Notícia

O Tempo

Genoma humano abre nova fronteira

Publicado em 25 junho 2000

Por CARLA CHEIN - REPÓRTER
Quando o genoma humano - conjunto de iodos os genes que constituem o ser humano que o responsável pelas características individuais - for decifrado, os cientistas terão em mãos um material que poderá ajudar a curar cerca de 4.000 doenças genéticas, entre cânceres e doenças degenerativas, que afetam o homem e hoje podem matá-lo. Ninguém sabe ao certo que conseqüências práticas esse conhecimento resultará a longo prazo, mas espera-se que, uma vez decifrado, o genoma ajude a melhorar rapidamente os resultados da terapia genética - que visa tratar, curar ou (quem sabe?) prevenir doenças, aplicando genes saudáveis em pacientes de forma a substituir aqueles defeituosos. Ou. no mínimo, que sejam produzidas drogas sob medida para determinados indivíduos ou grupos de indivíduos, reduzindo os efeitos colaterais e aumentando a eficácia desses medicamentos. No entanto, existem temores de que a decifração do genoma também leve à engenharia de bebês, clonagem de seres humanos e à discriminação genética por empresas de planos de saúde, por exemplo. Esses riscos, na opinião de pesquisadores, são reais, mas não podem ser vistos como obstáculos para a ciência. Para explicar a importância dessas pesquisas, o professor de genética e melhoramento da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Aluízio Borém, citou como exemplo a penicilina. Quando foi descoberta, disse, não se sabia que havia pessoas alérgicas a ela. Nem por isso a substância deixou de trazer um imenso benefício. Mas, segundo ele, é preciso avaliar os riscos que as pesquisas podem trazer e ficar atento para isso. "É importante colocar essa discussão em debate com a sociedade", disse o coordenador de bibliotecas de DNA do projeto Genoma do Câncer Humano, o biólogo com pós-doutorado em genética humana Emmanuel Dias Neto, do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer. DIAGNÓTICO Segundo a coordenadora do laboratório de molécula genômica do Gen - Núcleo de Genética, em Belo Horizonte?-a bióloga Rosane Spurzeneker, o Projeto Genoma Humano destina 5% dos recursos obtidos para as pesquisas para discutir as questões éticas e sociais advindas. Ela disse que existe, inclusive, um comitê especial criado para essa discussão. Rosane Spurzeneker disse que a genética já vem possibilitando avanços na área do diagnóstico precoce de doenças, o que permite intervir mais cedo no processo de algumas enfermidades e prevenir o seu progresso. Por sua vez. Dias Neto comparou a importância de se decifrar o genoma com um exame genético de diagnóstico do câncer de mama que vem sendo usado no instituto Ludwig - o biochip, uma espécie de biópsia que permite a análise molecular de genes e a avaliação da gravidade do tumor. "Se descobrirmos o câncer no estágio inicial, podemos usar tratamentos mais agressivos no início evitando a progressão da doença", disse o biólogo. Segundo ele, o diagnóstico não fica no prontuário da paciente para que planos de saúde não tenham acesso a ele. CONJUNTO DE GENES É QUE VAI DEFINIR COMO O SER VIVO SERÁ Todo organismo vivo possui um conjunto de genes formados pelo seqüenciamento de quatro bases químicas (adenina, timina, guanina e citosina, abreviadas respectivamente pelas letras A. T, G e C) são repetidas. Essa seqüência é que define a formação de uma formiga, uma tulipa ou um ser humano. Nos seres humanos, a seqüência do genoma chega a ter 3 bilhões de leiras e forma o DNA que compõe cada um dos 46 cromossomos em cada uma das 100 trilhões de células do corpo. Os pesquisadores estimam que, dessas 3 bilhões de letras (nucleotídeos, as unidades que formam o DNA), apenas cerca de 3% - de 50 mil a 140 mil - vão se transformar em genes e transportar alguma informação. Segundo o professor de genética da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, médico geneticista Salmo Raskin, cada gene produz de uma a dez proteínas. Atualmente, apenas cerca de 10 mil genes humanos são conhecidos. Isso significa que a vasta maioria do genoma humano (em torno de 97%) e refugo, ou seja, é composto por instruções obsoletas para partes do corpo, tais como barbatanas, que o homem não