pesquisa necessário para levá-lo adiante. Em 1999, no entanto, Favaloro aceitou um convite para conhecer as instalações do laboratório BioSidus, no bairro de Almagro, em Buenos Aires, e saiu dali decidido a esquecer os europeus. Surpreso com a qualidade do BioSidus, Favaloro lhe entregou o projeto . "Quando as pessoas vêm de visita imaginam que encontrarão uma fábrica de xarope e pastilhas", diz Oscar Melo, de 46 anos, gerente de desenvolvimento do BioSidus. "Mas o que encontram aqui é uma companhia de alta tecnologia, que impressiona." Neste ano, como parte do projeto com a Fundação de Favoloro, que morreu recentemente, o BioSidus patenteou o sistema de transporte de um gene para induzir a formação de vasos sangüíneos. Esse processo é conhecido como angiogênese. Basicamente, trata-se de levar um gene até uma célula selecionada para que ative uma proteína que leva à formação de vasos sangüíneos. Assim, desenvolve-se uma espécie de atalho natural, um sistema paralelo que permite a doentes cardíacos e diabéticos substituir os vasos obstruídos. Esse tipo de terapia genética permitirá reduzir os problemas coronários existentes e atuar em pequeníssimas áreas nas quais a microcirurgia poderia ajudar. Para que a angiogênese ocorra, é preciso que o gene chegue ao destino exato. Não pode ser injetado em qualquer parte do corpo, pois se dissolve. A novidade lançada pelo BioSidus é, precisamente, o sistema de transporte que torna possível a entrega em domicílio do gene. Os vírus constituem o transporte genético mais tradicional, mas o BioSidus optou por usar plásmidos, microcromossomas que atuam como programadores inteligentes — "ensinam" as bactérias a adaptar-se e a resistir aos antibióticos —, que os argentinos consideram mais seguros que os vírus. O que fez o BioSidus foi programar um plásmido para que faça o mesmo que o vírus: chegar a uma célula específica transportando o gene estimulador de vasos sangüíneos. E outorgou mais segurança a seu comportamento, desativando a capacidade do plásmido para deixar essa célula e saltar a outras. Essa logística era desconhecida e, por essa razão, o BioSidus quer patenteá-la, medida chave para assegurar o negócio futuro na área farmacêutica. Vendeu a licença para uso terapêutico na Argentina e agora procura apresentá-la na Europa e nos Estados Unidos. "Sempre pode haver outro que, até por casualidade, chegue ao mesmo resultado que nós", diz Melo. O BioSidus fez testes de segurança do produto em animais, com resultados muito bons. "Geramos revascularização e melhor irrigação sangüínea", diz Melo. No entanto, ainda falta testá-lo com humanos, o que o BioSidus pretende iniciar neste ano. "Seria a primeira vez na América Latina que se faz uma prova de terapia genética em humanos", diz Melo. Se os estudos derem resultado, o produto poderá sair ao mercado em 2005. Esse produto se transformaria na estrela do BioSidus, empresa que faturou US$ 42 milhões no ano passado com a venda de interferon, um antiviral para hepatites e câncer; um hormônio para o crescimento; um produto de glóbulos brancos, e eritropoyetina, que forma glóbulos vermelhos para combater a anemia e as doenças renais. Segundo estimativas da empresa, seu delivery genético pode duplicar seu faturamento em três anos. " O BioSidus é a mosca branca da Argentina, uma mutação do mercado", diz Alberto Diaz, diretor da cadeira de Biotecnologia da Universidade de Quilmes, em Buenos Aires, e ex-pesquisador da companhia em seus primeiros anos. "Conseguiu associações estratégicas com empresas estrangeiras pequenas e aproveitou bem seu capital de risco desde o início." Poderá a empresa sobreviver em um mercado de gigantes? "Estamos sob risco de ser adquiridos, como todos", diz Melo. Em terapia genética, os argentinos estão na metade do caminho, atrás de poucos laboratórios norte-americanos e com vontade de crescer. A família Argüelles, dona do BioSidus, não quer vender sua esmeralda biotecnológica, ainda que em todo o mundo os laboratórios de base sejam absorvidos pelas empresas farmacêuticas globais. O BioSidus é uma fruta apetitosa, por suas pesquisas. Tem um valor de mercado de US$ 900 milhões, segundo