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Genoma brasileiro é modelo de pesquisa para o terceiro mundo

Publicado em 25 abril 2001

Por Larry Rohter

SÃO PAULO - A Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo está rapidamente se tornando uma força de influência em genomas e um modelo de investigação científica no terceiro mundo. Sem pesquisadores ou laboratórios próprios, somente uma equipe administrativa modesta, trabalhando em um edifício comum em zona residencial da cidade, a fundação tem feito suas conquistas através de gerenciamento prudente e escolhas cuidadosas.

Em julho último, um consórcio brasileiro organizado e financiado pela fundação tornou-se o primeiro a seqüenciar o genoma de um agente patogênico de planta, Xylella fastidiosa, uma bactéria transmitida por insetos que infesta a laranja. Poucos meses depois, a fundação, conhecida como Fapesp, anunciou que o consórcio havia completado a seqüência genômica de outra praga que ataca a próspera indústria frutífera do país, Xanthomonas citri, ou tumor de cítricos.

"Desde que começamos, nosso objetivo sempre foi o mesmo: trabalhar nas fronteiras da ciência, abordando questões de relevância social e econômica", explicou o diretor científico da fundação, dr. José Fernando Perez, em entrevista. "O projeto genoma serviu esse propósito e criou uma imagem de liderança para nós".

De fato, o sucesso duplo da Fapesp não só estabeleceu sua reputação internacional, mas também levou a colaborações com outras linhas importantes de pesquisa, como um projeto para seqüenciar genes de câncer humano, financiado em parte pelo Instituto Ludwig na Suíça. Em outra rara reviravolta, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos recentemente contratou a Fapesp para seqüenciar o gene de uma bactéria que ataca as vinhas da Califórnia.

Os brasileiros "estão fazendo ciência da melhor qualidade, comparável a qualquer coisa sendo desenvolvida nos maiores centros de seqüenciamento nos Estados Unidos ou Europa", disse a dra. Claire Fraser, presidente do Instituto de Pesquisa Genômica em Rockville, Maryland, em entrevista telefônica. "Como resultado, eles de fato se tornaram reconhecidos como peça importante neste campo, fazendo uma grande contribuição ao esforço genômico internacional".

Cada vez mais, as realizações da Fapesp a estão tornando um modelo para pesquisa científica no terceiro mundo. Em um editorial no ano passado, a revista Nature chamou o trabalho genômico daqui de "Uma conquista não só científica como política", que desmente "o comum engano de que somente nações industrializadas têm os meios e recursos humanos treinados necessários para fazer ciência de ponta".

A proeminência da fundação, entretanto, é apenas um dos vários sinais de avanço da pesquisa brasileira, na qual tanto o governo, através do Ministério da Ciência e Tecnologia, como o setor privado começaram a investir.

Em março, por exemplo, o Brasil tornou-se o primeiro país no mundo em desenvolvimento a clonar um animal, uma vaca chamada Vitória.

O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo, com mais de 160 milhões de animais, e Marcus Vinicius Pratini de Moraes, ministro da Agricultura, disse que a pesquisa brasileira em clonagem tinha a intenção de "melhorar a tecnologia e saúde animal e vegetal", incluindo o eventual desenvolvimento de gado resistente à febre aftosa ou à doença da vaca louca. "Este é o primeiro passo para conquistar total controle dessa tecnologia", afirmou.

O progresso brasileiro também pode ser medido pelo aumento no número e variedade de artigos publicados por cientistas brasileiros em revistas internacionais. Nos últimos 15 anos, esse índice triplicou para 1,2%, segundo o Instituto de Informação Científica, que acompanha o número de artigos produzidos em todo o mundo.

Não só isso, desde 1996, "o número de citações de cientistas brasileiros cresceu três vezes mais rápido do que o nível mundial", disse Ronaldo Sardenberg, ministro da ciência e tecnologia, em entrevista em Brasília no ano passado. "Estamos determinados a fazer o possível para encorajar esse processo a continuar, porque entendemos que a pesquisa é bom negócio".

Grande parte do sucesso do Brasil, entretanto, pode ser atribuído diretamente à Fapesp, que tem um grau de autonomia institucional raro nesta parte do mundo.

Desde sua fundação, em 1962, a lei estadual garante à Fapesp uma fração fixa, agora de 1%, de toda receita coletada em São Paulo, o estado mais rico e populoso do país, com 37 milhões de pessoas. Esse montante, junto com contribuições federais, permite à Fapesp fomentar projetos de pesquisa com US$ 270 milhões (cerca de R$ 600 milhões) por ano. Os projetos são tão diversos quanto um catálogo de biodiversidade e um software de correção sintática, usado na versão do Microsoft Word em português.

O estatuto da Fapesp estabelece que a fundação não pode gastar mais do que 5% de seu orçamento em administração, prevenindo assim os excessos em contratação, tão comuns em agências governamentais de países em desenvolvimento.

