Notícia

Galileu

Gênios 2010

Publicado em 01 agosto 2010

O curitibano Alex Kipman, 31 anos, desenvolveu uma tecnologia que vai mudar a maneira como nos relacionamos com as máquinas. Projetado para o videogame Xbox 360, o Kinect deve chegar às lojas dos Estados Unidos em 4 de novembro. Alex, que é engenheiro de softwares e desde 2001 trabalha na Microsoft em Seattle, EUA, figura entre os melhores da área em que atua. E está também entre os dez brasileiros que escolhemos para nossa lista de gênios deste ano. São profissionais que trabalham em territórios tão distintos quanto as teclas de um piano ou a nascente de um rio. Mas têm em comum o fato de terem desenvolvido projetos inovadores. A seguir, a seleção de mentes brilhantes na opinião da Galileu.

O democrata dos games

Você vai jogar Xbox com sua avó. Alex Kipman criou a tecnologia que irá aproximar todo mundo dos jogos

Idade: 31 anos

O que faz: chefe de incubação de projetos de entretenimento interativos da Microsoft

Por que está aqui: com o Kinect, o nome comercial de seu Projeto Natal, Alex está levando os videogames a uma nova era de interação com o ser humano

Alex Kipman desenvolve produtos para a Microsoft, uma das gigantes de tecnologia mundiais. Ainda assim, vê a si mesmo como um artista. Sabe que, mais do que desenhar hardwares e softwares, seu trabalho é projetar o futuro. Foi ele quem idealizou e desenvolveu o Kinect, acessório do videogame Xbox 360, que vai fazer com que o computador reconheça os movimentos e as vozes dos jogadores e colocará um fim à era dos controles e teclados. Alex tem plena noção do que seu projeto significa — uma mudança de paradigma na relação entre homens e máquinas.

O alcance de seu invento ficou claro durante a apresentação na E3, feira de tecnologia realizada em Los Angeles, nos Estados Unidos, em junho. Nos corredores do evento, Alex tinha que fazer pausas para dar autógrafos aos participantes. Faz sentido para um artista, mas não para um criador de games. Acontece que Alex não é só isso. Mais do que inventar um novo jeito de jogar, sua criação oferece um novo jeito de nos relacionarmos com os games eletrônicos. Até hoje, tivemos que aprender a lidar com o teclado e o mouse ou a usar os botões dos controles. Enfim, aprender a usar a linguagem da máquina. "Estamos entrando na próxima fase da computação, em que a máquina entende a linguagem do ser humano", diz Alex. A revista americana New Scientist faz uma previsão do que pode vir depois. Afirma que essa tecnologia, que deixa as "mãos livres", logo vai ultrapassar a fronteira dos jogos e estará presente em aplicações que mudarão de forma radical a maneira como interagimos com o mundo. Se irá mesmo acontecer, logo saberemos. No próximo dia 4 de novembro o Kinect chegará às lojas dos Estados Unidos.

Em uma comparação simples, usar o Kinect é como ter um controle do Nintendo Wii em cada articulação. Só que esse controle não existe: ele é o seu próprio corpo. O game vai reconhecer o rosto e a voz do usuário (você para na frente do dispositivo e seu perfil é encontrado pelo computador na mesma hora). "Quando eu ligo o videogame, ele sabe que sou o Alex e consegue me colocar dentro do sistema, sem eu precisar apertar nenhum botão", diz. Mais importante é a capacidade do computador reconhecer os movimentos dos jogadores e transportá-los para dentro do jogo. Por meio de raios infravermelhos e sensores de profundidade, o apetrecho sabe sua altura, peso e consegue localizar, 30 vezes por segundo, onde estão todas as suas articulações para transformá-las em um joystick vivo. No Kinectimals, um jogo voltado para crianças, é possível criar uma relação de proximidade com leões, tigres ou ursos. "O sistema te entende tão bem que você pensa que o animal é de verdade."

O engenheiro, que hoje mora em Seattle, nos Estados Unidos, com a esposa, nasceu em Curitiba (PR). Filho de diplomatas, cresceu entre Brasília e Roma. Mas não esqueceu do Brasil ao nomear seu invento. Durante a fase de projeto, chamou-o de Natal em homenagem a uma de suas cidades prediletas no País. "Existe uma regra na Microsoft pela qual devemos nomear os projetos com nomes de cidades. Escolhi a capital do Rio Grande do Norte porque adoro a região."

