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AMDA - Associação Mineira de Defesa do Ambiente

Fungo disseminado na Mata Atlântica ameaça anfíbios

Publicado em 24 fevereiro 2015

Um fungo amplamente disseminado na Mata Atlântica e que já pode ser encontrado também em outros biomas brasileiros, como Amazônia e Cerrado, é uma grande ameaça aos anfíbios, os animais mais vulneráveis à extinção no planeta. Trata-se do Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), causador da quitridiomicose, doença que infecta células com queratina da epiderme de anfíbios adultos, provocando desequilíbrio nas trocas gasosa, de água e de eletrólitos pela pele desses animais e levando-os à morte por parada cardíaca.

De acordo com pesquisadores, desde o começo dos anos 2000 já se tinha conhecimento da presença do fungo Bd na Mata Atlântica. "Estimamos que a presença do fungo na Amazônia seja recente e menos abundante do que na Mata Atlântica. Neste último, aproximadamente 40% dos anfíbios têm o fungo, enquanto na Amazônia a prevalência parece ser menor", explicou Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador de estudo sobre o Bd.

A pesquisa identificou que o Brasil tem uma linhagem nativa e outra híbrida do fungo, provavelmente mais virulenta do que a pandêmica em circulação pelo mundo. "Constatamos que o Bd não está mais restrito à Mata Atlântica e há pelo menos duas linhagens do fungo exclusivas no Brasil", disse Toledo. Além da linhagem pandêmica (Bd-GPL), a Mata Atlântica também tem um linhagem "genuinamente brasileira", batizada de Bd-Brazil, e outra linhagem híbrida entre o Bd-GPL e o Bd-Brazil, chamada Bd-Hybrid.

A descoberta da linhagem híbrida surpreendeu os pesquisadores porque, até então, estimava-se que o fungo Bd se reproduzisse de maneira assexuada - sem conjugação de material genético. "A existência dessa linhagem híbrida indicou que tanto a linhagem Bd-Brazil como a Bd-GPL são capazes de se reproduzir de forma sexuada", explicou Toledo.

Segundo os pesquisadores, a linhagem híbrida pode ser mais virulenta do que as linhagens brasileira e pandêmica do fungo, que causa perda e extinção de espécies em países da América Central, como o Panamá, além da Austrália e oeste dos Estados Unidos. Uma das razões para isso é que o fungo híbrido é maior e possui mais conteúdo de DNA do que as outras linhagens. Com isso, poderia produzir mais proteínas e enzimas que aumentariam sua eficiência na infecção de anfíbios.

Danos

Segundo Toledo, não há uma estimativa oficial do número de espécies de anfíbios que sofreram declínio ou foram extintas no Brasil e em outros países em razão da quitridiomicose porque o fungo só foi descrito em 1998. O que se sabe é que o Bd já infectou mais de 500 espécies de anfíbios em uma grande variedade de habitats aquáticos e terrestres nas Américas e que os maiores declínios foram registrados em regiões com maior diversidade de espécies. "Há uma interação entre a espécie, o fungo e as condições ambientais, como o clima e relevo, que interferem na dinâmica e na propagação da doença", disse o pesquisador.

"Ao entender melhor a ecologia e a fisiologia do fungo e como a doença se propaga será possível identificar melhor áreas para conservação e monitoramento de espécies e outras medidas de contenção do avanço da quitridiomicose", avaliou.

Com informações da Agência FAPESP