mais possui. No entanto, espalhados na seqüência do DNA, estão os genes - milhares de combinações ativas de letras. Quando a seqüência de genes humanos for estabelecida e. em seguida, os genes forem decifrados e entendidos, será como imprimir um manual de instruções para seres humanos, uma autobiografia do Homo sapiens que também explicará como funcionamos e como evoluímos. (CCh/GN) RASCUNHO AGUARDADO É SÓ O COMEÇO Os rivais Celera Genomics (empresa privada norte-americana dirigida pelo biólogo Craig Venier) e o Projeto Genoma Humano (projeto público coordenado pelos Estados Unidos e que reúne pesquisares de vários países) prometem divulgar o primeiro rascunho do genoma humano, no máximo, até o fim deste ano. O anúncio era esperado por cientistas do mundo inteiro nas duas últimas semanas, mas foi adiado sem que fosse estabelecido um novo prazo para a revelação. Pesquisadores de todo o mundo, envolvidos ou não nas pesquisas para decifrar o genoma humano, comparam a finalização do esboço à chegada do homem à Lua. Mas eles reconhecem que esse não é o fim, e, sim, o começo de uma história que ninguém ainda é capaz de imaginar. "O genoma sempre foi um sonho tão distante", chegou a afirmar Venter em palestras feitas em simpósios internacionais, "que ficamos ansiosos pelo fim, mas estamos apenas no começo". "O rascunho será um passo gigantesco na medicina", declarou o professor de genética da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, médico geneticista Salmo Raskin. Segundo ele, a história da genética será dividida em dois períodos: antes da decifração do genoma e depois. Mas a cura das doenças, alertou, não virá na manhã seguinte. "Poderá demorar dez, 20, 50, cem anos", disse o geneticista. O esboço não significará que o genoma humano foi decifrado, mas apenas conhecido. A tarefa não será fácil. Os pesquisadores têm de descobrir quais são os 3% das 3 bilhões de letras que lhes interessam. Contudo, esses 3% do genoma estão misturados a seqüências de outras milhões do letras que não carregam informações genéticas mas têm repercussão nas doenças e que. por isso mesmo, interessam aos cientistas. Além disso, segundo Raskin, como cada gene produz de uma a dez proteínas, o trabalho fica ainda mais difícil. SIGNIFICAIS O coordenador de bibliotecas de DNA do projeto Genoma do Câncer Humano, o biólogo com pós-doutorado em genética humana Emmanuel Dias Neto, comparou o rascunho do genoma humano a um livro com 3 bilhões do letras cujos significados ainda são desconhecidos para o homem. "Fiz um cálculo de brincadeira e cheguei à conclusão de que, se gastarmos um segundo para ler cada um dos genes durante 24 horas por dia. 30 dias por mês, levaríamos mais de cem anos para conhecê-los", disse Dias Neto. A pesquisa Genoma do Câncer Humano vem sendo desenvolvida pelo Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), agência estatal de fomento à pesquisa. (CCh) DISPUTA ENTRE OS GRUPOS JCOMEÇOU EM 98 GRAPHIC NEWS LONDRES Craig Venter, dirigente da empresa privada norte-americana Celera Genomics, começou a perseguição ao genoma humano em 1998. Nessa época, o Projeto Genoma Humano, coordenado pelos Estados Unidos e formado por pesquisadores de vários países do mundo, já existia há oito anos e tinha 2005 como a data final para analisar toda a estrutura do UNA (molécula que contém a informação genética). Venter, um biólogo ousado, senão brilhante, anunciou que decifraria o genoma humano até 2001. A corrida havia começado. Ou melhor, duas corridas começavam nesse momento. No ano passado, o Projeto Genoma Humano antecipou seu prazo para 2003, mas pesquisadores dos dois projetos começaram uma disputa para ver qual deles seria o primeiro a publicar o "rascunho" do genoma humano. A competição para produzir esse "plano mestre" não é apenas uma corrida para a glória - embora possa haver muitos prêmios Nobel no caminho. E também uma competição de ideologias. É que Venter defende a capitalização dos genes, no que é questionado pelos adversários. Venter, antigamente um vagabundo de praia cuja carreira científica começou no corpo médico do Exército durante a guerra do Vietnã, tem verdadeiro desprezo pelo establishment científico, acusando o Projeto Genoma Humano