Seu gosto por videogames começou aos 5 anos de idade, quando ganhou seu primeiro console — um Atari 2600. Aos 10, já programava joguinhos em um PC em casa. O hobby ia bem, mas foi abandonado quando Alex entrou para a faculdade de engenharia de softwares no Rochester Institute of Technology, em Nova York, cidade para onde se mudou durante o segundo grau. De lá foi direto para a Microsoft, em 2001. Começou desenvolvendo o sistema operacional Windows.

Alex enxergou, depois de algum tempo, a possibilidade de unir sua paixão com o trabalho de engenheiro na empresa. E de transformar sua indústria. "Como jogador, eu vejo os games como uma arte", diz. Com essa visão, Alex tentava entender por que, num mundo de 7 bilhões de pessoas, só algumas gostavam de sua "arte". "O controle era uma barreira", diz. Ao acabar com ele, Alex abriu um novo mundo de possibilidades. E confirmou sua vocação para gênio.

O Dono da bola

Tiago Leifert provou que programa sobre futebol não precisa ser chato

Idade: 30 anos

O que faz: editor-chefe do Globo Esporte

Por que está aqui: Tiago está mudando a maneira de fazer jornalismo esportivo no Brasil

Uma das poucas coisas que valeram a pena nessa Copa do Mundo, além dos palpites do polvo Paul, foi ver os comentários do jornalista Tiago Leifert, 30 anos, no programa Central da Copa, na TV Globo. O apresentador e editor-chefe do Globo Esporte driblou o protocolo, quebrou a mesmice dos quadros tradicionais sobre futebol e confirmou sua capacidade de improviso e criatividade durante o mundial. Ok, ele não descobriu nenhuma cura para uma doença e nem criou uma revolução no mundo da tecnologia. Sua genialidade é mais cotidiana, digamos assim. Tiago nos livrou de ver aqueles programas com jogadores repetindo clichês em torno de mesas-redondas depois dos jogos. Na emissora desde 2006, abriu um simples, mas novo caminho no jornalismo esportivo. Por conta dessa mudança, recebeu no início do ano o prêmio de Melhor Apresentador de TV da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Suas qualidades despertam interesse até mesmo em quem não se interessaria por programas de esportes. "Tiago se coloca diante das câmeras de uma forma muito espontânea. Ao contrário do que acontece com quem não segue um roteiro, ele não fala bobagens", diz Cristina Padiglione, crítica de TV do jornal O Estado de S. Paulo, que participou da votação da APCA.

Tiago não usa teleprompter, aquela telinha com o texto que fica perto da câmera e de que os apresentadores se valem. "Tem que confiar muito no apresentador para deixá-lo falando o que vem na cabeça, muitas vezes ao vivo e sem edição", diz Cristina. Seu jeito, que pende um pouco para o estilo da MTV, era visto pelos veteranos como "fora do padrão". "Mas eu assumi o risco e conquistei espaço", diz ele. Espaço até para criar um hit ao homenagear o jogador Val Baiano, então do Barueri, com um funk. Como funkeiro, Tiago não tem futuro, mas quem teria coragem de falar, em 2009, mesmo em tom de brincadeira, que "Val Baiano é melhor que o Adriano", quando o Imperador era ídolo da torcida do Flamengo? Diga-se de passagem, Val Baiano foi contratado pelo time carioca para substituir Adriano, que acaba de ir para o Roma.

O gosto de Tiago por videogames também o ajuda a compor seu estilo como apresentador. De vez em quando, ele desafia um convidado em jogos no Nintendo Wii ao vivo. "Sou viciado em tecnologia. Tenho cinco consoles." Seu jogo preferido? Pro Evolution Soccer, uma simulação perfeita de partidas de futebol, sua paixão mesmo quando não está na frente das câmeras.