O mesmo estatuto também proíbe a Fapesp de reunir seu próprio corpo científico, requerendo que trabalhe por meio de cerca de 50 laboratórios em universidades e departamentos de pesquisa em todo o estado.

"Acho que você poderia nos chamar de um instituto virtual, porque não temos nossas próprias instalações ou programas de pesquisa", disse Dr. Perez. "Queremos identificar sistematicamente as áreas de interesse estratégico para a nação e então encorajar os outros a desenvolverem-nas".

Apesar dos projetos genômicos terem levado a Fapesp a pedir diversas patentes e abrir um banco de clones, a pesquisa ainda não está gerando lucro. Se e quando isso acontecer, Perez disse que espera que os ganhos sejam divididos de acordo com a fórmula da Fapesp: um terço para a Fapesp, um terço para as instituições que participaram e um terço dividido entre os pesquisadores individuais.

Logo no início, a Fapesp começou a investir em treinamento de jovens cientistas, oferecendo bolsas para estudarem fora. Evitou em grande parte o problema de evasão de cérebros exigindo que os beneficiados pela bolsa voltassem ao Brasil por ao menos quatro anos, e garantindo-lhes vaga como professores universitários mesmo antes de partirem.

"Esse programa foi extremamente importante para o Brasil na época, porque nos permitiu treinamento em áreas em que não tínhamos competência", disse Glaucius Oliva, diretor do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural da Universidade de São Carlos, afiliado à Fapesp. "Mas o pesquisador também tinha um contrato assinado que estabelecia um vínculo e o tornava funcionário da universidade, de forma que fosse obrigado a pagar de volta os salários recebidos caso não voltasse".

Com somente 80.000 pesquisadores, comparados a mais de um milhão nos EUA, o Brasil ainda está se esforçando para desenvolver massa crítica de cientistas. "Temos qualidade, mas não quantidade, porque não temos os recursos financeiros para treinar mais pesquisadores e criar mais institutos de pesquisa", disse Francisco Romeu Landi, presidente da Fapesp.

A fundação, no entanto, tentou diminuir essa lacuna "induzindo" pesquisa em áreas que encara como mais promissoras ou importantes. A instituição também enfatizou a cooperação ao invés da competição.

"Em um país com dezenas de grupos com dezenas de pesquisadores, pode-se aceitar um modelo competitivo, no qual os que chegam a resultados mais rápidos e melhores recebem financiamento", disse o Dr. Oliva. "Mas para países em desenvolvimento, com recursos limitados como o nosso, é suicídio".

Quase sempre, a ciência brasileira dá ênfase a projetos que produzam resultados práticos, como os programas aeronáuticos que levaram a formação da Embraer, que hoje é a quarta maior produtora de aeronaves do mundo. De fato, essa foi a motivação que iniciou o esforço genômico da Fapesp, em 1997.

"Estávamos nos perguntando, o que podemos fazer para estimular a formação de uma indústria de biotecnologia neste país", lembra-se Perez. "A resposta tradicional seria enviar um grupo de pesquisadores ao exterior para ser treinado, mas esse processo é lento e caro, além de não garantir o sucesso. Então decidimos criar não só um projeto genômico, mas mobilizar uma série de esforços".

O sucesso inicial da experiência conquistado com os projetos de patógenos de plantas levou a esforços mais ambiciosos. Os pesquisadores financiados pela Fapesp e cooperativas locais de açúcar, por exemplo, acabaram de seqüenciar o genoma da cana-de-açúcar, um dos produtos mais tradicionais de exportação do Brasil.

"Esses esforços de pesquisa são de grande importância econômica, porque o Brasil é o maior exportador desses produtos", disse Landi. "Se pudermos identificar os genes da cana-de-açúcar e ativar aqueles que aumentam o índice de açúcar e a taxa de crescimento, aumentaremos a produtividade do campo".

Ainda neste ano, 25 laboratórios associados à Fapesp começarão um projeto para seqüenciar o genoma do eucalipto. A árvore é cultivada aqui pela próspera indústria de papel e celulose porque cresce mais rápido do que as árvores nativas. De novo, parte da pesquisa será custeada pelo setor privado.

Em março, a Fapesp anunciou um plano de seqüenciar os genes do parasita que causa a esquistossomose, que aflige aproximadamente 10 milhões de brasileiros e incontáveis outros milhões na China e na Índia. Autoridades da Fapesp também esperam que projetos genômicos levem ao desenvolvimento de drogas contra doenças tropicais endêmicas como a malária, leishmaniose e doença de Chagas.

"Acho brilhante o que fez o Brasil. Eles selecionaram projetos de pesquisa importantes para eles e para o resto do mundo em desenvolvimento, mas que são de muito baixa prioridade para grupos de financiamento" dos Estados Unidos e Europa, disse a dra. Fraser. "Criaram um nicho próprio para eles, fazendo contribuição importante em termos de sua própria economia e no sentido de reconquistar o controle de seu próprio destino".

do New York Times

Tradução: Deborah Weinberg