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Correio Popular

Genoma do cancro cítrico está quase pronto

Publicado em 28 junho 2000

Por RENATA CHUEIRE - bahuur@cpopular.com.br
O genoma da bactéria Xanthomonas citri, causadora do cancro cítrico - grande responsável pela perda de produtividade dos pomares do Estado (veja quadro) - está em vias de ser concluído. Os pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), de Piracicaba, ligado à Universidade de São Paulo (USP), fizeram o seqüenciamento de mais de cinco milhões de bases - as "letras" do código genético - e pretendem, até agosto próximo, iniciar a segunda etapa da pesquisa: estudar a fundo a forma pela qual a bactéria ataca a planta. No Brasil, o impacto econômico do cancro é estimado em US$ 10 milhões de dólares, segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), financiadora do projeto. As informações já obtidas fornecerão subsídios às futuras pesquisas que visam acabar com o cancro. "Essa é uma pesquisa básica que gera informações para outros estudos que provavelmente trarão soluções para a doença", explicou a coordenadora do projeto, Marília Caixeta Franco. Até hoje a única solução encontrada pelos produtores é a extração da planta doente. "Tendo este conhecimento em mãos, ou seja, o mapa genético da bactéria, é possível saber mais sobre ela, quais substâncias e enzimas produz. A partir daí, trabalha-se em cima da forma como ataca a planta", afirma Marília. O projeto Xanthomonas conta com 192 pesquisadores principais em laboratórios espalhados por institutos de pesquisa do Estado de São Paulo. Surgiu depois do mapeamento da bactéria Xylella fastidiosa causadora do amarelinho, doença que ataca as frutas cítricas As próximas estratégias do projeto estão detalhadas em uma página na Internet (em inglês): http://genoma4.iq.usp.br/xanthomonas. O mapeamento da seqüência exata dos pares de bases de nucleotídeos da Xylella foi concluído em abril deste ano. O estudo já permitiu início de um novo projeto, o Xylella funcional, que pretende estuda: a interação da bactéria com a planta. O funcional vai complementa! as informações obtidas pelo genoma Xylella. Aí estarão concentrados os estudos sobre as proteínas. Para Marília, o ritmo das descobertas superou as expectativas iniciais. "Isso foi possível graças aos seqüenciadores automático aliados à informática", comentou. A Fapesp financia pelo menos mais dois grandes projetos em São Paulo - cana-de-açúcar, e câncer Periodicamente, os cientistas do diferentes projetos promovem intercâmbios de material comum, útil a todos, espécies de "receitas" que se aplicam nas diferentes áreas. A maioria das informações é trocada via Internet. GENOMA DA CANA OCUPOU 50 LABORATÓRIOS Cinqüenta laboratórios do País analisaram nos últimos meses o primeiro material produzido pelo Projeto Genoma Cana-de-Açúcar, coordenado pelo Centro de Biologia Molecular e engenharia, da universidade estadual de Campinas (Unicamp) e financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado). Já trabalhavam no projeto 200 profissionais de 34 laboratórios do Brasil, dos estados de São Paulo, Alagoas e Pernambuco. Novos pesquisadores e laboratórios deverão se integrar ao trabalho. A rapidez do processo de seqüenciamento genético superou as expectativas dos pesquisadores. A primeira estimativa de tempo para identificação de 60 mil genes era de três anos. Um ano 54 mil já fórum identificados, diz o biólogo e pesquisador André Vettore, da Unicamp. Vettore é o auxiliar do coordenador de DNA d") projeto. Paulo Arruda. O interesse de novos pesquisadores indica a possibilidade de acelerar ainda mais a pesquisa sobre seqüenciamento genético da cana, em busca de novas qualidades, como maior resistência à seca, ao frio, às pragas etc. Para os agricultores, os estudos podem apontar para variedades que propiciem maior produtividade. Para Vettore, um dos motivos da rapidez na identificação dos genes é a acuidade das pesquisas, o que reduz as possibilidades de erro. Ele acredita que a evolução tecnológica contribuiu em grande parte para a aceleração dos estudos. Ao contrário do genoma humano, o projeto da cana-de-açúcar não irá trabalhar com todo o DNA, mas com o seqüenciamento de genes apenas. A escolha foi feita também devido ao tamanho do genoma da planta: duas vezes maior e mais complexo do que o genoma humano. Enquanto os seres humanos têm 3 bilhões de pares de base, a cana-de-açúcar possui 6 bilhões. A fita de DNA (seqüência molecular composta por quatro unidades que se repetem aleatoriamente), explica Vettore, possui