Encantadora de dados

Com seus gráficos, Fernanda Viégas está transformando a maneira como enxergamos as informações

Idade: 38 anos

O que faz: designer computacional e coordenadora de programação visual do Google

Por que está aqui: sua pesquisa é reconhecida no mundo, e agora pelo Google, como um meio brilhante de disseminar dados e informações com seus gráficos, Fernanda Viégas está transformando a maneira como enxergamos as informações

É bem possível que você já tenha visto um trabalho da designer computacional carioca Fernanda Viégas, 38 anos, e nem saiba. Em junho último, ela foi convidada a ocupar um cargo cobiçado por seus colegas do mundo inteiro. Ao lado de Martin Wattenber, seu ex-colega na IBM, onde trabalhou até o início do ano, Fernanda vai liderar um grupo de programadores visuais no Google. "Nosso trabalho será descobrir caminhos para que se visualize, por exemplo, uma coleção de literatura. Desenhar uma interface amigável para isso", diz Fernanda, que pesquisa maneiras novas de agrupar informações. A ideia é que qualquer um entenda, olhando apenas um infográfico, dados tão diferentes quanto o avanço do desemprego nos Estados Unidos ou quantas vezes Hillary Clinton citou uma certa palavra em seus discursos. Fernanda também trabalhou para a Wikipedia, decodificando em imagens coloridas o uso e a edição de informações no site.

Agora, quando você receber aquele documento de Excel ininteligível, pode recorrer a Fernanda para transformar tudo em um gráfico bacana. Como? Ao lado de Martin, criou o site colaborativo Many Eyes, do Visual Communication Lab, da IBM nos Estados Unidos. Os dois deixaram a companhia, mas o site está lá e tem como objetivo incentivar a colaboração e a decodificação de informações complexas. Foi por conta dessa trajetória que a revista Fast Company apontou a designer brasileira como uma das dez mulheres mais influentes em tecnologia no mundo em 2010.

A história começou por volta de 2001, quando a designer ainda era estudante de graduação na Universidade do Kansas, EUA. Usou, então, as conversas entre membros de um chat para criar os primeiros gráficos informativos. Tempos depois, pediu a voluntários que abrissem suas caixas de e-mails para que ela transformasse seu conteúdo. Eles cederam, desde que Fernanda não divulgasse os dados. "Acontece que, depois de prontos os infográficos, eles mesmos mostraram para todo mundo por que gostaram do resultado", diz. No ano passado, ela esteve no TEDx São Paulo, evento que reúne pensadores em diversas áreas, e fez a plateia rir com uma compilação dos dados de personagens da novela Viver a Vida. Com isso, Fernanda mostrou que é possível criar estruturas visuais até mesmo usando informações subjetivas.

Doutora pelo MediaLab do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Fernanda já cursou engenharia química e linguística no Rio de Janeiro, sem concluir nenhum dos dois. Foi então para os Estados Unidos fazer faculdade de educação, e acabou se formando em design gráfico e história da arte. "Foi difícil escolher", diz. "Eu gostava de absolutamente todas as matérias na escola. Sou multifocal."

Rola uma química

Ele ganhou espaço na Science antes mesmo de terminar a faculdade

Idade: 21 anos

O que faz: químico recém-formado pela Unicamp

Por que está aqui: seu estudo sobre cristais capazes de absorver CO2 da atmosfera na Califórnia acaba de ser publicado na revista Science, feito raríssimo para um cientista que nem havia concluído a graduação

Se o químico Ricardo Ferreira publicasse um artigo na revista americana Science aos 30 anos, isso já serviria para que ele fosse visto como um cientista de futuro muito promissor em seu meio — as páginas da publicação são disputadas ferrenhamente por pesquisadores do mundo todo. Acontece que ele acabou de fazer isso com um estudo sobre materiais porosos na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). E só tem 21 anos. "Realmente, é raro um aluno de iniciação científica brasileiro ser coautor de um artigo num dos mais importantes veículos impressos de divulgação científica do planeta. Eu não tenho notícia de nenhum outro que tenha conseguido algo parecido", diz André Formiga, orientador da pesquisa que Ricardo desenvolve na Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo, onde concluiu sua graduação, no primeiro semestre deste ano.

O jovem deixou o campus de sua cidade no início de 2010 para um estágio na UCLA, em que continuaria seus estudos sobre manipulação de materiais. Lá, entrou para a equipe de um dos maiores especialistas do mundo no assunto, Omar Yaghi, que Ricardo chama de Professor Yaghi. "É uma brincadeira com o Mestre Miyagi, do filme Karatê Kid, que sempre dava conselhos valiosos ao seu aprendiz", afirma. O professor se surpreendeu ao ver suas anotações durante uma pesquisa com cristais, uma espécie de pó capaz de absorver gás carbônico da atmosfera. Podem ser usados em escapamentos de carros ou em chaminés de usinas termoelétricas para reduzir a poluição da atmosfera. Embora essas substâncias já sejam conhecidas, os cristais pesquisados pela equipe de Rodrigo são quatro vezes mais eficientes, além de conseguirem separar o gás tóxico e ter um gasto energético muito menor do que os existentes hoje. Foi por conta de tudo isso que ele foi um dos autores do artigo publicado na Science.

