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Ministério do Planejamento

Gargalo tecnológico

Publicado em 14 abril 2010

Liderança do Estado de São Paulo na produção de pesquisa científica esbarra em deficiências do ensino médio

SÃO PAULO responde por cerca de 21% da população brasileira e 31% do PIB nacional, mas produz mais de 50% da pesquisa científica no país. Há razões históricas para tal desempenho -desde a fundação da USP, em 1934, à adoção, décadas depois, de parcelas fixas da arrecadação para financiar as três universidades estaduais e uma fundação de amparo à pesquisa (Fapesp).

A receita estável contribui para o Estado manter um nível de dispêndios em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de 1,52% de seu PIB, superior à média brasileira de 1,2%, segundo dados de 2008.

Em paralelo, vem diminuindo a dependência de verbas públicas -inclusive das parcelas decrescentes dos fundos federais- para sustentar esse investimento, estratégico do ponto de vista da competitividade econômica. Em 2008, 62% dos R$ 13,5 bilhões investidos vieram de empresas privadas.

Apesar das boas novas, há um gargalo à vista. Não será trivial superá-lo, mesmo elevando a despesa com P&D para 2,3% até 2020 - meta estabelecida para conduzir o Estado à média de investimento dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O diagnóstico partiu de Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, na abertura da Conferência Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O brilho relativo da pesquisa paulista no contexto nacional e latino-americano -o Estado encontra-se à frente de México, Argentina e Chile em produção científica- empalidece quando os termos da comparação são globais. Países de população similar à paulista, como Coreia do Sul e Espanha, produzem três vezes mais P&D que São Paulo.

O problema não está na produtividade, pois cada pesquisador do Estado publica, na média, um número de estudos comparável ao dos pares espanhóis e sul-coreanos. É de quantidade, mesmo, que se trata: conta-se apenas 0,8 cientista para cada grupo de mil habitantes no Estado (o que fica dentro da média latino-americana). Seria necessário, portanto, triplicar o número de pesquisadores -nos próximos 15 anos, como defende Brito Cruz.

O fator limitante, segundo o diretor da Fapesp, não se encontra no sistema de educação superior, pois a quantidade de vagas por ele oferecida no Estado já seria maior que a de egressos do ensino médio. Este é o gargalo real: faltam formandos do segundo grau, e formandos com boa formação, para sustentar o aumento paulatino do contingente de pesquisadores, que dobrou de 25 mil para 50 mil de 1995 a 2008.

Segundo dados de 2007, só dois terços dos alunos paulistas concluíram o ensino médio até os 19 anos, a idade recomendada. A nota desse nível de ensino na rede estadual pública paulista, registrada no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação), está em 3,4, abaixo da média do Sudeste (3,7) e até da nacional (3,5).

Não é a primeira vez que se identifica o ensino médio como calcanhar de aquiles da educação brasileira e paulista. Agora fica mais evidente que ele também ameaça a ciência, a tecnologia e a capacidade de inovar do Estado e, por extensão, do país.