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Planeta Sustentável

Gado que come menos para ganhar peso provoca menor impacto ambiental

Publicado em 13 fevereiro 2015

Por Fabio Reynol, da Agência FAPESP

O gás metano é considerado o segundo maior contribuinte para o aquecimento da Terra, logo depois do dióxido de carbono (CO2), e estima-se que 70% das emissões desse gás provenham de atividades humanas, entre as quais a pecuária. Pesquisadores do Instituto de Zootecnia de São Paulo (IZ) concluíram recentemente um trabalho com foco no levantamento de indicadores para o melhoramento genético dos bovinos nelore, levando-se em conta a mitigação dos gases de efeito estufa (GEE) gerados na pecuária.

Uma das conclusões do projeto "Seleção para produção de carne bovina com redução de gases de efeito estufa", coordenado por Maria Eugenia Zerlotti Mercadante, foi a de que bovinos nelore que consomem menos para adquirir peso emitem quase tanto metano quanto os animais que precisam de mais alimento para chegar ao mesmo tamanho.

O trabalho durou de 2011 a 2014 e foi selecionado em um edital voltado a questões de mudanças climáticas na agropecuária, com apoio financeiro da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para a consolidação das Redes Nacionais de Pesquisa em Agrobiodiversidade e Sustentabilidade Agropecuária (Repensa).

O principal gás de efeito estufa gerado na pecuária é o metano entérico (CH4), produzido na digestão dos ruminantes e eliminado por eructação (arroto). Saber quanto o rebanho bovino de corte emite desse gás e os fatores que influenciam nas emissões são informações importantes para a sustentabilidade da atividade e o seu aprimoramento em busca da redução das emissões, de acordo com a pesquisadora. "Ainda há pouca informação a respeito das oportunidades de mitigação por meio do melhoramento genético animal", ressaltou Mercadante.

A pesquisa concluiu que há uma similaridade da quantidade de metano emitida entre animais classificados como mais e menos eficientes, considerando a quantidade de alimentos que consomem para ganhar peso. Tanto os que ingerem mais alimentos como os que ingerem menos eliminaram na atmosfera, em média, pouco mais de 140 gramas de metano por dia.

"A escolha do melhoramento, neste caso, deveria contemplar o animal mais eficiente, que vai economizar alimentação e gerar menos fezes, entre outras vantagens financeiras e ambientais", disse a pesquisadora. Ou seja, apesar de apresentar emissão similar aos dos animais menos eficientes, os mais eficientes provocam menores impactos ambientais.

Os resultados mais expressivos foram obtidos com os experimentos de gado em confinamento: o consumo dos mais eficientes foi, em média, 10% menor e a digestibilidade, que é a capacidade de absorção de nutrientes, 4% maior. A comparação foi feita pelo cálculo do consumo alimentar residual (CAR), composto pela diferença entre o consumo observado e o predito, considerando o ganho médio diário e o peso metabólico do animal (peso vivo elevado à potência 0,75) em determinado período de tempo. Animais mais eficientes possuem baixo CAR, ocorrendo o contrário com os menos eficientes.

Um dos frutos mais importantes do trabalho foi o levantamento de indicadores relacionados à eficiência de CAR de cada animal. Descobriu-se que os mais eficientes apresentam maiores concentrações dos hormônios insulina e IGF-I, além de menores concentrações de ureia no plasma sanguíneo. "Esses componentes podem ser indicadores de eficiência alimentar de bovinos nelore", afirmou Mercadante. Ela lembrou, no entanto, que o estudo se limitou a avaliar condições específicas de criação e que não necessariamente podem ser extrapoladas para outras situações. "A pesquisa analisou animais em crescimento e pode apresentar resultados diferentes no caso de animais em terminação [fase final da criação antes do abate]", exemplificou.

O projeto analisou quatro safras, em um total de 464 animais em crescimento. Em duas delas, foram acompanhados 48 animais, 24 machos e 24 fêmeas em confinamento e no pasto. (...) O trabalho incluiu ainda estudos de Economia, nos quais foram avaliados custos e receitas advindas da emissão de metano, crescimento e eficiência alimentar. "É importante saber como cada uma dessas características influenciam economicamente na produção e, portanto, qual o peso que cada uma deve ter em um programa de melhoramento genético", comentou Mercadante.

A pesquisadora ressaltou a necessidade de se ampliar os estudos de eficiência alimentar e de emissão de gases de efeito estufa a fim de abranger a amplitude que o tema demanda. "Temos somente 4 mil animais já avaliados no Brasil, o que é pouco ante o nosso rebanho, e as condições de criação são muito diferentes em cada região do país", disse.

Leia a notícia completa no site da Agência Fapesp.