estimativas extra-oficiais. E pode valer mais se pelo menos um dos quatro novos projetos confidenciais em que trabalha resulta bem-sucedido, entre eles a vacina de uma doença que faz estragos na região. A EMPRESA DE US$ 10 BILHÕES No início dos anos 80, quando a indústria de biotecnologia estava engatinhando nos EUA, o bioquímico chileno Pablo Valenzuela viajou a San Francisco para fazer um pós-doutorado na Universidade da Califórnia. Lá, conheceu a outros dois professores e, juntos, seguiram com suas pesquisas sobre o vírus da hepatite B. Estavam conseguindo grandes avanços, mas queriam acelerar o processo ainda mais. Desenvolveram um primitivo plano de negócios e saíram à procura de capital de risco. Em poucos meses, reuniram US$ 1 milhão. O objetivo era produzir ferramentas de diagnósticos, vacinas e drogas para detectar, prevenir e tratar enfermidades. Assim nasceu a Chiron, há vinte anos. Desde então, a empresa se converteu em uma das companhias mais importantes da indústria biotecnológica dos EUA. O plano de negócios quase não mudou em duas décadas: produzir ferramentas de diagnósticos, vacinas e drogas para detectar, prevenir e tratar doenças. Com uma valorização de mercado de aproximadamente US$ 10 bilhões, e vendas de US$ 887 milhões no ano passado, a Chiron tem uma longa lista de acertos, tanto científicos quanto comerciais. O primeiro foi sua vacina contra o vírus da hepatite B. "Foi a primeira vacina do mundo desenvolvida com engenharia genética", afirma Valenzuela, que, além de co-fundador, foi diretor de pesquisas da empresa. Outras contribuições da Chiron incluem a decodificação da seqüência de ADN do vírus HIV. E foram cientistas desta empresa os que identificaram pela primeira vez o vírus da hepatite C, para depois também desenvolver uma vacina para sua prevenção. Em 1995, Chiron vendeu quase 50% de suas ações ao laboratório Novartis (então, Ciba Geigy AG). Enquanto isso, Valenzuela voltou ao Chile para assentar as bases de uma pequena indústria biotecnológica nacional. Em 1986, ele e outros três sócios criaram a BiosChile Ingeniería Genética, companhia que hoje fatura cerca de US$ 3 milhões por ano, principalmente com a venda de kits de diagnóstico e de análises clínicas. "Nosso teste de Chagas, por exemplo, é vendido em mais de dez países", diz Valenzuela. A experiência de Valenzuela inspirou outros cientistas chilenos e provarem suas virtudes como emprendedores. É o caso de Alfredo De Ionannes, co-fundador da Biosonda, companhia que produz e exporta uma proteína muito especial, usada em investigações de biotecnologia. Trata-se de um produto de alto valor agregado e de alta margem, que se vende por centenas de dólares a grama. "Nossa demanda aumentou em 30% no último ano", diz De Ionannes. Isso, imagina ele, deve-se ao novo impulso dessa indústria nos EUA, em parte pela agitação causada pela publicação do genoma humano. GENES QUE FAZEM A DIFERENÇA Isabel Darrigrandi - Santiago Pesquisas desenvolvidas no México e no Chile mostram que avanços científicos dos estados unidos nem sempre servem para a América Latina. Quando a doutora Teresa Tusié começou suas atuais pesquisas no campo da genética molecular, uma pergunta a perturbava. Por que a diabete tipo II ataca tanto o México? Essa doença — que, pode resultar em cegueira, amputações, coma ou morte, afeta 4,5% da população mundial. No México, a incidência quase dobra, chega a 8,9%. De fato, a diabetes tipo II é a terceira causa de morte no México, desde 1997. Fatores externos, como má alimentação e falta de exercícios físicos, contribuem fortemente para o aumento dessas estatísticas. Mas a predisposição também poderia contribuir para o desenvolvimento da doença. Por isso, a doutora Teresa decidiu investigar quais características genéticas dos mexicanos estão envolvidas nessa doença, com a esperança de que a informação seja um primeiro passo em direção a novos diagnósticos e tratamento. "Somos os únicos no país que tentamos identificar, por meio de estudos de mapeamento, os genes que participam no desenvolvimento nestas duas doenças na população mexicana", conta a doutora Teresa, que trabalha na Universidade Autônoma