Notícia

Revista Valor Especial

Garimpagem no setor privado

Publicado em 31 outubro 2018

Por Guilherme Meirelles

As startups dispostas a colocar o pé no acelerador em 2019 devem manter atualizadas as suas agendas de relacionamento com potenciais investidores-anjo e fundos de venture capital. Caso contrário, serão obrigadas a se resignar com a escassez de recursos das verbas públicas. Os recentes casos de "unicórnios" (empresas digitais com valor acima deUS$ 1 bilhão) registrados este ano, como a 99, a PagSeguro e o Nubank, provaram aos investidores ser possível apostar e ganhar dinheiro com propostas inovadoras no mercado brasileiro. "As startups já movimentam anualmente entre R$10 bilhões e R$12 bilhões no país. O apetite dos fundos aumentou em 2018. Espero que surjam dez 'unicórnios' em 2019", projeta Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), que estima a presença de aproximadamente 10 mil empresas no Brasil.

De acordo com números da Associação Brasileira de Priva te EquityVenture Capital (Abvcap) junto a ISS gestores nacionais e estrangeiros, o capital comprometido em fundos de priva te equity fechou em R$ 8,3 bilhões em2017, ante R$ 6,1 bilhões no ano anterior. O capital para investimentos encerrou o ano com R$ 2,3 bilhões. Embora não haja números parciais de 2018, o montante deve se tornar o recorde histórico do setor.

No primeiro semestre, por exemplo, a startup de mobilidade urbana 99, com apenas seis anos de vida, foi vendida para a chinesa Didi Chuxing, o maior aplicativo de transporte da China, com 4SO milhões de usuários, por valor não revelado. E não se pode dizer que tenha sido um ponto fora da curva. A Movile, dona dos aplicativos iFood (entrega de comida), Zoop (processamento de pagamentos) e Sympla (venda de ingressos), recebeu um aporte deUS$ 124 milhões do grupo sul-africano Naspers, que já havia investido US$ 375 milhões em outras rodadas. Houve ainda o IPO da PagSeguro na Nasdaq.

A empresa de meio de pagamentos do grupo UOL levantou US$ 2,3 bilhões, o que revelou o forte potencial de mercado que as fintechs podem conquistar no mercado nacional. O banco digital Nubank, controlado por fundos de venture capital, também ganhou o status de "unicórnio", ao anunciar que já recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos.

Segundo Humberto Matsuda, membro da Abvcap e sócio-gestor da Performa Investimentos, operações dessa grandeza demonstram que o investidor já adquiriu um estágio de maturidade, superando o sentimento de empolgação em anos anteriores. "O principal erro era tentar replicar no Brasil o que se fazia no Silicon Valley. Hoje, o investidor entende melhor o comportamento do brasileiro, que tem menos acesso à educação e é resistente aos aplicativos em um primeiro momento. Sem falar dos custos e encargos trabalhistas, que são bem mais caros que nos Estados Unidos", afirma.

Alguns ramos despertam mais atenção, diz Matsuda, como fintechs, healthtechs, agritechs e aplicativos de mobilidade urbana. "A preferência é por empresas B2B, que estejam na nuvem e em um estágio mais maduro, com receita recorrente", diz.

Para quem ainda não tem fôlego para atrair o interesse de um grande fundo, o primeiro passo pode vir por meio de um investidor-anjo, uma alternativa que cresce ano a ano- saltou de R$ 450 milhões em 2011 para R$ 984 milhões em 2017, segundo estudo da Anjos do Brasil, organização que reúne 350 pessoas focadas em investir em startups em estágio inicial, que tenham como diferencial a inovação e o potencial de crescimento.

"As startups nos procuram, e nós as colocamos em contato com os investidores. Em sete anos, investimos em cerca de 80 startups", afirma Maria Rita Spina, diretora- executiva da Anjos do Brasil. Algumas decolaram e se tornaram mais robustas, como as fintechs Quero Quitar e Easy Crédito e a Trakto, de marketing digital.

O cenário aparenta ser alentador, ainda mais em um período de lenta recuperação da economia. Porém, o entusiasmo com o ecossistema nacional de startups contrasta com o clima de expectativa e apreensão das tradicionais fontes de recursos públicos para ciência, pesquisa, tecnologia e inovação, que foram atingidas em cheio pelos impactos da Emenda Constitucional 95 (desdobramento da PEC 55), conhecida como Lei do Teto dos Gastos Públicos, pela qual os gastos federais só poderão ser executados com base na inflação (medida pelo IPCA) acumulada do ano anterior, no caso 2,95% em 2017.