Sua trajetória começou de forma absolutamente comum: Ricardo estudou em uma escola pública de Marília, no interior de São Paulo, e começou a se interessar por ciência enquanto assistia ao programa educativo de TV O Mundo de Beakman. No segundo ano de faculdade, ganhou uma bolsa de estudos com um projeto que pareceu abstrato para os amigos, mas fazia sentido na cabeça também abstrata de Ricardo. "Não sei qual aplicação terá, mas sei que pode haver alguma. É isso que move meu interesse."

Brilha muito em 2014!

Ganso, meia do Santos, foi a grande ausência dessa Copa

Idade: 20 anos

O que faz: jogador do Santos

Por que está aqui: talentoso e precoce, gerou revolta quando ficou fora da seleção de Dunga

Os 193 milhões de técnicos de futebol brasileiros escalaram o jogador Paulo Henrique Chagas de Lima, o Ganso, 20 anos, meio-campo do Santos, para a seleção nessa Copa. A exceção foi o único técnico que realmente fez a diferença: Dunga, que não levou o garoto para a África do Sul. Precoce e talentoso, Ganso vai muito, mas muito bem no meio de campo do Santos. "Ele é genial. Tinha que ter sido titular da seleção", diz o jornalista esportivo Milton Neves, apresentador da TV Bandeirantes. Neves repete a frase que já esteve na boca de alguns milhões de brasileiros. "Se o Ganso fosse titular, o Brasil teria mais chance de ganhar o mundial." Canhoto como Rivelino e Maradona, esse paraense faz suas jogadas com a maturidade que só se vê em veteranos. "Ganso não precisa dominar a bola para saber o que vai fazer depois: sabe antes mesmo de ela chegar aos seus pés", afirma Leivinha, comentarista da Rádio Jovem Pan, em São Paulo. O sucesso em campo rendeu a Ganso a renovação do contrato com o Santos até 2015. E a cobiça do italiano Milan: segundo o jornal Corriere dello Sport, Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro da Itália e também presidente do clube italiano, disse que o Milan não medirá esforços para comprar o meia da Vila Belmiro. A torcida, no entanto, quer continuar vendo suas jogadas nos campos brasileiros. Até a próxima Copa quando, finalmente, devemos ver Ganso brilhar muito na seleção.

Fonte de água limpa

Carlos Joly e seu projeto Biota ajudam a preservar nascentes e matas

Idade: 55 anos

O que faz: biólogo, coordena o projeto Biota, da Fapesp

Por que está aqui: sua pesquisa vem sendo usada como exemplo mundial de preservação

Se daqui a 50 anos ainda for possível ouvir o canto de uma araponga, ver nas matas um gavião-pomba ou mesmo beber um copo de água mineral fresca, deveremos isso, em parte, ao trabalho do biólogo Carlos Alfredo Joly, 55 anos, professor da Unicamp e chefe do grupo de cientistas do projeto Biota, da Fapesp, em São Paulo. Um dos mais importantes no estudo de animais e de plantas em todo o País, o projeto acaba de ser apontado pela revista Science como um exemplo de conservação ambiental baseado em "sólidos estudos científicos", a ser seguido até mesmo pelo governo americano.

Desde que foi fundado, dez anos atrás, o Biota já catalogou mais de 1.800 espécies de plantas e animais das matas paulistas. Prepara-se agora para entrar numa nova fase: pretende começar a influenciar a legislação ambiental do País com as informações que colheu. Um dos trabalhos serviu para delimitar o plantio da cana-de-açúcar no Estado e frear a ocupação predatória da agricultura. "O estudo tem sido usado pelo governo para criar áreas de preservação", diz Joly. O trabalho pode definir até mesmo o fornecimento de água para os 19 milhões de pessoas da Grande São Paulo, já que um dos focos é a preservação de nascentes. Joly é mestre e Ph.D. em biologia, mas o cientista deixa a pompa de lado e se embrenha na mata ou nos laboratórios em que coordena centenas de pesquisadores. Sempre em nome de florestas e rios mais limpos.