do México (Unam). A outra doença é a arteriosclerose. "As doenças cardíacas, 45% dos casos causadas pelo fenômeno da arteriosclerose, são a primeira causa de morte no país", diz ela. Este tipo de pesquisa pertence a um ramo da ciência chamado genética molecular. Cuidado! Genética não é sinônimo de genoma. A genômica refere-se ao estudo dos genes, mas do ponto de vista do que todos temos em comum como espécie. Se você compara o DNA de duas pessoas, temos quase tudo igual. Isso é o genoma humano. O porcentual mínimo diferente corresponde ao terreno da genética molecular, dedicada ao estudo dessas pequenas diferenças que, por herança, passam de uma geração a outra. Essas diferenças genéticas determinam centenas de traços visíveis, como a cor do cabelo. Também podem determinar a maior ou menor predisposição, de diferentes grupos étnicos, a certas doenças hereditárias. Essas diferenças genéticas podem significar que, tanto os caucásicos como os ameríndios, por exemplo, desenvolvem um tipo de câncer hereditário e que essa doença tem diferentes origens genéticas em cada um desses grupos étnicos. O impacto dos estudos da genética molecular é potencialmente enorme, em termos de saúde pública. Caso seja detectada a origem genética de uma doença, este pode ser o primeiro passo para o desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico e de tratamento. Mas essas ferramentas podem não ser eficazes para tratar a mesma doença em outros grupos da população, porque a origem dessa doença, nesse grupo, pode envolver outros genes ou mutações. "Por isso é tão importante conduzir tais estudos em cada país, em cada população", diz Pilar Carvallo, pesquisadora do Laboratório de Genética Molecular Humana da Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago. A genética molecular, como área de investigação, é relativamente nova na América Latina. "Tem quase 10 anos na região, mas, no princípio, foi feito muito pouco", diz Pilar. A maioria dos trabalhos na América Latina começou nos últimos dois anos." Pilar está dirigindo uma pesquisa, que começou há três anos, para detectar quais genes e quais mutações participam no desenvolvimento do câncer de mama hereditário nas mulheres chilenas. Seu primeiro passo foi provar se os genes BRCA I e BRCA II estavam presentes. De acordo com as pesquisas, nos Estados Unidos esses genes são responsáveis por 80% do câncer de mama hereditário. Os resultados iniciais de Pilar indicam que essa doença, provavelmente, tem uma origem genética diferente nas mulheres chilenas. A pesquisa da doutora Teresa, no México, começou há sete anos. O primeiro desafio foi encontrar famílias numerosas, entre 40 e 70 membros, dispostas a colaborar com o estudo. Uma vez identificadas, tinha de entrevistar os indivíduos e colher amostras, para retratar cada um clínica e bioquimicamente. JUNTANDO AS EVIDÊNCIAS. Com esses dados em mãos, a equipe de Teresa estava pronta para o próximo passo. Na pesquisa, relevante para a diabetes tipo II, a cientista sabia que, em Chicago, o pesquisador Graham Bell havia descoberto um gene relacionado com essa doença. Mas esse estudo havia sido feito em uma população de maioria caucásica. Estaria este gene envolvido também na diabetes tipo II que afeta os mexicanos? A resposta foi um redondo não. "Em um grupo inicial de 90 pacientes, somente 10% tinham genes identificados com essa doença em outros grupos populacionais", conta a doutora Teresa. Trabalhos posteriores confirmaram essa heterogeneidade genética. "Nosso objetivo é conhecer quais genes, e em que combinações, atuam na evolução dessas doenças em nossa população", diz a doutora Teresa. "Com isso, a idéia é desenvolver, em médio prazo, estratégias de diagnósticos moleculares que nos permitam identificar os indivíduos em um período pré-sintomático, antes que desenvolvam a doença." A doutora Teresa ainda não identificou o gene, ou os genes, que causam a arteriosclerose ou a diabetes tipo II na população mexicana. Mas conseguiu um avanço importante ao identificar as regiões cromossômicas onde residem esses genes. É como se reduzisse a zona de busca de todo um país a uma cidade. "Acreditamos que a