Além da Lei do Teto, o governo federal adotou, no final de 2018, uma política de contingenciamento das verbas arrecadadas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), importante fonte de verbas para os programas de apoio tanto da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep) como do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

"Da arrecadação prevista de R$ 5,6 bilhões para 2019, conforme proposta orçamentária enviada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), cerca de R$ 3,5 bilhões deverão ficar retidos em um fundo de reserva de contingenciamento para pagamento de despesas visando a redução do déficit primário", lamenta Marcos Cintra, presidente da Finep. Além do FNDCT, a medida do governo atinge também os fundos da área de telecomunicações (Fust, Fintei e Fistel).

No sentido de sensibilizar os parlamentares, o presidente do CNPq, Mário Borges Neto, encaminhou uma carta ao Congresso solicitando uma revisão da dotação orçamentária para 2019, prevista inicialmente em valores abaixo ao que foi ofertado em 2018, que foi de R$ 1,2 bilhão. "O valor inicial era de R$ 800 milhões e conseguimos mais R$ 200 milhões. Mas é insuficiente para o lançamento de editais e contratações de novos projetos. Precisaríamos de R$1,2 bilhão mais a inflação de 2017", diz Borges.

Atualmente, o CNPq tem uma carteira de 100 mil bolsas ativas em diversas áreas. O programa Talentos para a Inovação, em parceria com a Capes, oferece cem bolsas, entre R$ 4 mil e R$ 7 mil, para alunos que participaram do projeto Ciência Sem Fronteiras e que desejam prosseguir com suas ações. Há ainda um projeto exclusivo para startups, que conecta empreendedores e aceleradoras, com bolsas de até R$ 200 mil, além de um programa de bolsas para doutorado, com parceria entre universidades e grandes indústrias, como a Mercedes-Benz. "Espero que o próximo presidente olhe com mais atenção a ciência e a inovação", diz Borges.

Sócio da Bossa Nova, maior fundo de micro venture capital do Brasil, com 354 aportes, João Kepler teve a curiosidade de pesquisar os programas de governo dos 13 candidatos à Presidência e constatou que expressões como startup, empreendedorismo, inovação digital e investimentos na área são raramente citadas. "O resultado foi péssimo para quem espera iniciativas para o ecossistema. Não encontrei nada que me chamasse a atenção. Mas não acredito em retrocesso", diz.

Independentemente do próximo governo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) iniciou em 2017 uma inversão em suas prioridades de investimento. Segundo Eliane Lustosa, diretora de investimentos e infraestrutura do BNDES, a intenção é seguir no mesmo caminho em 2019. "O banco tem hoje R$ 84 bilhões em uma carteira concentrada em poucas e boas empresas. Em 2017, desinvestimos R$ 6,6 bilhões, e mais R$12 bilhões neste ano. O objetivo é sair gradativamente das grandes companhias e viabilizar empresas menores", afirma.

Para 2019, está previsto o lançamento da quarta edição do fundo Criatec. Lançado em 2007, o Criatec é uma iniciativa que reúne o BNDES (com participações entre 80% e 59%, de acordo com cada uma das três edições), gestores e investidores no financiamento a startups. Juntos, os fundos contam com R$ 503,5 milhões de capital comprometido em 83 startups.

Ainda em fase de ajustes finais, o BNDES deve anunciar em breve o Fundo de Coinvestimento Anjo, que irá direcionar tíquetes entre R$ 100 mil e R$ 500 mil para cerca de 100 startups que tenham faturamento de até R$ 1 milhão. "Além dos aportes, os investidores serão corresponsáveis pela aceleração e mentoria dos empreendedores", diz Lustosa.

Com orçamento oriundo de 1% da receita tributária do Estado, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) deve encerrar o ano com um volume de desembolsos equivalente ao do ano passado- R$ 1,058 bilhão para 24.026 projetos de pesquisa científica e tecnológica. "Espero que haja estabilidade da economia para que possamos buscar mercados internacionais", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.

Em setembro, a Fapesp anunciou o apoio a três novos projetos envolvendo empresas paulistas em conjunto com o National Research Council of Canada. Os projetos fazem parte do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), um dos programas de maior adesão da Fapesp. Segundo Cruz, entre setembro/2017 e agosto/2018, foram feitos desembolsos em 169 projetos, recorde histórico do programa, iniciado em 1997.