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Fundação do conhecimento

Publicado em 23 maio 2007

Fapesp completa 45 anos nesta quarta-feira (23/5), com cerimônia na Sala São Paulo. Pesquisadores avaliam impacto da Fundação na pesquisa brasileira e relembram momentos importantes de sua história

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) completa 45 anos de atividades nesta quarta-feira (23/5). A comemoração será realizada às 21h, com um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), na Sala São Paulo.

Mas o marco inicial da história da Fundação é um pouco mais antigo e está fazendo 60 anos. Foi em 1947, quando a Constituição paulista estabeleceu, no artigo 123, que "o amparo à pesquisa científica será propiciado pelo estado, por intermédio de uma Fundação organizada em moldes a serem estabelecidos por lei".

Segundo Carlos Vogt, presidente da Fundação, desde que foi instituída, em 23 de maio de 1962, a Fapesp tem se destacado pela intensidade de suas ações e pela coerência de seu comportamento no cumprimento das missões institucionais que pautaram a sua criação.

"Ela manteve inalterados os estatutos com que foi criada, ao mesmo tempo em que diversificou, no decorrer dos anos, as suas linhas de programa de fomento", afirmou.

Vogt destaca o papel da Fundação na abordagem dos grandes desafios contemporâneos.

"Entre os grandes desafios do mundo atual estão aqueles que se relacionam com o conhecimento: produzi-lo, socializá-lo, transformá-lo em riqueza, preservando a qualidade de vida no planeta e formando competências profissionais com responsabilidade ética e social", disse o também professor titular e ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O presidente da Fapesp destaca que, ao ser criada, a Fundação gerou um princípio de identidade que desenhou as linhas de um processo dinâmico de identificação entre a comunidade de pesquisadores e a instituição.

"Esse processo logo foi traduzido em uma cooperação intensa de demandas, de ofertas, de colaboração crítica e avaliativa, de produção do conhecimento, de sua difusão e divulgação", afirmou.

Segundo Vogt, a Fapesp também proporcionou um estímulo à coesão entre a comunidade científica e a comunidade empresarial, reforçando as linhas de apoio à pesquisa tecnológica.

"Com isso, fecha-se o círculo de aberturas programáticas da Fundação, que vai das bolsas à inovação e desta ao aumento da capacidade de investimento na formação de competências e no desenvolvimento científico e tecnológico do estado como base de seu desenvolvimento econômico e social", disse.

Rumo à sociedade do conhecimento

Para o professor Shozo Motoyama, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), a Fapesp tem tido papel fundamental para a consolidação de uma política científica e tecnológica no estado de São Paulo.

"Para calcular seu impacto na pesquisa paulista, basta olhar o que era a ciência antes e depois da década de 1960. Mas a missão da Fundação fica cada vez mais importante na medida em que o mundo sofre transformações e avançamos rumo ao que chamamos de sociedade do conhecimento", disse à Agência Fapesp o professor, que também é diretor do Centro Interunidade de História da Ciência da USP.

De acordo com Motoyama, a principal mudança da Fapesp nesses 45 anos foi a "magnitude de sua atuação" — tanto em termos financeiros como na multiplicidade de áreas do conhecimento abarcadas pela instituição.

"A partir da década de 1980, e principalmente na seguinte, a Fapesp ganhou uma solidez financeira muito grande. Com isso, sua responsabilidade também aumentou muito", disse o professor, que é o organizador do livro Fapesp — Uma história de política científica e tecnológica, lançado em 2000.

Motoyama ressalta que, com o processo de globalização que se aprofundou nos últimos 15 anos, emergiu um mundo muito mais competitivo, no qual o conhecimento tecnológico — sustentado pela ciência básica — tornou-se fundamental.

"O Brasil agora é considerado um país com grandes potencialidades em termos de desenvolvimento. Por isso, teremos que pensar de forma transdisciplinar. Não basta ter excelência em uma ou duas áreas do conhecimento. Só organismos públicos como a Fapesp podem dar conta dessa necessidade", destacou.

Preparação para o desenvolvimento

Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, o desenvolvimento brasileiro não poderá prescindir de um substancial aumento de capacidade na geração de conhecimento na academia e na empresa.

"A Fapesp está convencida disso e tem realizado com sucesso seus objetivos institucionais", disse.

Brito Cruz destaca que as iniciativas ousadas e de grande impacto econômico, acadêmico e social dos novos programas criados a partir de meados da década de 1990 marcam um ponto de inflexão na história da Fapesp.