Artista dos números

Artur Ávila faz de suas equações verdadeiras obras de arte

Idade: 31 anos

O que faz: matemático, é diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, e pesquisador do Impa

Por que está aqui: além de seu trabalho considerado brilhante, será o segundo brasileiro na história a ser conferencista da União Internacional de Matemática

Em agosto, a cidade de Hyderabad, na Índia, sediará o congresso da União Internacional de Matemática (IMU), um dos eventos mais importantes da ciência no mundo e que ocorre a cada quatro anos. O matemático carioca Artur Ávila, 31 anos, é um dos dois nomes que representarão o Brasil no encontro — ele é o segundo na história do País a conseguir o espaço de conferencista em uma plenária do IMU. Hoje, Artur é conhecido internacionalmente pelo encaminhamento dado a problemas que grandes nomes não conseguiram solucionar. Um exemplo é o desenvolvimento de um operador de Schrödinger, que fundiu o cérebro de gigantes como o russo Yakov Sinai (que atua com sistemas dinâmicos, a mesma área de estudos de Artur). "Esse objeto é dividido em frequências, e uma delas foi resolvida por Artur de forma magistral", diz Jacob Palis, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, considerado o matemático mais importante do Brasil. Jacob vê o trabalho de Artur como se aprecia uma obra de arte. "A matemática o aproxima de um artista. É baseado numa grande intuição."

O assunto parece abstrato para os simples mortais, mas Artur prefere deixar seus estudos longe do uso prático, embora se preocupe com assuntos cotidianos como política e saúde pública. "Tenho medo do que podem fazer com a aplicação de cálculos, de tentarem dar lógica a teorias infundadas", diz o matemático, que divide seu tempo entre a diretoria de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, onde ganhou o prêmio da Academia de Ciências da França, em 2009, e seu trabalho no Impa. Lá, Artur começou sua iniciação científica — e concluiu o mestrado — juntamente com o segundo grau. Detalhe: sem passar por uma graduação. Coisa de gênio.

Café com creme

Mineira cria cosméticos sustentáveis que estão ganhando o mundo

Idade: 32 anos

O que faz: empresária, fundadora da marca de cosméticos Kapeh

Por que está aqui: Apontada pela ONU como uma das dez empreendedoras de 2010, usa um modelo de negócios baseado em práticas sustentáveis do cultivo do grão ao uso de mão de obra

Foi a ONU que disse. Em abril deste ano, a Unctad, Conferência para o Comércio e Desenvolvimento da Organização Mundial das Nações Unidas, elegeu as dez melhores empreendedoras do mundo. O prêmio Empretec Women in Business, entregue em Genebra, procurou mulheres em diversos países e, entre as que foram até Genebra em 2010, estava a mineira Vanessa Vilela, 32 anos. Em 2007, a empresária criou a marca de cosméticos Kapeh, que usa o café como matéria-prima, resultado de três anos de estudos e de parcerias com universidades e institutos de pesquisa. A ONU definiu a Kapeh como uma empresa com forte senso de responsabilidade social. "O café é pouco explorado na indústria cosmética e é rico em substâncias antioxidantes, que combatem o envelhecimento", diz Vanessa, que cresceu entre os cafezais da família em Três Pontas (MG), um dos maiores produtores do grão no País. Toda a produção é rastreada por uma entidade internacional e usa apenas agricultura sustentável. Foi por conta dessa combinação de criatividade, oferta de emprego responsável e sustentabilidade que a empresa ganhou destaque. "Vanessa fez um planejamento excepcional e preocupou-se com questões socioambientais. Um xampu feito pela Kapeh não é só um xampu. É o tipo de produto que deveria dominar o mercado", diz Afonso Rocha, diretor superintendente do Sebrae de Minas Gerais. Se não bastasse, os números provam o sucesso de Vanessa: a Kapeh passou de 40 para 200 pontos de venda em 3 anos e hoje exporta para Portugal e Holanda.

Peixe poliglota

Os animadores que criaram o desenho visto em 60 países preparam agora um filme

Idade: 47 anos e 44 anos

O que fazem: donos da produtora TV PinGüim, que faz o desenho Peixonauta

Por que estão aqui: a animação desbancou sucessos tradicionais e é o desenho mais visto do Discovery Kids, além de ser exportado hoje para 60 países

Um peixinho vestido com uma roupa parecida com a de um astronauta, criado por animadores brasileiros, está fazendo sucesso entre crianças de mais de 60 países. O desenho Peixonauta, lançado em 2009, está indo agora para sua segunda temporada no canal Discovery Kids, em que virou campeão de audiência e desbancou sucessos como Lazytown e Backyardigans. Foi criado nas salas da produtora TV PinGüim, em São Paulo, de Célia Catunda, 44 anos, e Kiko Mistrorigo, 47, que se preparam agora para fazer um longa-metragem com o personagem. "Essa vai ser a primeira vez que o peixe visita uma cidade grande como São Paulo", diz Célia.

