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Fungo da monilíase chega ao Brasil. Avanços tecnológicos podem ajudar na contenção da doença que ataca o cacau (1 notícias)

Publicado em 25 de julho de 2021

Por comciencia

Em julho, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) registrou o primeiro foco dentro de território brasileiro do fungo Moniliophthora roreri, causador da monilíase do cacaueiro. A doença afeta principalmente os frutos e é facilmente transmissível.

Os sintomas da doença foram identificados em Cruzeiro do Sul, Acre, e amostras do fungo foram coletadas e validadas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de Goiânia.

O fungo, que até então só estava presente em outros países da América do Sul como Equador, Colômbia, Venezuela, Bolívia e Peru, é do mesmo gênero da Moniliophthora perniciosa, o causador da vassoura-de-bruxa, doença que assolou as plantações de cacau pelo sul da Bahia no fim do século XX.

Ainda não se sabe o potencial de disseminação da monilíase pelas florestas do Brasil, nem a intensidade do impacto que pode causar nas plantações de cacau e cupuaçu pelo Pará e Bahia. O monitoramento da região no Acre já foi intensificado pelas equipes de vigilância fitossanitária.

Após o desastre socioeconômico ocorrido em Ilhéus pelo alastramento da vassoura-de-bruxa, vários pesquisadores se dedicaram ao tema, e as pesquisas avançaram muito, o que pode ajudar a conter a disseminação.

“As doenças que mais mataram na humanidade não foram humanas, mas sim as de planta, porque provocam a fome”, diz Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, professor da Unicamp e coordenador de um grupo de pesquisas que busca desenvolver um fungicida eficiente contra os exemplares do gênero Moniliophthora.

Pereira, que é formado em engenharia agrônoma pela UFBA, explica que a vassoura-de-bruxa já estava na floresta amazônica, em equilíbrio. Ao ser transportado para as fazendas de cacau no sul da Bahia encontrou o clima propício para se espalhar com facilidade – períodos de chuva e sol seguidamente alternados. Assim, a partir de 1989 a cacauicultura no Brasil sofreu uma enorme queda, levando a produção anual despencar de 320 mil toneladas em 1991 para 191 mil toneladas no ano 2000. A queda da produção afetou toda a cadeia produtiva do cacau, levando milhares de pessoas à miséria.

Diante disso, os cacauicultores buscaram saídas para sobreviver, e uma delas consistiu em derrubar mata para vender madeira – atividade de alto impacto ecológico. No processo, eles perceberam que os pés de cacau conviviam melhor com a vassoura-de-bruxa quando recebiam mais sol, o que intensificou ainda mais a derrubada das florestas na região.

“Esse desmatamento, além de tudo, contribui para as mudanças climáticas, o que pode causar as secas mais frequentes na região. As florestas ajudam a manter a umidade e reverter esse processo de seca, que é pior do que a vassoura-de-bruxa” adverte Pereira.

Pesquisas avançam

Há cerca de 20 anos Pereira pesquisa uma droga capaz de inibir o crescimento desses fungos e revela estar muito próximo: “Um produto que permita que o cacau volte a ser plantado na sombra da mata atlântica”.

O desafio maior foi desarmar o mecanismo bioquímico bastante especializado dos fungos Moniliophthora. Neste gênero está presente uma enzima chamada oxidase alternativa (AOX) que tem o poder de “driblar” o sistema de defesa das plantas. Após os avanços do grupo de Pereira a pesquisa evoluiu para a identificação de um fungicida que já existia para o combate de outro tipo de doença, mas que com algumas adaptações se mostrou capaz de enfrentar a vassoura-de-bruxa. Testes práticos conduzidos em uma fazenda de cacau comprovaram o sucesso do agrodefensivo. O processo de aprovação deste agrodefensivo para o cacau está em andamento e o pesquisador se diz esperançoso quanto à eficácia contra a monilíase.

Depois de os números da produção de cacau caírem no sul da Bahia, a dinâmica da cadeia produtiva se alterou na região. Muitos fazendeiros não buscam mais recuperar a primeira posição no ranking mundial, mas focam na qualidade. “ A mentalidade mudou, agora eles querem produzir o melhor cacau do mundo”, aponta Fábio Neves dos Santos, que realiza pós-doutorado na Unicamp.

Segundo o pesquisador, quando existe um selo de qualidade associado, vários fatores são estimulados e aumentam o valor do produto. Além disso, a diversificação de fontes econômicas garante mais segurança aos produtores.

Uma forma de assegurar e agregar valor às produções agrícolas consiste em aproveitar os subprodutos de cada cultura, já que muitas vezes o potencial de certos cultivos é subaproveitado. “O que faço em meu projeto é trabalhar a percepção de valores que os produtores têm dos “resíduos” do cacau, incorporando ciência neste processo e, assim, produzindo um adubo adequado”, diz.

Santos, que é formado em química pela UFBA, atua diretamente com produtores de cacau, e estuda as amostras de cascas com o intuito de desenvolver adubos de boa qualidade. Outro subproduto estudado é o mel de cacau, uma bebida descrita como suavemente ácida, levemente gaseificada – devido à fermentação natural – e com o aroma de cacau bem presente. O mel de cacau tem potencial para agradar muitos paladares, porém algumas etapas como armazenamento e transporte carecem de otimização, já que a bebida é muito perecível.

O desenvolvimento de subprodutos pode trazer alternativas de renda e mais segurança aos produtores da região. “Tudo que não era amêndoa era tratado como resíduo. A casca, o mel, e a polpa eram descartados, até porque a presença deles causa um efeito negativo, acelerando a fermentação da amêndoa e a contaminação microbiana. Os produtores tentavam se livrar o mais rápido possível para gerar um chocolate de alta qualidade no final”, diz.

Sobre produtos que surgem no mercado como a farinha da casca do cacau, Santos diz que vale a pena ter cautela enquanto os estudos não se aprofundam. “Como a casca é facilmente atingida por fungo, é preciso ter cuidado com contaminação microbiológica, além de avaliar sua composição nutricional para saber se agrega valor nutricional aos alimentos”, pondera.

Entrevista com Fábio Santos, formado em química pela UFBA, pós-doutorado na Unicamp.

Entrevista com Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, professor da Unicamp

Monique Rached é bióloga pela Universidade de São Paulo e especialista em jornalismo científico pelo Labjor-Unicamp. Trabalha como quadrinista e ilustradora de técnicas tradicionais e digitais. Atualmente é colaboradora na Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano e bolsista do programa Mídia Ciência da FAPESP.