"Isso foi possível porque os sucessivos governos de São Paulo vêm honrando meticulosamente o dispositivo constitucional que garante à Fundação o repasse de 1% da receita tributária do estado", afirmou.

Além da estabilidade do apoio estadual e do contato direto e permanente com a comunidade acadêmica, outro ingrediente essencial para o sucesso da Fapesp é o sistema de análise e seleção de projetos baseado na utilização de assessores ad hoc, adotado desde o início da atuação da Fundação.

"Com tudo isso, a Fapesp soube identificar demandas, soube aproveitar oportunidades e apresentou desafios de alto nível à comunidade acadêmica paulista, que soube responder à altura", destacou.

Raízes do sucesso

Warwick Estevam Kerr, primeiro diretor científico da Fapesp — cargo que ocupou até 1965 —, afirma que as conquistas atuais da Fundação refletem seus princípios fundadores.

"Sinto-me muito orgulhoso por ter feito parte da história desta instituição. Acredito que ela é uma realidade muito próxima do sonho da comunidade científica na época em que seu alicerces foram lançados", disse à Agência Fapesp.

 

Kerr conta que o primeiro desafio enfrentado pela Fundação logo após sua criação consistiu em transformar a seriedade em marca. Lembra de uma história para ilustrar aqueles primeiros momentos. Segundo conta, o poder financeiro da nova instituição chamou a atenção de fornecedores desonestos que assediaram a direção com propostas de corrupção.

"Um vendedor de um equipamento que era novidade da época, uma balança analítica Mettler, entrou na minha sala com a seguinte proposta: eu levaria 15% de cada aparelho comprado pela Fapesp. Chamei minha secretária e avisei que os 20 equipamentos já comprados teriam uma redução de preço de 15% e que a sobra seria usada para financiar uns dois ou três projetos. O vendedor achou que eu não havia entendido bem. Eu disse: entendi perfeitamente e, qualquer coisa diferente disso, vamos resolver no tapa", disse.

Depois do episódio, segundo Kerr, ninguém mais se atreveu a fazer propostas semelhantes.

De acordo com o ex-diretor científico — que atualmente é professor voluntário da Universidade Federal de Uberlândia, professor da Universidade Federal do Maranhão e diretor e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia —, a Fapesp também teve papel importante durante a ditadura militar, uma vez que foi responsável por manter no país pesquisadores que eram cassados pelo regime.

"Cheguei a ser chamado de comunista por alguns líderes da ditadura. É que, assim que afastavam um cientista por motivos políticos, eu concedia a ele ou ela imediatamente uma bolsa para que a pesquisa em andamento não fosse prejudicada", disse.

Nos primeiros dias após a criação da Fapesp, Kerr fez uma viagem, com apoio da Fundação Rockefeller, para examinar o funcionamento das instituições de apoio a pesquisa de diversos países, a fim de traçar o modelo da instituição paulista.

"Sistemas como o dos Estados Unidos e do Canadá gastavam demais com o pessoal que examinava os projetos. Os europeus eram melhores. Cerca de 80% do nosso modelo foi extraído do sistema norueguês, que era o melhor de todos. O resultado é que, hoje, a Fapesp é um paradigma internacional no apoio a pesquisa", ressaltou.

Todas as áreas

Para o crítico e ensaísta Antonio Candido de Mello e Souza, a Fapesp, ao conceder, em 1963, as primeiras bolsas para a área de Humanidades, teve um papel importante na mudança dos hábitos mentais e na própria concepção do trabalho universitário.

"O apoio da Fapesp foi decisivo. Sem ele não teria sido possível desenvolver o trabalho que enriqueceu de maneira notável a produção da USP e de outras instituições em matéria de estudos literários", disse Candido em depoimento à revista Pesquisa Fapesp.

De acordo com o professor, além de bolsas, a comunidade acadêmica de Humanidades teve oportunidade de contratar professores estrangeiros como visitantes, mandar estudantes para o exterior e disciplinar o trabalho intelectual graças à exigência rigorosa dos relatórios.

"No fim da década de 1940, quando se falou de tempo integral para o setor de Humanas, várias personalidades universitárias importantes se mostraram escandalizadas: tempo integral para quem não usa laboratórios nem faz experimentações? Passadas as resistências iniciais, a Fapesp foi decisiva para mudar essa visão obsoleta", afirmou.

(Agência Fapesp, 23/5)