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Jornal da USP online

Funk: um sonho

Publicado em 16 junho 2015

Por Victória Pimentel

“Se até há pouco tempo o futebol aparecia como uma das poucas possibilidades de ascensão social, hoje disputa espaço com o funk”, destacam as antropólogas Alexandrine Boudreault-Fournier, da University of Victoria em British-Columbia, no Canadá, Sylvia Caiuby Novaes, professora titular na USP e diretora do Centro Universitário Maria Antonia, e Rose Satiko Gitirana Hikiji, professora no Departamento de Antropologia da USP e coordenadora do Lisa (Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da USP) e do PAM (Pesquisas em Antropologia Musical). As três professoras firmam uma parceria iniciada no ano passado com o curta Experiencing Mexico vs Brazil 2014 in Cidade Tiradentes, SP, e lançam nesta quarta o filme Fabrik Funk – A realidade de um sonho (25 min, 2015), sobre o fenômeno cultural do funk em suas diversas modalidades – música, dança, tecnologia, moda, consumo, entre outras –, mas especialmente como a formalização de um sonho de muitos jovens.
“No filme, nosso objetivo é mostrar a realidade de uma grande parcela da juventude paulista, a partir de uma história que, se é caracterizada como de personagens específicos, é extremamente recorrente nas periferias das grandes cidades brasileiras nos últimos dez anos”, explicam as diretoras. Uma realização do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da USP com apoio da University of Victoria e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a produção foi gravada em junho e julho do ano passado no bairro Cidade Tiradentes, na zona leste da cidade de São Paulo, onde está localizado o maior conjunto habitacional da América Latina. A partir da linguagem da etnoficção, a produção mistura documentário e ficção, de modo que questões prezadas pela antropologia possam ser tratadas “de uma forma mais sensível e partilhada”.

O filme e seus personagens são construídos a partir de experiências reais dos próprios atores que participam da produção. O roteiro parte da trajetória de Karoline, jovem que trabalha como operadora de telemarketing e que, encantada pelo universo glamouroso do funk, sonha em se tornar uma MC. Para construir a personagem, a atriz Karoline Cristina, também conhecida como MC Negaly, tomou a sua própria história como inspiração. Os produtores musicais Montanha e Negro JC também representam a si mesmos em Fabrik Funk. Os dois são sócios da Funk TV, produtora independente de Cidade Tiradentes que vem conquistando espaço no mercado e na internet com videoclipes e programas sobre o funk. Além disso, Montanha e Negro JC apresentaram às diretoras o MC Mini e os produtores DJ Bruninho e o DJ Formiga, do Studio FZR, que também participam do filme.
Salientar a independência das grandes gravadoras como um dos aspectos do fenômeno cultural do funk foi um dos objetivos das diretoras. “O funk é um gênero musical que se utiliza das novas tecnologias para se difundir e dispensa as tradicionais gravadoras. Em estúdios caseiros e bem equipados, uma legião de jovens MCs grava suas músicas, que são tratadas pelos DJs, lançadas no Youtube, amplificadas nas ruas das quebradas pelos alto-falantes dos carros tunados. Algumas estouram, com milhões de visualizações, garantindo um bom cachê para o MC nos bailes funk”, explicam. As filmagens tiveram locação no salão Black Power, de Daniel Hylario, que, além de atuar, também participa como coroteirista, ao lado das três diretoras, e como produtor local.
Além de enfatizar a produção musical que se dá dentro das periferias, bem como as aspirações dos jovens em participar desse fenômeno, as antropólogas procuram também levantar duas outras questões: o lugar que a mulher ocupa nesse mundo e os conflitos entre gerações e estilos de vida diversos. “Os enfrentamentos se dão no gosto musical – nossos protagonistas ouvem, além do funk, samba, pagode, gospel e rap –, nos hábitos de lazer e de consumo, nas formas de comunicação, nos sonhos e utopias de cada geração.”

Fabrik Funk – A realidade de um sonho será lançado nesta quarta, às 19h, no Centro Universitário Maria Antonia (r. Maria Antonia, 294, Vila Buarque, tel. 3123-5200), com a presença das realizadoras e de convidados. A entrada é franca, com retirada de senha meia hora antes.