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Ganho de massa muscular é equivalente para quem tem dieta onívora ou vegana, diz estudo

Publicado em 09 junho 2021

Estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) indica que para ganhar massa e força muscular, o mais importante é atentar para a quantidade de proteína ingerida do que para a origem do nutriente. A pesquisa teve como objetivo comparar o efeito de treinos de musculação em voluntários que mantiveram dietas onívoras e veganas, ambas com teores proteicos considerados adequados. O estudo, que faz parte do mestrado de Victoria Hevia-Larraín, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi publicado na revista Sports Medicine .

Os pesquisadores avaliaram por 12 semanas 38 jovens adultos saudáveis, sendo 19 onívoros e 19 veganos. Além dos treinos planejados para o ganho de massa (hipertrofia) e força muscular, os voluntários foram submetidos a dietas mistas, ou seja, com fontes proteicas animais e vegetais, ou exclusivamente à base de plantas. Ambas as dietas possuíam teor indicado de proteína, de 1,6 grama por quilo corporal por dia. Ao final dos três meses, não foi verificada diferença no percentual de ganho de massa e força muscular entre os indivíduos veganos e onívoros.

“Assim como qualquer outra proteína do nosso corpo, entre elas as que compõem as células da pele e do cabelo, que morrem e são renovadas, os músculos diariamente passam por períodos de síntese e de degradação. Alimentação [ingestão de proteínas] e exercício físico são os principais reguladores do processo de balanço proteico, favorecendo a síntese sobre a degradação”, explica à Agência Fapesp Hamilton Roschel, autor do estudo e um dos coordenadores do Grupo de Pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutrição da Escola de Educação Física e da Faculdade de Medicina da USP.

O valor da fonte proteica está associado ao seu perfil de aminoácidos essenciais, especialmente a leucina, que é um aminoácido-chave no processo de estimulação anabólica para o músculo esquelético. “As proteínas de origem animal têm mais leucina do que as de origem vegetal. Como esse aminoácido é essencial no processo de sinalização do estímulo anabólico, especula-se que uma alimentação à base de vegetais resultaria em menor conteúdo de leucina e, portanto, a um estímulo anabólico também reduzido, o que afetaria o potencial de indivíduos veganos de ganhar massa muscular”, aponta Roschel.

A maioria dos estudos sobre o tema visou analisar o mecanismo da resposta anabólica aguda do músculo em função da fonte proteica em condição laboratorial e não o ganho de massa muscular em si. Por isso, os pesquisadores da USP trazem no estudo uma nova perspectiva ao realizar uma análise clínica do efeito da qualidade da fonte proteica nas transformações musculares ao comparar voluntários veganos e onívoros. “O nosso achado mostra que, se ingerirem a quantidade adequada de proteína, jovens adultos veganos não têm prejuízo no ganho de massa muscular. Na realidade, o resultado das duas dietas foi igual”, destaca Roschel.

Porém, os pesquisadores ressaltam que, para fins de controle experimental, a contribuição proteica foi equilibrada entre as duas dietas através do consumo de suplementos proteicos. Os voluntários da pesquisa receberam suplementação de proteína isolada do soro do leite (para onívoros) ou da soja (para veganos), seguindo a necessidade individual e com base no cálculo da alimentação de cada um, de forma a atingirem a meta de consumo proteico.

Ao fornecer a quantidade adequada de proteína para cada voluntário, a origem da fonte proteica – mista quanto na vegetal – não importou. “Esse nosso achado reforça outros dados da literatura que apontam que uma dieta vegana é absolutamente possível de ser completa, se bem executada e planejada. Estudos anteriores sugerem que ela é, inclusive, possivelmente mais saudável do que uma dieta onívora. Entretanto, para isso, é necessário acompanhamento nutricional adequado e até mesmo um processo de educação nutricional acerca das escolhas que o indivíduo deverá fazer ao restringir sua alimentação a fontes vegetais”, afirma Roschel à Agência Fapesp.

Ele ainda pondera que o estudo foi realizado com jovens adultos saudáveis, ressaltando que não é possível extrapolar os resultados para outras populações, como a de idosos ou de pessoas com comprometimentos de saúde. “Com a idade ocorre um fenômeno conhecido como resistência anabólica – uma resposta anabólica subótima ao estímulo da nutrição e do exercício em comparação a jovens. Ou seja, para que o idoso apresente uma resposta máxima, ele precisa de muito mais proteína do que um indivíduo jovem saudável. Portanto, é preciso ter cautela ao generalizar o nosso achado para toda a população”, conclui.