Notícia

Revista Marketing

Geladeira cheia, bolso vazio

Publicado em 01 dezembro 2006

Menos de um mês depois da realização do seguido turno das eleições presidenciais de 2006, a LatinPanel, maior empresa de sondagem de consumo domiciliar da América Latina, revelou estudo comprovando a melhoria das condições de vida e do poder de compra para famílias pertencentes às classes mais pobres no Brasil Esse público, segundo aponta ram pesquisas de intenção de voto, confirmadas nas urnas, foi determinante para a vitória do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para mais quatro anos de governo.
Marcado pela expansão do consumo população no primeiro mandato do ex-operário possibilitou que milhares de brasileiros conseguis sem acesso à alimentação de melhor qualidade, por meio do programa Bolsa Família, e ao planejamento de compras, com o surgi mento de linhas de crédito consignado. As classes D e E, com rendimento mensal de até R$ 1.400,00, elevam de 21 para 27 o número de categorias da cesta de compras padrão. Sucos em pó, massas instantâneas, caldos para tempero, esponjas sintéticas, extrato de tomate, salgadinhos, leite longa vida e maionese foram os itens que passa ram a figurar entre os eventuais das listas de compra da população de baixa renda. Para a diretora comercial da LatinPanel e coordenadora do estudo, Margareth Utimura, assegurar o padrão de compra é o grande desafio para o futuro. Além do aumento de 11% no volume comprado, o gasto médio com produtos de higiene pessoal e limpeza, alimentícios e bebidas cresceu 35% de janeiro de 2003 para agosto de 2006.
Ao considerar todas as 8,2 mil famílias brasileiras consultadas nos últimos quatro anos, independentemente de classe social, a evolução do volume médio consumido foi de 5%, enquanto o gasto médio com as cestas avaliadas expandiu 31%. Por conta disso, a taxa de penetração, ou o percentual de domicílios compradores, das 70 categorias avaliadas pela LatinPanel, avançou 15% entre a população de baixa renda. Na classe C e nas classes A e B também houve aumento, mas em números menores: de 10°/a e 5°/a, respectivamente.
Fora isso, aconteceu uma migração entre as classes. "Foram 2,15 milhões de brasileiros que elevaram sua renda e posse de bens, ganhando destaque no consumo e ascendendo de classe social. A importância da classe C na população, por exemplo, sai de 33% para 37%", informa Margareth, que apresenta às empresas um roteiro simplifica do de formas de abordagem por classe. "As companhias devem se preocupar em oferecer acesso às classes De E", diz. "Para a classe C, a manutenção do padrão de compras pode ser conseguida via customização, por diversificação de embalagens e de marcas. Por outro lado, fidelização é a palavra de ordem para as companhias que preferirem trabalhar com as classes A e B."
Consumidores das classes C, D e E também foram os protagonistas de uma pesquisa realiza da pelo Núcleo de Estudos em Marketing Aplicado do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Mackenzie, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. De acordo com ela, fatores relacionados à inclusão social e digital são fortemente percebi dos por esse público. Dos 420 entrevistados, 88% disseram que o surgimento do celular facilitou a comunicação entre amigos e familiares. Depois de adquirirem uma versão do aparelho, 45% afirmaram ter mais vontade de freqüentar eventos culturais, como shows, teatro e cinema; 44%, de continuar os estudos;42%, de aprender a usar computadores; e 40%, de mudar de emprego.

Endividamento nacional
O problema é que assim como as compras, as dívidas dos consumidores também foram amplia das. Em 2005, a oferta de crédito pessoal cresceu 42%, impulsionada principalmente pelo crédito consignado com desconto em folha de pagamento. Já em janeiro de 2006, a oferta desse tipo de crédito atingiu R$ 33,159 bilhões, ou 75% mais que no mesmo período do ano anterior. Com isso, a participação do crédito consignado no total de crédito pessoal subiu de 37,2% para 45,8% no período. Como resultado, no primeiro bimestre deste ano o índice de consumi dores endividados no Brasil era de 65%, dos quais 39% possuíam contas em atraso e 22% declaravam não ter condições de saldar suas dívidas.
Com base nesse e em outros números sobre o endividamento da população brasileira, o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente lançou no final de outubro uma série temática sobre o Consumo Consciente do Dinheiro e do Crédito. Composta por quatro publicações, a coleção, patrocinada pelos bancos Real e lbis e pelo Grupo VR, mostra ao consumidor como é possível atender aos interesses econômicos e objetivos individuais de cada um, contribuindo para a sustentabilidade planetária. "Ao refletirmos sobre o uso consciente do dinheiro e do crédito, despertamos para a importância de nossas decisões cotidianas, tanto para o nosso bem-estar hoje e no futuro quanto para a sustentabilidade de nossa sociedade e do meio ambiente", observa o diretor-presidente do Instituto Akatu, Helio Mattar.
De acordo com ele, a idéia do projeto é incentivar o equilíbrio e o planejamento financeiro dos consumidores. "Buscamos combinar os elementos que constituem o contexto do uso do dinheiro e crédito com dicas práticas e informações mobilizadoras para a mudança de comportamento do consumidor na direção do bem-estar pessoal e da sustentabilidade da sociedade humana."