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Fungos geneticamente similares causam infecções graves em diferentes hospitais

Publicado em 17 agosto 2020

Por André Julião | Agência FAPESP

Um grupo de pesquisadores do Brasil, Itália, Espanha e Dinamarca analisou um total de 884 amostras de fungos do gênero Candida, coletadas em 16 hospitais, e encontrou um número significativo do que chamam de clusters presentes em mais de um hospital. Os clusters são conjuntos de isolados de fungo que apresentam sequências de DNA idênticas. A descoberta pode ser um indicativo da presença de variedades mais virulentas e resistentes a tratamentos.

O estudo, publicado na Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, teve apoio da Fapesp.

Fungos como as leveduras do gênero Candida fazem parte da biota do intestino humano e não causam qualquer problema quando o organismo está em bom funcionamento. Porém, quando há algum desequilíbrio por conta de doenças crônicas e internação para a realização de diversos procedimentos terapêuticos por tempos prolongados, elas podem entrar na corrente sanguínea e causar infecções graves, potencialmente mortais.

A candidemia, como é chamada a infecção por Candida em corrente sanguínea, ocorre principalmente em pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTIs), bem como em pacientes submetidos a transplantes de órgãos e tratamento de alguns tipos de câncer, como leucemia.

“Num momento em que há muitas internações de pacientes graves, é preciso monitorar com ainda mais atenção as possíveis fontes de infecção. Apenas a título de exemplo, no momento atual, onde temos um grande número de pacientes críticos com Covid-19, esta é uma complicação para a qual o sistema de saúde deve estar alerta. Esses pacientes demandam de duas a três semanas de internação em unidades de terapia intensiva, expostos a antibióticos, medicamentos imunomoduladores, procedimentos médicos invasivos e hemodiálise”, diz Arnaldo Lopes Colombo, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e único coautor brasileiro do estudo.

Infecção

A maioria das infecções por Candida acontece quando o fungo ultrapassa a barreira do intestino e entra na corrente sanguínea, em função de complicações de doenças graves e admissão hospitalar prolongada. No entanto, uma parte dessas infecções é decorrente da chamada quebra de técnica de higiene das mãos de profissionais de saúde, bem como de cuidados inadequados no manuseio de pacientes submetidos a procedimentos médicos invasivos.

“Esses fatores permitem a ocorrência de transmissão horizontal desses agentes entre diferentes pacientes, o que explica a presença de clusters de infecções acometendo indivíduos internados em uma mesma enfermaria ou, menos frequentemente, em diferentes instituições”, explica o pesquisador.

Os pesquisadores analisaram 884 amostras dos 16 hospitais, nas quais identificaram 723 genótipos de três espécies: Candida albicans (534 amostras), C. parapsilosis (282) e C. tropicalis (68). A boa notícia é que o Hospital São Paulo, da Unifesp – único representante brasileiro do estudo – não se diferenciou muito de países desenvolvidos na frequência de formação de clusters.

Todos os hospitais envolvidos no estudo possuem programas para evitar infecções hospitalares, o que em tese deveria reduzir o número de infecções cruzadas entre pacientes. No entanto, foi encontrado um total de 78 (11%) isolados formando clusters (amostras de mesmo perfil genético infectando diferentes pacientes). A maioria (45 ou 57%) não ocorreu em mais de um hospital ao mesmo tempo, mas uma pequena proporção do total de genótipos encontrados (52 ou 7,2%) foi encontrada em diferentes hospitais, sendo 21 na mesma cidade e 31 em cidades diferentes.

Diferenciação de amostras

As análises foram comandadas por Jesús Guinea, no Instituto de Investigación Sanitaria Gregorio Marañón, da Universidad Complutense de Madri, na Espanha. O único hospital da América Latina incluído no estudo foi o Hospital São Paulo, da EPM-Unifesp.

A técnica usada para encontrar os fungos foi a de marcadores de microssatélite, que analisa regiões do DNA que se repetem ao longo do código genético. Embora não seja tão precisa quanto o sequenciamento do genoma total, ela permite a análise de muitas amostras a um custo razoável, com uma boa precisão para diferenciá-las.

Futuramente, os pesquisadores farão a análise do genoma completo de uma parte das amostras, a fim de confirmar a semelhança genética dentro dos clusters e aperfeiçoar a metodologia de marcadores de microssatélite para estudos genéticos de Candida. Além disso, eles estudam o que torna as cepas que formam clusters tão virulentas, a fim de desenvolver tratamentos mais eficazes.

“Estamos observando que as cepas envolvidas em episódios de clusters apresentam maior capacidade de produção de biofilme, uma matriz extracelular que serve para aderir a superfícies e se proteger do ambiente inóspito – nesse caso, o sistema imune humano”, diz Colombo.