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Diário da Saúde

Fungo híbrido envolvido em infecções pulmonares é descoberto em hospitais

Publicado em 18 junho 2020

Com informações da Agência Fapesp

Fungo hospitalar

Um grupo internacional de pesquisadores encontrou pela primeira vez em ambiente hospitalar uma espécie de fungo, chamada Aspergillus latus, antes encontrada apenas no solo.

O grupo fez o sequenciamento do genoma da espécie e descobriu que ela é na verdade um híbrido, até três vezes mais resistente a medicamentos do que as duas espécies que lhe deram origem.

A aspergilose é uma doença pulmonar causada por fungos desse gênero, principalmente o Aspergillus fumigatus, amplamente encontrado em plantas e no solo. Regularmente, respiramos esporos de Aspergillus, que em pessoas saudáveis geralmente não causam sintomas.

Em pacientes com o sistema imune debilitado, porém, podem causar pneumonia, formar bolas de fungos nos pulmões (aspergiloma) e ainda se disseminar, causando aspergilose pulmonar invasiva, a forma mais grave da doença. O A. fumigatus é a causa mais frequente de aspergilose, mas outras espécies como o A. flavus, A. niger, A. nidulans e A. terreus também causam a condição.

"Em cerca de 90% dos casos, as infecções por fungos do gênero Aspergillus são causadas pelo A.fumigatus. Mas em algumas doenças genéticas humanas existe uma frequência maior de outra espécie, a A. nidulans. Então começamos a reunir material clínico de várias partes do mundo para verificar quanto essa última ocorria no ambiente hospitalar. Para nossa surpresa, seis das 10 amostras eram de um fungo que nunca havia sido encontrado infectando pessoas," contou Gustavo Henrique Goldman, professor da USP de Ribeirão Preto - o estudo reuniu pesquisadores do Brasil, Estados Unidos, Portugal e Bélgica.

Fungo híbrido

O sequenciamento genético da espécie revelou ainda que o A.latus é, na verdade, um híbrido de duas espécies relativamente distantes e que carrega o DNA completo de ambas. Testes realizados por outros grupos já haviam demonstrado que A. latus pode ser até três vezes mais resistente a antifúngicos do que as espécies que lhe deram origem, A. spinulosporus e um parente desconhecido de A. quadrilineatus. Ele ainda é mais eficiente no combate a células imunes humanas.

"Isso mostra que é extremamente vantajoso para o fungo ser um híbrido. Para realizar o melhor tratamento e não gerar resistência aos fármacos existentes, é importante identificar precisamente a espécie que está causando a infecção," explica o pesquisador.

Goldman lembra, no entanto, que poucos hospitais hoje no Brasil têm condições de fazer um sequenciamento genético e identificar os fungos que contaminam os pacientes com uma precisão maior do que o gênero. A identificação é normalmente feita pela análise da morfologia, por meio de exame no microscópio - o que dá margem a diagnósticos errados. As amostras de A. latus do estudo, por exemplo, haviam sido previamente identificadas por esse método como A. nidulans.

Fungos e a covid-19

A presença de fungos no ambiente hospitalar é um conhecido fator de agravamento de doenças e mesmo de óbito. Com a colaboração de pesquisadores da Alemanha, o grupo de Goldman está agora reunindo amostras de fungos presentes nos pulmões de pacientes com covid-19. A ideia é verificar como esses organismos podem piorar o quadro da doença, a fim de desenvolver estratégias para evitar e combater infecções.

"Existem diversos casos de covid-19 que chegaram a óbito devido à concomitância da doença com infecção por Aspergillus. Atualmente, temos quatro cepas que foram isoladas de pacientes que morreram por covid-19 na Europa e vamos realizar o sequenciamento genético para verificar quais as espécies e se elas são favorecidas pela doença," contou Gustavo.

O pesquisador busca parcerias no Brasil para coleta de material, mas o procedimento para isolar as amostras depende de um protocolo clínico bastante rigoroso - que ainda não existe no país - a fim de não contaminar os profissionais de saúde e pesquisadores com o novo coronavírus. Na Europa, o protocolo experimental foi implementado a tempo para a pandemia.

Os casos de concomitância de covid-19 com infecção por fungos do gênero Aspergillus mostram a importância de se conhecer melhor esses microrganismos. Presente em todo o globo, o A. fumigatus, por exemplo, consegue sobreviver a condições extremas, como temperaturas de até 70° C e baixa disponibilidade de nutrientes, podendo extrair alimento até mesmo da água. "Agora mostramos outra característica do gênero, que é a formação de híbridos", disse o pesquisador.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Pathogenic Allodiploid Hybrids of Aspergillus Fungi

Autores: Jacob L. Steenwyk, Abigail L. Lind, Laure N.A. Ries, Thaila F. dos Reis, Lilian P. Silva, Fausto Almeida, Rafael W. Bastos, Thais Fernanda de Campos, Fraga da Silva, Vania L.D. Bonato, André Moreira Pessoni, Fernando Rodrigues, Huzefa A. Raja, Sonja L. Knowles, Nicholas H. Oberlies, Katrien Lagrou, Gustavo H. Goldman, Antonis Rokas

Publicação: Current Biology