Educativo e divertido, o protagonista é um peixinho que deixa o mundo submerso vestindo uma espécie de escafandro abastecido com água — e não oxigênio, claro — para viver aventuras em terra firme, sempre norteadas por questões ecológicas. Peixonauta luta para proteger rios, animais e florestas. A ideia surgiu enquanto Célia assistia a uma palestra e riscava um papel em seu colo. No lugar dos rabiscos que geralmente desenhamos, ela fez os primeiros traços do bichinho que hoje é dublado em espanhol, inglês, turco e árabe. Exibido em toda a América Latina, o desenho tem ainda a música de Paulo Tatit, do grupo Palavra Cantada, que mistura ritmos como samba, baião e forró.

"As crianças se identificam com o jeito do peixinho viajante. Ele responde a perguntas que os pequenos sempre fazem", diz Célia. "Peixonauta vê tudo como uma novidade, que é o mesmo olhar que a criança tem sobre o mundo", diz. Os trabalhos sempre têm as quatro mãos desses dois que foram colegas de faculdade. "É esse bate-bola que faz as coisas andarem. Desde o começo, ela desenhava os personagens e eu gostava de trabalhar na finalização, montagem e efeitos", diz Kiko, sobre a sintonia fina que logo estará na tela dos cinemas.

Erudito, quase pop

Vitor Araújo mistura Radiohead e Villa-Lobos e é uma das promessas da música brasileira

Idade: 21 anos

O que faz: é pianista

Por que está aqui: Vitor vem sendo apontado como promessa da música nacional por conta de suas misturas inusitadas

Ao subir no palco, o músico recifense Vitor Araújo, 21 anos, arranca alguns suspiros das garotas que, eventualmente, estejam na plateia. Ele aparece usando tênis All Star e camiseta preta e deixa os cabelos caírem sobre o rosto quando toca sua versão para a melancólica Paranoid Android, da banda de rock inglesa Radiohead. Seu instrumento não é uma guitarra nem uma bateria. Vitor é um pianista erudito — ou quase isso — que mistura em seus arranjos influências tão diferentes quanto Heitor Villa-Lobos, Johann Sebastian Bach, Luiz Gonzaga e Chico Buarque, que estão em seu CD e DVD de estreia TOC — Ao Vivo no Teatro de Santa Isabel, lançado há dois anos.

Em 2008, Vitor foi uma das sensações do festival Abril Pro Rock, em Recife (PE) e, entre atrações claramente roqueiras, seu show foi considerado um dos pontos altos do evento. Além da música, seu carisma no palco contou pontos. "Ele tem boa técnica e repertório", diz Vinícius Mesquita, crítico musical e colaborador do jornal Folha de S.Paulo, que só vê alguma ressalva nos arroubos performáticos de Vítor. É que o menino sobe no piano, toca com os pés, usa o instrumento para fazer percussão, declama algumas poesias e deixa o palco em um impulso. Os críticos podem até fazer bico, já que trata-se de um instrumentista erudito, mas é justamente esse jeitão que está fazendo a fama do pianista. Diante do público selecionado do TEDx, Vitor foi descrito como uma das maiores promessas da música no País. O evento reuniu, no final de 2009, pensadores brasileiros de diversas áreas e o pianista foi o representante musical.

Os olhos se voltaram para o garoto quando, aos 18 anos, ele tocou na série "Piano Solo", no Rio de Janeiro, em que abriu as apresentações de João Donato, compositor, pianista e arranjador brasileiro, e fez bonito no mesmo palco em que tocaram Cesar Camargo Mariano e Marcos Valle por conta de suas misturas. "Eu estudei erudito desde os 9 anos, mas gostava de escutar MPB e jazz. Foi um processo absolutamente natural mesclar essas coisas", diz Vitor, que assume estar em busca de uma espécie de personagem para suas apresentações. "Eu quero agora pesquisar teatro para usar bons textos no palco", diz. Assim, ele deve trazer ainda mais poesia para o público. Dessa vez por meio das palavras dos autores de que mais gosta.