heterogeneidade que se tem visto nessas doenças não é exclusiva; pode acontecer também em outras doenças freqüentes", diz a doutora Teresa. "E isso significa que vai depender de nós desenvolver metodologias de diagnóstico, prognóstico e tratamento mais efetivos, porque os avanços em outros países, em muitos dos casos, não vão resolver o nosso problema", diz a doutora Teresa. Ainda falta um longo e complexo caminho, para que trabalhos como o de Teresa, no México, e o de Pilar, no Chile, dêem frutos e possam ser aplicados nos hospitais e clínicas da região. Mas, com a publicação do genoma humano, este caminho acaba de ficar um pouco mais simples. Isso se deve ao fato de o mapa do genoma humano ser como um enorme livro de referência, ao qual os cientistas podem recorrer. "Uma vez que eu tenha localizado o gene, posso perguntar sobre quem tem informação sobre essa região cromossômica. O projeto genoma humano está ajudando a ir muito mais rápido", diz Pilar. Isso é bom, já que o tipo de pesquisa que estão desenvolvendo Pilar, Teresa e dezenas de outros cientistas na América Latina pode, algum dia, salvar muitas vidas. PEQUEÑO E O BICHO Cientistas da região concentram suas pesquisas em microrganismos, mas os resultados são gigantescos Diego Fonseca - Buenos Aires Quando concluir o trabalho de decodificação do gene do trypanosoma cruzi (TC), em 2005, o cientista argentino Mariano Levin sentirá na vitória um leve sabor amargo. Desde 1993, Levin e o grupo de cientistas que ele dirige no Instituto de Pesquisas em Engenharia Genética e Biologia Molecular (Ingebi), na Argentina, trabalham no mapeamento do TC, agente causador do mal de chagas, doença que afeta milhões de pessoas na América do Sul. O problema é que a pesquisa, que nasceu na Argentina, será concluída muito longe de Buenos Aires, nos laboratórios dos pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH). Isso porque a Argentina não tem mais dinheiro para financiar a pesquisa. O NIH colocará US$ 1 milhão por ano para concluir o trabalho. Levin tem apenas 10% desse dinheiro, com o qual deve manter 15 cientistas de primeiro nível e pagar outros estudos, além das pesquisas sobre o TC. Enquanto o projeto internacional do genoma humano se desenvolve, principalmente nos EUA e na Europa, a América Latina concentra seus esforços e escassos orçamentos de pesquisa para seqüenciar os genomas de seres mais primitivos: micróbios e cultivos. Não são iniciativas menores. Os genomas foram escolhidos, justamente, pelo potencial impacto que seus estudos podem ter para a saúde ou a economia de alguns países da região. No entanto, como mostra o caso do TC na Argentina, às vezes, nem sequer há recursos para projetos dessa envergadura. O projeto TC da Argentina fez parte da primeira experiência latino-americana no estudo de genomas. Tudo começou com um projeto da Organização Mundial de Saúde (OMS) para aportar US$ 1 milhão para o estudo de doenças tropicais em países em desenvolvimento. Esse projeto, denominado TDR, em inglês, teve como meta analisar os genomas de cinco micróbios. Cientistas da América do Sul participaram de três das cinco pesquisas. Um dos parasitas pesquisados era o TC, do mal de chagas. Na Argentina, a decodificação do TC sempre sofreu do mal da indecisão política. Os três projetos de seqüenciamento iniciados no país nunca foram concluídos, porque continham informações fragmentadas. Houve apenas um pequeno intercâmbio com alguns grupos de estudos no Brasil. "Essa falta de coordenação se repete em todos os campos de estudo do parasita", diz Levin. "O poder político não escutou os cientistas, nem sabe como fazer política científica; improvisa constantemente." E por que não se buscou apoio do setor privado? "A doença de chagas não é a Aids", diz Levin. "É uma doença restrita a setores pobres e não é um alvo para as grandes empresas de medicamentos." Para Pablo Rabinowicz, pesquisador argentino que trabalha no Cold Spring Harbor Laboratory, em Nova York, e desenvolve pesquisas em várias áreas da saúde, o que ocorreu com a pesquisa do genoma do TC na Argentina não é um fato isolado. "A tendência dos governos nestes países é não financiar