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Unesp

Genética influencia comportamento alimentar em adolescentes

Publicado em 26 março 2013

Por Genira Chagas

Enfermidades como diabetes, obesidade, hipertensão arterial e colesterol elevado não são exclusivas de adulto. Essas disfunções metabólicas passaram a ser observadas também em adolescentes com a atenção de pesquisadores para esta faixa etária. È o caso, por exemplo, de um estudo que investigou a influência de polimorfismos, ou variações, nos genes envolvidos no metabolismo de lipídios.

Desenvolvida na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, Câmpus de Araraquara, a pesquisa avaliou, ainda, a combinação do efeito desses polimorfismos com o estilo de vida. Além disso, analisou a influência dessa associação sobre riscos para doenças crônicas. “No grupo dos jovens com polimorfismos nos genes estudados, em torno de 30% apresentaram níveis anormais de lipídios, ou gordura, no sangue, chamada dislipidemia”, cita a autora Emilia Alonso Balthazar.

Do ponto de vista epidemiológico, lembra a orientadora Maria Rita Marques de Oliveira, este trabalho traz grande contribuição. “Ele explica a razão pela qual alguns grupos são mais suscetíveis a fatores ambientais”. Por exemplo, porque um adolescente magro pode apresentar colesterol elevado, fato impensável para leigos; ou porque alguns não respondem bem ao tratamento baseado em dieta alimentar ou prática de atividade física. A professora do Instituto de Biociências (IB), Câmpus de Botucatu, comenta também o ineditismo do trabalho, que promove interface entre a pesquisa básica e a aplicada.

Origem do estudo

Segundo a autora da tese, co-orientada pela professora da Unimep Rozangela Verlengia, a advertência para a existência de problemas metabólicos de origem genética em adolescentes ocorreu em seu mestrado, concluído em 2008, quando foi verificado grande número de adolescentes com alterações no perfil lipídico, não explicáveis por fatores ambientais e fisiológicos. “Por esta razão, supusemos que poderia haver outras variáveis influenciando essas alterações, como as genéticas”, explica.

Emilia partiu para a analise bioquímica nos níveis de insulina, glicose, triglicerídeos, colesterol total e frações e da apolipoproteína “Apoa1”, relacionada aos polimorfismos ligados ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares. As amostras de sangue foram coletadas em 214 escolares da região de Piracicaba (SP), inclusive moradores da zona rural, na faixa etária em torno de 11 anos.

Aliado à amostragem bioquímica, a pesquisadora também procurou identificar possíveis alterações na cadeia dos genes envolvidos no metabolismo lipídico, responsáveis pelo processamento da gordura que circula no organismo. Disfunções nesse metabolismo podem resultar em doenças cardiovasculares, obesidade, hipertensão arterial e diabetes. De acordo com a autora, as análises genéticas foram realizadas no Laboratório de Toxigenômica e Nutrigenômica da Faculdade de Medicina (FM), Câmpus de Botucatu.

Emilia ressalta que este trabalho, financiado pela Fapesp, é parte de um projeto maior intitulado “Fatores determinantes do risco de obesidade em adolescentes de escolas públicas de Piracicaba: estudo transversal como primeira etapa de um estudo de corte”, realizado em conjunto pela USP, Unesp e Unimep, sob coordenação da professora Betzabeth Slater, docente da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Disfunções metabólicas genéticas

Os genes humanos são codificados pelos alelos A, T, G, C, correspondentes às bases nitrogenadas Adenina, Timina, Guanina e Citosina que compõem o DNA. Uma longa sequência de DNA equivale a um cromossomo com vários genes e funções específicas nas células dos seres vivos. Os genes de metabolismo lipídico estudados por Emilia foram a apolipoproteína “ApoA”, correspondente a 80% de toda proteína de alta densidade (HDL); a enzima “LIPC”, que exerce papel importante no metabolismo do HDL; e os alelos “ApoE2” e “ApoE4” da apolipoproteína “ApoE”, relacionada a doenças cardiovasculares.

Os adolescentes que apresentaram mutações reagiram de forma diferente ao consumo de nutrientes e à prática de atividade. Naqueles que ingeriram mais carboidratos e que possuem o alelo “T” no gene “ApoA1”, observou-se maior concentração de triglicerídeos e baixa concentração de HDL no sangue, em relação aos jovens portadores do mesmo alelo mutante, mas com um menor consumo de carboidrato.

Os escolares portadores do alelo “C”, considerado não mutante, reagiram bem à prática de atividade, diminuindo a concentração de triglicérides, algo não verificado nos portadores do alelo “T”. Chamado de bom colesterol, o HDL age impedindo o depósito de gordura nas artérias. Quando o HDL aparece em baixa concentração, pode ocorrer acúmulo de placas de gordura.

Independente do consumo de alimentos, os jovens com o alelo “T” mutante para o polimorfismo no gene “LIPC”, além dos níveis elevados de triglicerídeos, eles apresentaram intolerância à glicose e cintura de risco – quando há acúmulo de gordura na região abdominal. Os triglicerídeos são moléculas de gordura, cuja principal função é a produção de energia para o funcionamento do organismo.

Nos jovens com mutações nos genes associados a doenças crônicas cardiovasculares – chamadas mutações missense (ApoE) – foram observados níveis anormais de HDL, LDL (lipoproteína de baixa densidade) e pressão arterial elevada.

Apesar dos portadores do alelo “ApoE4” apresentarem maior fator de risco para doença crônica, esses responderam melhor a uma dieta com menor proporção de energia proveniente de carboidratos, com consequente aumento de gordura. Os que consumiram menor quantidade de carboidrato, em percentual de energia, apresentaram bons índices de colesterol HDL e LDL. Já o grupo que consumiu mais carboidrato, apresentou pressão arterial elevada. Com relação à pressão arterial, os adolescentes com mutação na variável “ApoE2” responderam melhor ao consumo de carboidratos.

Diante dessa leitura genética, a pesquisadora sugere dietas e práticas de atividades físicas direcionadas ao perfil genético do adolescente para prevenir o desenvolvimento de fatores de risco metabólico e o aparecimento de doenças crônicas na vida adulta. “Mas uma dieta para prevenção ou combate de doenças crônicas não pode ser generalizada”, enfatiza.