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Dinheiro Rural

Genoma de resultados

Publicado em 01 setembro 2011

Por Vera Ondei

Hipócrates, o pai tia medicina moderna, levaria um susto se visse, hoje, do que a ciência médica é capaz. E essa ciência não se desenvolveu apenas para os humanos: graças as descobertas genômicas, a ciência médica também está mudando a maneira como o homem olha paia 0 gado bovino. No início de agosto, por exemplo, a Universidade Estadual Paulista (Unesp), do campus de Araçatuba, no interior de São Paulo, anunciou a conclusão do sequenciamento do genoma do zebu. O genoma é o conjunto de informações genéticas contidas em uma única célula de um ser vivo, homem ou animal. "A utilização dessas informações vai aumentai" as possibilidades de controle no melhoramento genético dos animais", diz o médico veterinário José Fernando Garcia. Ele é pesquisador e professor do departamento de reprodução animal da Unesp e coordena o projeto Genoma Zebu. "Para o consumidor, melhorar os animais significa ter no prato carne mais macia e saborosa", diz Garcia.

"Para os criadores, significa ter animais abatidos em menor tempo possível, por um custo de produção menor." Atualmente, o aprimora-mento genético no gado é feito de forma indireta, por meio dos programas de melhoramento tradicionais. Para um criador saber se um touro ou uma vaca de seu rebanho são bons reprodutores, os filhos desses animais são monitorados do nascimento até o abate, quando a qualidade da carne é analisada. Essa coleta de informações pode levar até seis anos. "Com a ciência genômica, vamos ganhar agilidade nesse processo", diz Garcia. Segundo ele, o criador vai manter no rebanho apenas os animais capazes de transmitir aos seus descendentes as características que lhe interessam. Isso porque, com os dados genômicos de um bezerro recém-nascido, é possível ao criador saber qual será o seu peso na idade adulta, quando ele estará pronto para o abate, se a sua carne é macia, se é resistente a doenças, ao calor e aos parasitas.

Para traçar o mapa genético do zebu, os pesquisadores coletaram o sangue do nelore Futuro POI de Golias, de propriedade cio criador Fábio Almeida Filho, da fazenda Água Branca, de Araçatuba. Do sangue, foram extraídas e fragmentadas as moléculas de DNA. "As informações contidas nesses fragmentos servem para analisar todos os demais zebuínos nelore", diz Garcia. "E o mapa da raça." Essa parte do projeto foi desenvolvida por pesquisadores americanos e italianos. Com o mapa em mãos, eles criaram uma ferramenta chamada "SNP chip" onde estão catalogados 700 mil pontos do genoma. "A comparação desses pontos mostra as diferenças produtivas que possam existir entre os animais", diz o pesquisador americano Tad Sonstegard, do Agricultural Research Service (ARS) o do Departamento Americano de Agricultura (Usda). Sonstegard divide a coordenação da pesquisa com o professor Garcia.

Segundo Sonstegard, para o Usda, um dos cinco desafios globais da agropecuária é a segurança alimentar. "Até 2050, o mundo precisa dobrai* a quantidade de alimentos produzidos no planeta", diz. A demanda explica o interesse dos americanos na pesquisa genômica. "Desse aumento necessário, 70% deverá ser em proteína animal, carne ou leite."

O primeiro grupo que irá aplicar em seus rebanhos os conhecimentos do programa Genoma Zebu, no País, é a Conexão Delta G. O programa de melhoramento genético tem em sua base 390 mil animais de 85 fazendas, em dez Estados. Para Daniel Feijó Biluca, diretor-executivo, com a ciência genômica os rebanhos vão passar por uma transformação muito grande. "A compreensão das características biológicas dos animais modificará completamente a pecuária nos próximos dez anos", diz.

Iniciada em 2009, a pesquisa da Unesp já consumiu cerca de US$ 500 mil. E ao contrário de alguns outros estudos que estão sendo realizados por empresas, o da Unesp é público. Ele pode ser acessado no portal do NCBI, o National Center for Biotechnology Information. A aplicação dessa avaliação, no campo, deve custar ao criador em torno de R$ 250 para cada animal.

Mapa do boi

Investimentos US$ 500 mil

Iniciativa envolveu Unesp, Mapa e Fapesp

Pesquisadores americanos e italianos são parceiros

Por animal, teste a campo deve custar R$ 250

Informações são públicas no portal do NCBI

DNA mostra diferenças entre indivíduos