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São Carlos Agora

Futebol Arte: Documentário inédito aborda brasileiros que torcem para clubes europeus; confira um bate-papo com os autores

Publicado em 25 maio 2015

Por Leonardo Cantarelli

Analisando por base as três primeiras rodadas do Brasileirão, de uma forma geral, temos jogos com baixo nível técnico, sonolentos, com estádios vazios e os nosso melhores jogadores atuando no exterior. Infelizmente nas últimas temporadas, a situação não era muito diferente.

Paralelo a isso, temos hoje na Europa os melhores clubes do mundo e onde estão os melhores atletas. Os jogos de Champions League e das principais ligas são transmitidos aqui no nosso País.

Partidas com alto nível técnico e tático. Transições entre defesa, meio-campo e ataque muito rápidas e eficientes. Poucos passes errados!

A diferença da qualidade de uma partida no Velho Continente para uma no Brasil e América do Sul está cada vez maior! E estamos presenciando isso!

Um dos efeitos maléficos dessa realiade é o fato de já existirem torcedores brasileiros de equipes europeias. Inclusive torcidas organizadas (no bom sentido do termo).

Será que no futuro, os nossos clubes (que aliados às federações e CBF fazem pouco caso) perderão adeptos e estes torcerão apenas por equipes europeias?

Para debater este assunto, de extrema importância para o nosso futebol, trago uma entrevista com os jornalistas recém-formados pela UNESP de Bauru, Leonardo Zacarin (que é de São Carlos/SP) e Lucas Leite que produziram o documentário Fora de Casa: brasileiros apaixonados por clubes estrangeiros (o línk do vídeo está mais abaixo). O Trabalho de Conclusão de Curso teve orientação de José Carlos Marques, ex-árbitro de futebol e sócio-torcedor do Benfica-POR.

Ambos acompanharam em um bar de São Paulo/SP a torcida do Bayern Munique reunida para ver uma partida contra o Stuttgart, pelo Campeonato Alemão . Também bateram papo com adeptos do Real Madrid, que se reúnem na Penha, na capital paulista e é a maior torcida dos merengues na América Latina. Já receberam inclusive uma homenagem da diretoria do clube espanhol.

Zacarin tem 21 anos e atualmente trabalha no Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CEPID-CeMEAI), um centro financiado pela FAPESP e com sede na USP de São Carlos. Atua na área da divulgação científica e na assessoria de comunicação e imprensa.

Já Leite, 23 anos, é natural de São José de Rio Preto/SP e está trabalhando na TV UNESP, de Bauru/SP.

Confira a entrevista com ambos, sobre o vídeo que ganhou nota 10 da bancada de avaliação:

1)Como surgiu o interesse de vocês pelo tema? Gostam de acompanhar futebol europeu?

Leonardo Zacarin: Eu acompanho muito. Sou um dos administradores da página "Premier League Brasil" no Facebook e estou sempre por dentro do que está rolando nos campeonatos de fora do Brasil.

Acho que o ponto de partida foi a escolha do tema do TCC. A gente queria fazer algo de que nós dois gostássemos. Logo de cara, decidimos fazer um documentário sobre algum esporte. Fomos conversando e a ideia de falar sobre brasileiros torcedores de times de fora foi a possibilidade que mais nos agradou. Pensamos ser um tema novo, atual, pouco discutido e um fenômeno que tem crescido muito nos últimos anos.

Lucas Leite: Eu já acompanhei bastante, principalmente entre 2006 e 2010. Era um dos raros palmeirenses que simpatizam com o Man United (em 1999 os Red Devils derrotaram o Palestra Itália na final do Mundial de Clubes). Depois que sai de casa pra fazer faculdade e não tinha mais os canais para assistir eu passei a acompanhar menos, mas sempre achei a disputa futebol brasileiro/estrangeiro muito interessante. O Léo não, o cara sempre foi e sempre vai ser fascinado.

Acho que o ponto de partida foi perceber que esse público vem aumentando demais e tanto a mídia quanto os clubes brasileiros parecem não enxergar isso. Percebemos que é um fenômeno muito pouco retratado e queríamos preencher esse buraco com uma produção sobre o tema.

2)No documentário, vocês acompanharam torcedores do Bayern Munique em um bar em dia de jogo e a do Real Madrid, onde eles se encontram tradicionalmente para verem as partidas. O que acharam do modo deles torcerem para estes times? Sentiram diferença para alguem que torce para os clubes daqui?

Leonardo: Nós assistimos a Stuttgart x Bayern de Munique com a torcida bávara. Não existe diferença entre a paixão que eles sentem pelo Bayern e a que qualquer brasileiro sente por um clube brasileiro. Os torcedores são extremamente apaixonados, devotados e eliminam qualquer ideia de "modinha" que se possa ter sobre eles.

Enquanto entrevistávamos os torcedores do Real Madrid, o Barcelona vencia o Granada por 3x1. A Alê (Alessandra Brandão, presidente da torcida do R.Madrid no Brasil), uma das nossas entrevistadas, xinga o Barça quando sai o terceiro gol. Essa parte até aparece nos extras do documentário. Eles torcem e odeiam os rivais da mesma forma que os brasileiros fazem quando torcem para times daqui. Não existe diferença.

