Notícia

Jornal do Brasil

Genoma exige integração da ciência

Publicado em 29 junho 2000

Por FRANCISCO CARVALHO
SÃO PAULO - O diretor-científico da Fundação de Apoio à "Pesquisa do Estado de São Paulo" (Fapesp), matemático e físico José Perez, disse que o país precisa definir logo uma política de biotecnologia que integre recursos humanos e físicos a nível nacional. Há quatro meses, com o financiamento da Fapesp, cientistas brasileiros divulgaram o seqüenciamento completo da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da praga do amarelinho que ataca os laranjais, o primeiro fitopatógeno (organismo que causa doenças em plantas) seqüenciado no mundo. Perez disse que todos os laboratórios do país com potencial podem ser aproveitados para pesquisas genéticas e instou os governadores a adotarem uma política mais decidida de apoio às suas fundações estaduais de amparo. "Essa política vai gerar frutos não só a médio e longo prazos, mas também a curto prazo", previu, informando que as universidades federais de Alagoas, Pernambuco e Rio de Janeiro se uniram ao projeto Onsa para o seqüenciamento de bactérias da cana-de-açúcar e que Minas Gerais deve contribuir nas pesquisas da esquistossomose. GENES A experiência brasileira na área de biotecnologia já é reconhecida e, segundo Perez, "na próxima etapa do Projeto Genoma Humano (PGH), a identificação dos genes, os cientistas brasileiros vão dar uma contribuição, sem dúvida nenhuma". O diretor-científico da Fapesp lembrou que há pela frente a longa tarefa de mapeamento dos genes do DNA. "As conjecturas variam entre 30 mil a 120 mil genes, uma discrepância muito grande", disse Perez". Isso não é um pequeno erro porque o primeiro limite é multiplicado pelo fator quatro, o que mostra que há ainda um grande caminho, uma verdadeira maratona pela frente para se dar o primeiro passo, que é a identificação dos genes naquela estrutura". A conveniência de abrir o rascunho do mapa do DNA humano para domínio público, ou registrar patentes, na opinião de Perez, é pura perda de tempo: "Os genes só podem ser patenteados quando passam a ter uma utilidade específica, por exemplo, o uso industrial". Perez disse que a legislação brasileira só permite patentear o que for de "uso garantido" e recomendou aos demais países que tomem conhecimento disso. "Seria importante os paises desenvolvidos darem uma olhada na legislação daqui para adotá-la. Craig Venter não criará empecilhos. Simplesmente não abrirá os dados de graça. Quem quiser pagar, leva. Se a sociedade acha isso antiético. que faça leis contra", afirmou. O Brasil, segundo Perez, tem excelente potencial humano em biotecnologia, mas ele precisa ser melhor aproveitado para dar maior contribuição às novas conquistas. "É importante uma estratégia diante de nossa situação geográfica, nossa biodiversidade, nossas características de agricultura e pecuária", disse. "E imperioso que o Brasil seja pró-ativo para descobrirmos novas variedades de plantas, melhorar as espécies pecuárias e avançarmos na medicina. E correr, porque tudo acontece rápido", alertou. ESPERANÇA PARA NOVAS GERAÇÕES O anúncio do rascunho do genoma humano, feito na segunda-feira passada, trará esperança para as novas gerações, na opinião de Aloysio Salles da Fonseca, Presidente da Academia Nacional de Medicina. Fonseca aponta o diagnóstico precoce e o tratamento de doenças como as duas principais conquistas do seqüenciamento do DNA. O próximo passo do Projeto Genoma Humano, consórcio internacional que envolve 16 institutos e que conta com financiamento público de US$ 3 bilhões, será a identificação dos genes e suas funções. Desta forma, os médicos poderão saber quem tem predisposição para doenças, como o câncer, as doenças metabólicas e as cardiovasculares. Além disso, os pesquisadores poderão saber qual proteína cada gene codifica, o que permitirá entender a interação entre elas e outras substâncias no organismo, informação fundamental para a produção de vacinas. Apesar de exaltar o feito científico, Fonseca ressaltou que o conhecimento do código genético também trará riscos. A possibilidade de fazer clones humanos e alterações genéticas dos mais variados tipos "exigirá maior rigor ético de todos os países envolvidos no projeto, entre os quais o Brasil". A REDE DE COMPETÊNCIA SÃO PAULO - A rapidez na mobilização de recursos humanos com potencial, a supervisão de cientistas de competência mundial, a ousadia, muita humildade e a capacidade de trabalhar sob pressão são alguns dos ingredientes que levaram ao sucesso do Projeto Genoma-Fapesp de seqüenciamento completo da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da praga do amarelinho nos laranjais. O comandante do projeto, cientista José Perez, falou ontem, em seminário promovido pelo Núcleo de Política e Gestão da USP, para mais de 100 professores e universitários sobre o sistema de gestão do projeto. Perez destacou que o número de laboratórios que integram a Rede Onsa (sigla em inglês para Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos) há quatro meses passou de 35 para 50, com a participação de universidades e institutos de outros estados, citando as universidades federais de Alagoas. Rio de Janeiro e Pernambuco. Perez destacou os aspectos do projeto genoma, de sua gênese até os resultados. "O importante foi a motivação e o desenvolvimento dos recursos humanos, mesmo diante das dificuldades que o país atravessa em termos de recursos", afirmou. Segundo o diretor-científico da Fapesp, é preciso desenvolver nos meios acadêmicos e científicos uma nova consciência. "Temos competência. Devemos saber usá-la com um grau de ousadia diferenciado. E valorizar nossos recursos humanos e possibilidades, sem ter de mandar gente para o exterior. Tudo tem de ser feito no vernáculo", ensinou. O cientista disse que no processo inicial, que levou o Brasil a entrar no clube dos grandes sem ser convidado, ficou provado que é preciso ter humildade e sabedoria para saber pressionar e aceitar pressões. "Nenhum radicalismo é bom nessa área", afirmou. "Todos no projeto aprenderam mais uma habilidade: pilotar em pleno vôo", brincou. (F.C.)