Notícia

Jornal do Brasil

Genoma está perto de ser decifrado

Publicado em 26 junho 2000

É esperado para hoje o anúncio do seqüenciamento do genoma humano, a ordem em que os pares de bases aparecem no DNA (ácido desoxirribonucléico) dos indivíduos. A descoberta abre caminho para uma nova era da Medicina. A leitura do código genético permitirá identificar fraquezas e predisposição para doenças de cada organismo individualmente e; produzir medicamentos sob medida, mais eficazes. O problema é que o genoma está escrito em um idioma que os cientistas ainda não conseguiram entender. "O que eles estão fazendo é uma lista de palavras. Imagine um dicionário com 100 mil palavras embaralhadas e cujas definições estão em branco. Primeiro, temos que colocá-las em ordem. O próximo passo é encontrar as definições", disse Arthur Sands, presidente da Lexicon Genetics Incorporated, uma das empresas que pretendem explorar a informação genética. No núcleo de cada uma das cerca de 100 trilhões de células que constituem o corpo humano existe, enovelada, uma cópia do DNA, molécula em forma da dupla hélice, descoberta por James Watson em 1953, que contém todas as instruções para o funcionamento do organismo. O DNA é um filamento duplo, de cerca de 2 metros, ligado por componentes químicos chamados nucleotídeos ou bases. As bases são sempre quatro: Adenina (A). Timina (T). Citosina (C) e Guanina (G). Se de um lado do DNA está a letra A. do outro - obrigatoriamente -estará a T. Da mesma forma. C só se liga com G. A ordem em que os 3,2 bilhões de pares de bases aparecem no DNA é o que vai distinguir um ser humano do outro. Gene - Milhares de seqüências destas letras constituem um gene. Estima-se que a quantidade de genes varie de 30 mil a 120 mil. Apesar de tão numerosos, apenas 39c do DNA humano expressam genes: é o chamado genoma funcional. Os 97% restantes não têm função conhecida. Cientistas acreditam que esta parte do DNA seja formada por "lixo" evolutivo, pois apenas 1.5% do genoma humano separa o homem de um chimpanzé. Entre os humanos, as diferença entre um homem baixo e magro e uma mulher alta e gorda residem em 0,1% do genoma. Além de definir a estatura, a cor dos olhos e outras características físicas, os genes instruem as células a sintetizar proteínas. Estas são as operárias do corpo, atuando na produção de tecidos, na digestão de alimentos e na defesa do organismo. Como cada célula desempenha uma função distinta, os genes nelas expressos são diferentes. Descobrir a proteína que cada gene codifica será a longa tarefa do século 21. "Compreender este genoma levará 100 anos ou mais", diz Harold Varmus. Ex-diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Consórcio - O Projeto Genoma Humano (HGP. a sigla em inglês) foi lançado oficialmente em 1990, com financiamento público de US$ 3 bilhões e o objetivo de mapear e seqüenciar o DNA humano até 2005. É um programa consorciado, envolvendo laboratórios americanos e britânicos, além de cientistas na Alemanha. França e China e no Japão. Com a fundação em 1998 da Celera Genomics pelo biólogo Craig Venter, o projeto público passou a enfrentar a concorrência privada. A empresa, usando dados até então obtidos pelo PGH (que atualiza diariamente sua página na internet, em (http:/www.ornl.gov/hgmis/home.htm) conseguiu cm pouco tempo alcançar a equipe internacional. A chave para tanta agilidade foi o método empregado por Venter. Ele fragmentou o DNA para o seqüenciamento e jogou as informações n computadores a fim de ordenar os dados. Já os cientistas que participam do PGH analisam os 2 metros de DNA trecho a trecho, para depois montar o quebra-cabeça. Como repetiram as seqüências mais vezes que a Celera, argumentam que a exatidão de seus resultados é maior. Em resposta. Venter retruca que. apesar de o projeto internacional ter seqüências mais precisas, os cientistas não sabem em que lugar do cromossomo elas se encontram. De qualquer forma, o mapa completo só deverá estar pronto em 2003, quando se chegará à precisão de um erro por 5 mil pares de bases. Por trás da disputa entre as equipes, está a questão das patentes. Quem descobrir primeiro a função de um gene, poderá pedir a patente de seu uso e lucrar com o desenvolvimento de remédios baseados na descoberta. Mas, depois de meses trocando críticas e acusações, os líderes dos projetos público e privado, há algumas semanas, apertaram as mãos, levando a especulações de que farão o anúncio conjunto do seqüenciamento do genoma humano. Os genomas de outras espécies também estão sendo decodificados. Até agora, pelo menos 18 organismos tiveram seu DNA seqüenciado, entre eles o da bactéria Xylella fastidiosa, decifrado por cientistas brasileiros, um projeto de US$15 milhões, financiado pela FAPESP e pelo Fundo Paulista de Citricultura.