de desperdiçar tempo e dinheiro. O dirigente da Celera Genomics quer lucrar com a pesquisa da Celera Genomics, criando o banco de dados definitivo do genoma e cobrando pelo acesso a ele. Ele também disse que planeja patentear genes, apesar de ter anunciado posteriormente que eslava apenas querendo criar polêmica sobre o assunto. INTERNET A idéia de patentear genes é, abominada pelos cientistas do Projeto do Genoma Humano, que trabalham em mais do 20 países e publicam seus dados toda noite na Internet, deixando as informações disponíveis para os pesquisadores de qualquer parte do mundo. Os integrantes do projeto público são definitivamente contra o capitalismo tomar o controle do genoma humano decodificado - uma descoberta que, segundo reconhecem até mesmo os observadores mais fleumáticos, vai revolucionar a medicina no século 21. Também questionam a qualidade do "rascunho" da Celera Genomics. Segundo eles, métodos rápidos - como o usado pela empresa privada -podem produzir resultados de má qualidade. Venter retruca dizendo que os adversários, na verdade, estão com ciúmes. Em breve, talvez exista um teste genético para dizer se ele está certo. Traduzido por Simone Mordente de Souza BRASIL NÃO INTEGRA O PROJETO INTERNACIONAL A corrida pela decifração do genoma humano traz uma pergunta: o Brasil participa ou não do Projeto Genoma Humano? Há pelo menos dez pesquisas genéticas desenvolvidas no país que contribuem para o projeto internacional. No entanto, segundo a secretária executiva da Sociedade Brasileira de Bioética, a médica clínica geral Maria de Fátima Oliveira Ferreira, o Brasil não faz parte do programa. "Quando projeto Genoma Humano foi fundado, apenas os países do G-7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo) foram convidados a participar das pesquisas", disse. A coordenadora do laboratório de molécula genômica do Gene - Núcleo de Genética, em Belo Horizonte, a bióloga Rosane Spurzeneker, disse que as descobertas dos pesquisadores brasileiros contribuem para o projeto internacional, mas têm pouca expressão. "As pesquisas brasileiras não têm verba, força. Tanto que se optou, no Brasil, por seqüenciar os genomas de parasitas endêmicos - porque os países desenvolvidos têm a tecnologia, mas, não, o parasita", disse a bióloga. Como exemplos, ela citou o Schistosoma mansoni, a leishmânia e a bactéria Xvllela, responsável pela praga do amarelinho, que afeta os laranjais brasileiros. A mais expressiva das pesquisas brasileiras é o projeto Genoma do Câncer Humano, desenvolvido no Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que seqüenciou o cromossomo 22 em dezembro passado. O projeto, segundo o coordenador de bibliotecas de DNA do projeto, o biólogo Emmanuel Dias Neto, já gerou 420 mil seqüências (pedacinhos de genes humanos) sobre os cânceres mais comuns no Brasil - o objetivo é seqüenciar 500 mil. (CCh) CÓDIGO DA VIDA Conheça a descrição da ciência sobre as características constitutivas do genoma humano A DESCRIÇÃO DO GENOMA HUMANO - listagem dos cerca de 3 bilhões de pares de bases químicas que formam as "letras" da mensagem genética - está quase concluída. Agora os geneticistas enfrentam a maratona de interpretar 1 bilhão de "palavras" de três letras e identificar os 50 mil a 140 mil genes que descreveram. CÉLULAS A maioria das 100 trilhões de células do corpo contém um núcleo com 46 cromossomos - 23 de cada um dos pais CROMOSSOMOS Cada cromossomo é constituído por uma cadeia longa e espiralada da molécula de DNA - a famosa "hélice dupla" Cada cadeia de 1,8 m de comprimento de DNA humano contém mais de 3 bilhões de substâncias químicas chamadas pares básicos, que são as letras de digitais no código genético da vida PARES BÁSICOS O código é constituído por quatro substâncias químicas - adenina (A), timina (T), citosina (C) e guanina (G). Enquanto A sempre faz par com T, C sempre forma par com C. GENES Apenas cerca de 3% dos 3 bilhões de pares básicos são genes - instruções codificadas ativas para produzir as proteínas necessárias à tecidos, ossos, musculatura e todas as outras células humanas REFUGO Acredita-se que o restante do Genoma (97%) é um código criado durante a evolução da vida nos últimos 2,5 bilhões de anos