regiões gênicas (onde se encontram os genes) e regiões intragênicas (espaço que mantém os genes distanciados). "Por enquanto, nos concentramos no 'filé mignon", que são as regiões gênicas", conta. O pesquisador afirma ser favorável às patentes, desde que estas não se tornem a finalidade principal do projeto. "Nosso interesse é na planta, mas as patentes representariam um reconhecimento ao trabalho", diz. (Renata Chueire) SAIBA O QUE E O CANCRO CÍTRICO O cancro cítrico é uma doença causada pela bactéria Xanthomonas axonopodis pv. Citri, que provoca tesões nas folhas, frutos e ramos e a queda deles. A bactéria do cancro é de fácil disseminação e um de seus vetores é o homem. Altamente contagiosa, ela é resistente e consegue sobreviver em vários ambientes por mais de nove meses. Se esse ambiente* for a própria fruta, folha ou ramo que foi retirado de uma planta contaminada, a sobrevivência da bactéria é ainda maior. SINTOMAS As lesões provocadas pelo Cancro são salientes, o que não ocorre em outras doenças e pragas. Os primeiros sintomas aparecem normalmente nas folhas. Uma mancha amarela pequena cresce aos poucos e deixa uma coloração marrom no centro. Nas folhas os sintomas aparecem dos dois lados. As lesões são salientes, e ao seu redor, normalmente, surge um anel amarelado. Nos ramos os sintomas são crostas de cor pardas, também salientes. No fruto os sintomas são salientes, mas superficiais. Em um estágio avançado, as lesões provocam o rompimento da casca. COMO A BACTÉRIA SE DISSEMINA A bactéria causadora do cancro se espalha de forma muito fácil e o maior agente dessa disseminação é o próprio homem, por meio do trânsito indiscriminado de pessoas pelos pomares, materiais de colheita e veículos. Folhas, ramos e frutos jovens são preferidos pela bactéria pois ela consegue penetrar através de aberturas naturais dos tecidos. Para que penetre em folhas, frutos e ramos mais velhos é preciso haver ferimentos, causados normalmente por material de colheita (escadas, sacolas), veículos que esbarram nas árvores, pelo vento e, principalmente, pela Larva Minadora dos Citros. COMO SE DISSEMINA DENTRO DO POMAR Por meio de chuvas e ventos fortes, material de colheita, implementos, veículos que transitam pela propriedade e pelo homem. A DISSEMINAÇÃO DE UM POMAR PARA OUTRO O maior meio de disseminação da doença entre propriedades são mudas contaminadas, mas devem ser considerados também chuvas e ventos, equipamentos, veículos e restos de colheita. O citricultor precisa dobrar a vigilância na época da colheita, quando aumenta o trânsito de equipamentos, veículos e frutos por todo o estado. CONTROLE Como não existe método curativo para a doença, a única forma de eliminar o Cancro Cítrico é por meio da erradicação do material contaminado. Por essa razão o citricultor deve estar atento às medidas de prevenção e não esquecer da inspeção rotineira. BACTÉRIA VEGETAL TEVE PRIMEIRO SEQÜENCIAMENTO Com importante participação no Projeto Genoma, o Estado de São Paulo concluiu, em fevereiro deste ano, o primeiro seqüenciamento de um patógeno vegetal, a bactéria Xylella fastidiosa, ou amarelinho. O microorganismo ataca a laranja e provoca a sua morte por atacar o seu xilema, responsável pelo fornecimento de água e nutrientes ao fruto. No Projeto Genoma Xylella, do qual participaram 35 laboratórios de todo o Estado, Campinas colaborou com dois, ambos do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Segundo o coordenador do Projeto na cidade, Walter José Siqueira, o mapeamento da bactéria, que motivou agradecimentos de todo o mundo, está sendo usado agora por outros 16 laboratórios, que estão fazendo seu estudo funcional. "Esses estudos poderão fornecerão métodos para impedir a ação da bactéria no fruto, começando, por exemplo, com manipulações genéticas que impeçam a fixação do microorganismo no fruto", cita. Assim como no Genoma humano, a etapa funcional também leva décadas para ser concluída. O projeto pode significar para a economia agrícola nacional um alívio de um prejuízo estimado em R$200 milhões de reais ao ano. Isto porque a bactéria atinge 34% dos pomares paulistas, impedindo, inclusive, a exportação do produto. Conforme explicou Siqueira, antes de se transportar safras do produto, a carga passa por uma inspeção fitosanitária que, detectando a presença da praga, é capaz de erradicar toneladas do fruto para evitar mais contaminações. O Projeto Genoma Xylella também foi financiado pela Fapesp, que o escolheu pelo fato de o Brasil ser o maior exportador de laranja do mundo (34,8% da produção mundial).