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GENÉTICA - O segredo da metástase

Publicado em 07 agosto 2000

Por DÉCIO VIOTTO
Ao identificar genes que fazem o câncer se disseminar pelo corpo, pesquisadores abrem caminho para tratamentos mais eficazes no futuro. Duas pesquisas divulgadas na semana passada foram portadoras de uma excelente noticia: cientistas conseguiram decifrar processos químicos que fazem o câncer espalhar-se pelo corpo. A expansão dos tumores para outros órgãos, conhecida como metástase, é responsável por 90% das mortes causadas pela doença. Publicados na última edição da revista Sature, os estudos se concentram no melanoma maligno, o mais feroz dos tumores de pele. Cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts identificaram 32 genes ativos nas células do melanoma. Notaram que esse repertório genético não se manifestava em células sadias. Testes em ratos mostram que a presença de um dos genes, o RhoC, torna o melanoma 50 vezes mais invasivo. Dois outros genes revelaram-se poderosos coadjuvantes. Um deles fabrica a proteína fibrinectina, que estimula a dispersão das células doentes. Outro produz o hormônio angiopoetina, que ativa a circulação sanguínea no tumor. "Cada um desses genes fornece pistas para o tratamento do melanoma", diz Richard Hynes, um dos autores da pesquisa. O segundo estudo divulgado, fruto de pesquisas de cientistas em vários países, acompanhou vitimas do melanoma e dividiu-as em grupos, segundo a forma como a doença se manifestou. Foram encontrados 200 genes com algum papel na evolução do tumor de pele. A combinação desses genes determina se a doença evoluirá de forma severa ou amena. "No futuro, teremos testes de diagnóstico que definirão precocemente a evolução que a doença vai ter", anuncia Paul Meltzer, um dos autores do trabalho. O melanoma maligno pode ser curável se não tiver se espalhado para outros lugares do corpo. Quando há metástase, toma-se altamente letal. Mata 90% das vitimas ate cinco anos depois da eclosão da doença. O mecanismo da metástase sempre foi um mistério para os cientistas. Para um tumor florescer, e preciso que as células se multipliquem desordenadamente. Mas isso não hasta para disseminar a doença pelo corpo. O crescimento desordenado produz tumores localizados, que podem ser removidos cirurgicamente. O maior desafio era justamente entender como se da a dispersão de células malignas pelo corpo. Sabe-se que as células da metástase têm uma configuração genética que as habilita a vencer barreiras. Elas mergulham no turbilhão da corrente sanguínea e resistem às defesas imunológicas. Não existe outra doença cuja base genética tenha sido tão investigada como o câncer. Não é para menos: são mais de 5 milhões de mortes por ano, em todo o mundo. O Brasil tem um papel importante nessa corrida cientifica. Está em curso no país o projeto Genoma Câncer, com o objetivo de mapear genes de tumores. Há 31 laboratórios nacionais envolvidos na iniciativa. O Brasil só perde para os Estados Unidos no número de pesquisas que decifram geneticamente células cancerosas. Não se pode vislumbrar a cura, mas os estudos recentes ao menos ajudam a entender a gênese da doença. São conhecimentos que vão nortear novos exames e tratamentos. Deter a moléstia e um sonho que começa a tomar forma. O código do vibrião Mapeados os genes do micróbio que causa a cólera O Vibrío cholerae, bactéria causadora da cólera, acaba de ter seus 3.885 genes seqüenciados por três centros de pesquisas. O DNA do vibrião é distribuído em dois cromossomos. Um deles contém três vezes mais genes que o outro. A descoberta, também publicada na Nature, na semana passada, levara ao desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas para combater a doença. Nos últimos dois anos, a cólera atingiu meio milhão de pessoas no mundo. Matou 20 mil delas. Se diagnosticada rapidamente, pode ser tratada com antibióticos sem deixar seqüelas.