Lucas: Até fomos convidados pela Peña do Real para assistir e gravar um superclássico com eles, mas não pudemos pela data próxima ao nosso prazo (da entrega do trabalho), mas conseguimos assistir a um jogo com a torcida do Bayern, que aparece na introdução do documentário. Pra mim foi uma surpresa entrar em um bar numa manhã de sabádo e ver tanta gente reunida torcendo por um time gringo. Parecia um universo paralelo, mas que na real é uma torcida como qualquer outra, que torce por seu time até mais do que muitos torcedores brasileiros.

3)Tentaram contato com outras torcidas também? Por qual motivo não rolou entrevistas e gravações?

Leonardo: Tentamos, sim. Conseguimos contato com torcedores de muitos clubes - Liverpool, Arsenal, Manchester United, Juventus, Ajax, Milan, Wolfsburg, Schalke 04, Panathinaikos e etc. Mas muitos deles eram de outros estados. Como o trabalho é de conclusão de curso e não recebemos nenhum tipo de verba ou ajuda financeira, seria inviável nos deslocarmos para lugares muito distantes. Os torcedores do Real e do Bayern eram de São Paulo e nossos horários bateram, então acabamos falando com eles.

Lucas: Tentamos e conseguimos contato com muitas outras torcidas e muitos outros torcedores com histórias interessantes. Infelizmente não conseguimos gravar com todos pela distância e pelo tempo do documentário, de apenas 24 minutos.

Foi uma pena mesmo, pois tinhamos muita gente e histórias pra muitos minutos. Fizemos um documentário, mas com certeza havia material pra toda uma série de entrevistas.

Obs: Além de Bayern e Real Madrid, aparece no vídeo uma entrevista com uma torcedora do 1860 Munique, um time tradicional da Alemanha, mas passa por um momento ruim, onde corre o risco de ir para a Terceira Divisão.

4)Há alguma história que queiram contar sobre o documentário que não está no vídeo? Alguma dificuldade ou um fato inusitado?

Leonardo: Acho que os maior problema foi quando o torcedor do Panathinaikos-GRE desmarcou a entrevista. Tínhamos nos planejado para viajar até Londrina-PR (onde reside), mas, poucos dias antes, o torcedor teve um imprevisto e tivemos que cancelar. Foi uma pena, porque era uma história muito legal.

Tem um cara do Rio de Janeiro/RJ que torce para o Chelsea e deu ao filho o nome "Lampard". Não conseguimos falar com ele porque ele é do Rio, mas é uma história bem curiosa! Às vezes, os telespectadores têm a impressão de que os jornalistas que aparecem na TV são chatos ou inacessíveis. Nosso contato com todos eles foi extremamente fácil e todos foram muito solícitos e simpáticos. Acho legal apontar isso.

Obs: No vídeo, os jornalistas que dão entrevistas são Gustavo Hofman, Leonardo Bertozzi, Rafael Oliveira e Celso Unzelte, da ESPN e Bruno Bonsanti, do portal Trivela (primeiro site do Brasil que tratou só de futebol internacional. Atualmente fala de futebol brasileiro e estrangeiro).

Lucas: Nossa maior dificuldade foi em relação ao transporte entre Bauru e São Paulo e dentro da capital, mas ficou longe de ser um problema, pois sempre tinha uma saída ou um app de táxis pra ajudar.

5)No vídeo chegaram a questionar para algumas fontes, se um dia no Brasil teríamos um número maior de torcedores de clubes europeus do que brasileiros e se isso seria rotineiro. Na opinião de vocês, acreditam que teremos muito mais pessoas adeptas de clubes europeus do que dos nossos?

Leonardo: Na minha opinião, a tendência é que esse número aumente, mas não a ponto de ultrapassar o número de torcedores de times do Brasil. Acho que, com o tempo, o torcedor mais comum será o que ama um time do Brasil e que se identifica com algum time de fora. Acredito que a quantidade de torcedores que apoiam prioritariamente um clube estrangeiro vai crescer na medida em que o acesso à televisão a cabo e à internet de banda larga se popularizarem, porque são os meios pelos quais esses torcedores acompanham o dia-a-dia do seu time de coração.

Lucas: Eu acho que é uma tendência sim. Talvez os mais velhos torçam pra times estrangeiros ao mesmo tempo que torcem para um do Brasil, mas acho que entre a criançada os times brasileiros correm um sério risco. Acho que clubes brasileiros precisam olhar pra isso se quiserem manter o número e a paixão dos torcedores daqui a alguns anos.

A revista Placar soltou uma reportagem http://goo.gl/J5vLbG) um tempo atrás sobre o top 10 de camisas infantis vendidas, acho que ela diz muita coisa. Se vamos perder os torcedores eu não sei, mas confesso que depois que gravamos o documentário eu fico muito mais feliz ao ver uma criança com uma camisa do Palmeiras.

6)Por fim, receberam nota 10 da bancada de avaliação do trabalho na apresentação. O que os avaliadores falaram de positivo e negativo?

Leonardo: Eles gostaram muito da qualidade técnica do produto. Acharam a edição muito boa e até compararam com documentários profissionais. Nos encorajaram a tentar emplacar o documentário em alguma mídia grande, porque, segundo eles, o vídeo tem qualidade pra isso.

Só fizeram ressalvas quanto ao relatório, um documento que temos que entregar junto ao produto. Mas era mais coisa teórica, e não prática. Complementamos o relatório e já está tudo certo.

Lucas: Em relação ao vídeo eu só me lembro de elogios, tirando coisas pequenas, mas que dependem da opinião de cada um. Levamos uma bronquinha em relação ao relatório que entregamos junto ao documentário, que deveria estar mais completo. Mas já arrumamos isso também e agora é só correr pro abraço e pegar o diploma.