pesquisas, a menos que se possa prometer um produto aplicável em curto prazo", diz Rabinowicz. No campo da genômica, conseguir financiamento é ainda mais difícil, por causa da tecnologia requerida e dos altos custos envolvidos. É complicado convencer os organismos responsáveis a dedicar uma porção substancial de seus orçamentos a um só projeto. "Ainda mais quando só se pode prometer matéria-prima para futuras pesquisas." Rabinowicz ressalta o Brasil como um exemplo de tudo o que se pode conseguir, se os elementos corretos se conjugam. Para ultrapassar a barreira do financiamento, os cientistas brasileiros da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) escolheram como objeto de estudo um dos principais inimigos de uma importante fonte de receitas de sua região: a Xilella fastidiosa, microorganismo que ataca os cítricos e provoca perdas multimilionárias. A Fapesp reservou US$ 11 milhões para o seqüenciamento do genoma desse microorganismo e o setor privado, por meio de uma associação de agricultores, também aportou fundos, apesar de a pesquisa não prometer resultados práticos em curto o prazo. O projeto da Xilella tem obtido todo tipo de frutos indiretos. Em 1998, para dar início ao projeto, 35 laboratórios na região de São Paulo foram equipados com tecnologia de ponta. Juntos, formam a Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos (Onsa), uma rede virtual de laboratórios. Por meio da internet, os laboratórios interagem e trocam informações. Cada laboratório de bioinformática concentra as informações em uma pesquisa. Os novos equipamentos e a nova estrutura de trabalho estão sendo aproveitados ao máximo. Além de três novos projetos genômicos, também centrados em parasitas, a Onsa, que hoje já reúne 64 laboratórios em São Paulo, está atacando genomas mais complexos, como o projeto de analisar o genoma da cana-de-açúcar. A experiência da Xilella, além disso, inspirou a Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, a tornar-se membro do projeto internacional do seqüenciamento do genoma do arroz. A estes, soma-se o Genoma Vírus, projeto que irá seqüenciar o HIV — 1, vírus da Aids mais comum no Brasil; o HCV, que causa a hepatite C, entre outros. Tudo isso sem falar do maior projeto de todos: o trabalho que a Onsa e o Instituto Ludwig estão realizando sobre câncer. O modelo desenvolvido pela Fapesp também está servindo de inspiração para o Governo Federal. Com um investimento de US$ 12 milhões, serão seqüenciados, em outras regiões do Brasil, microrganismos como o da doença de chagas e a Leishmaniose, além de fungos e bactérias que comprometem a qualidade de produtos agrícolas, entre eles o cacau. Apesar de estarem orgulhosos de seus avanços, os cientistas brasileiros não estão complacentes. "Em comparação com a União Européia, estamos atrasados dez anos", diz Eiko Eurya Kuramae, pesquisadora do Departamento de Produção Vegetal da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade do Estado de São Paulo, que trabalha em genômica agrícola. O México também decidiu iniciar as pesquisas com genomas de bactérias e logo avançar ao genoma de um cultivo, o do milho. Junto com a decodificação do gene do feijão, são os dois projetos mais importantes de genoma do país. A pesquisa do feijão está sendo liderada pela doutora Alejandra Covarrubias, do Instituto de Biotecnologia da Universidade Nacional Autônoma do México. No Chile, estão sendo dados os primeiros passos para iniciar o primeiro projeto genoma do país, orientado ao cobre, a maior fonte de receita de exportações do país. O objetivo é seqüenciar o genoma de uma bactéria usada pelas minas na extração de cobre. Esse projeto surgiu depois que o presidente do Chile, Ricardo Lagos, visitou o Brasil, em setembro do ano passado. Ficou impressionado ao ver que se podia fazer ciência genômica na América Latina. "Quero que algo assim seja feito no Chile", disse Lagos. Mas o que poderiam fazer? Foi escolhido um genoma pequeno, o de uma bactéria relacionada a uma importante fonte de receitas para o país, o cobre. Em outras palavras, escolheu-se o modelo do Brasil. Com Isabel Darrigrandi, em Santiago e Soraia Duarte, em São Paulo