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Jornal da USP online

Generosidade e erudição

Publicado em 08 março 2013

Muito se fala e se teoriza acerca das qualidades que constituem um bom professor. Seu conhecimento específico, sua didática, sua visão de mundo, sua cultura ampla. Esses são ingredientes que, sem dúvida, moldam o bom mestre. Mas há uma, acima de todas essas, que melhor caracteriza aquela pessoa que dedica (ou dedicou) sua vida a ensinar: a generosidade. E é justamente essa – conjuminada a todas as outras – que melhor pode definir a carreira docente de Ivan Teixeira, que morreu no último dia 31 de janeiro, aos 62 anos.

Professor de Cultura e Literatura Brasileira do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da Escola de Comunicações e Artes da USP e professor aposentado da Universidade do Texas em Austin – onde lecionou por mais de quatro anos –, além de ter sido, por um longo período, professor de cursinho – aquela arena onde um professor se vê cercado muitas vezes por mais de uma centena de alunos ávidos por aprender rápido aquilo que os levará à universidade –, Ivan cativava seus alunos exatamente por ser, ao mesmo tempo, generoso e exigente, culto e afável. Como bem definiu o poeta e também professor Frederico Barbosa, ele era um “entusiasmado pelo ensino, fez várias gerações de estudantes se aproximarem da literatura e sempre dividiu com generosidade e alegria seu vasto conhecimento”.

Esse “vasto conhecimento” ao qual se refere Barbosa se baseava, principalmente, no muito que ele sabia e conhecia de literatura brasileira. E que ele deixou para a posteridade na forma dos 14 livros que prefaciou, organizou e anotou. São obras fundamentai, como a edição fac-similar de Música do Parnaso, de Manuel Botelho de Oliveira; Poesias, de Olavo Bilac; Obras Poéticas, de Basílio da Gama. Além deles, Ivan Teixeira escreveu pelo menos duas obras essenciais para a cultura e a literatura nacionais: Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica (Edusp/Fapesp, 1999), que recebeu, na categoria ensaio, o Lasa Book Prize (Estados Unidos) e o Prêmio Jabuti, em 2000; e  O Altar & o Trono: Dinâmica do Poder em O Alienista (Ateliê/Unicamp, 2010), que  ganhou o Prêmio José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2011.

Quem foi seu aluno, vai sentir falta da troca sempre profícua, da didática apurada, da palavra bem medida, da erudição sem pedantismo. Quem privou de sua amizade, está agora órfão da fala mansa e tranquila, do uso de diminutivos como forma de tratamento para pessoas mais próximas, das histórias e anedotas contadas com sabor e arte, do companheirismo acima de tudo. Ficam sua memória e seus livros, a extensão de sua voz e conhecimento.

O adeus a Zanini

Aos 87 anos, o professor Walter Zanini se despede do cenário das artes plásticas brasileiras. Ele morreu no dia 29 de janeiro, após prolongada doença, deixando a arte brasileira de luto. Nasceu em São Paulo, em de 21 de maio de 1925.

Visionário e inovador, consenso no mundo artístico, Walter Zanini revitalizou a 16ª e a 17ª Bienal Internacional de São Paulo, ampliou o acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, quando foi seu diretor, de 1963 a 1978, com obras em vídeo e fotografia, linguagens então incipientes no mundo das artes contemporâneas.

Foi um dos mais respeitados críticos de arte do País, sendo responsável pela supervisão da mais ambiciosa obra sobre a evolução da arte brasileira, História Geral da Arte no Brasil, em dois volumes, com mais de 1.500 páginas.

Zanini ampliou o acervo do MAC de 1.600 obras para 2 mil, formando uma biblioteca de 4 mil volumes na época. Atualmente o MAC conta com mais de 10 mil obras, entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas.
Pioneiro no incentivo a novas formas de arte, como videoarte, revelou nomes que, nos anos 70, ainda eram consideradas marginais, como Julio Plaza.

Ao promover retrospectivas de pintores como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Vicente Rego Monteiro, entre outros, tornou-se figura fundamental para a reavaliação da produção modernista no Brasil.
Professor Emérito da USP, idealizou e ajudou a implantar os cursos de graduação e pós-graduação em artes plásticas na Escola de Comunicações e Artes da USP. Em 1956, formou-se em Arte e Antropologia pela Universidade de Paris, dando continuidade ao doutorado na mesma instituição. Suas ações não se restringiram ao Brasil. Promoveu e organizou mostras na Bélgica, França, Itália e Suíça, sendo um dos primeiros a reconhecer o valor da artista de origem suíça Mira Schendel, que se radicou em São Paulo e hoje é considerada um dos principais vetores da arte contemporânea.
Dirigindo o MAC no auge da ditadura, Zanini criou um espaço de incentivo à produção e à reflexão. Graças à sua ação, o MAC alcançou uma forte inserção no circuito internacional, que lhe rendeu um dos mais amplos acervos de arte conceitual do período, incluindo a arte postal.

Zanini andava na contracorrente, desafiando as convenções e olhando sempre para o futuro. Seu talento como visionário pode ser avaliado quando foi o primeiro a reconhecer o papel que o pintor e escultor italiano Ernesto de Fiori (1884-1945) teve no contexto moderno, influenciando especialmente a escultura brasileira.
Devido à sua forte atuação e defesa a videoarte no Brasil, ele será homenageado na 30ª edição do Festival Videobrasil, marcado para outubro deste ano, no Sesc Pompéia.