Notícia

Revista DBO

Gado preto supera vermelho em adaptação

Publicado em 01 junho 2001

Por Gitânio Fortes
Experimentos no Laboratório de Bioclimatologia Animal da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no seu campus de Jaboticabal, SP, comprovaram que os animais pretos se adaptam melhor aos trópicos que os vermelhos. Os resultados constam do trabalho "Transmissão de Radiação Ultravioleta através do Pelame e da Epiderme de Bovinos", realizado pelos pesquisadores Roberto Gomes da Silva, Newton La Scala Júnior e Priscila Lombardi Bersi Pocay. No estudo foram utilizadas amostras de couro de animais recém-abatidos, na proporção de 20 x 20 cm, em necrópsias realizadas no Departamento de Patologia, Animal da Unesp-Jaboticabal. Foram oito animais: dois Nelore adultos, quatro vacas Holandesas (variedades preta e vermelha), um bezerro Holandês e um mestiço indefinido. Gomes da Silva explica o número pequeno de amostras: nenhum abatedouro comercial concordou em fornecer amostras de couro. Como elas devem ser retiradas de "local nobre" - o centro do tronco, cerca de 25 cm abaixo da coluna vertebral, as empresas não quiseram abrir mão do aproveitamento integral de todos os couros. Os pesquisadores entendem a aparente falta de cooperação. "É a mesma resistência que a biopsia enfrentaria entre os criadores", admitem. A radiação ultravioleta, essencial para a fotossíntese das plantas e para fixar o cálcio e sintetizar a vitamina D nos animais, pode causar sérios prejuízos quando em excesso. Suas ondas curtas provocam câncer de pele. Assunto exaustivamente estudado pela medicina humana, na pecuária também é motivo de preocupação. Nos Estados Unidos, 0,25% dos animais abatidos têm câncer de pele. No sudoeste desse país, onde é maior a incidência de radiação, o número de casos de câncer de olho e de vulva nos animais abatidos é duas vezes maior que a média nacional. Com o simulador solar Oriel-1000w, o único no País, que custou US$ 78.000 financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, foi possível para a Unesp-Jaboticabal reproduzir com as amostras as situações por que os animais passam no campo. O professor Gomes da Silva explica que a quantidade de radiação transmitida pelo pelame depende da cor e da estrutura do mesmo-espessura da capa (que não deve ultrapassar 5 mm), comprimento, diâmetro e densidade, dada pelo número e inclinação dos pêlos. Quanto mais finos e curtos forem estes, melhor para os trópicos. O pêlo eriçado não é bom porque forma uma camada de ar no pelame, que faz esquentar mais. AQUECIMENTO O pelame dos animais negros em geral apresenta transmissão nula ou muito baixa. Quanto à epiderme, quanto mais pigmentada, menor a transmissão de radiação por ela. Esses animais contam com mais mela-nina, cuja única função conhecida é a proteção contra os raios ultravioleta. Como, nas raças européias, a epiderme costuma repetir a cor do pelame, um animal negro seria o ideal para os trópicos. Seria, não fosse um pormenor: o aquecimento provocado pela radiação infravermelha, as chamadas ondas longas, que causam maior aquecimento, dificultando a troca de calor com o ambiente. Os experimentos demonstraram que, em vacas Holandesas, a temperatura das malhas negras atinge 44,1ºC, enquanto a das malhas brancas fica em 37,7ºC. Por isso, a combinação ideal para os trópicos é pelame branco e bem assentado - mais capaz de refletir radiação - sobre epiderme negra, característica do gado zebuíno. "A natureza se defende muito bem", entende o professor da Unesp, que enfatiza: "Nos trópicos, a radiação é mais importante que a temperatura do ar, quando o assunto é desconforto animal". Gomes da Silva relata ter observado uma vaca Holandesa com algumas áreas de epiderme negra sob pelame branco. Abre-se a perspectiva da seleção de europeus mais adaptados se for possível utilizar mais animais com essa característica. O estudo assinala que as epidermes sem pigmentação apresentam maior coeficiente de transmissão de radiação ultravioleta que as peles negras. Os valores para a epiderme vermelha ficaram perto dos animais despigmentados. Quando realizou outro experimento na Unesp sobre o comportamento das vacas, Gomes da Silva destacou que, no horário de sol a pino, as vacas predominantemente brancas paravam de pastar. As pretas resistiam mais. "É um equívoco continuar trazendo genótipo de fora, quando se pretende criação a campo de gado Holandês", afirma. Gomes da Silva também considera um engano utilizar touros provados em outros países, que podem não repetir o mesmo desempenho, pelas diferenças nas condições de criação no Brasil.